''Pra não dizer que não falei da noite de 67''

Produtor musical diz que concedeu 12 horas de entrevista e apenas um único depoimento foi usado no documentário

Solano Ribeiro ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2010 | 00h00

O diretor francês Jean-Luc Godard chegou a declarar que documentário é a verdade em 24 quadros por segundo. Grande mentira. Por mais verdadeira que seja a captação, as imagens passarão pelas mãos do montador, este sim, autor da "verdade" exibida. Quem conhece os segredos da edição sabe que uma cena ou sequência pode ser manipulada para o bem ou para o mal com simples inversão de uma frase ou supressão na edição final da pergunta que motivou a resposta editada.

O documentário sobre aquela noite em 67 mostra o ponto culminante de um processo iniciado por mim, anos antes, com o objetivo de promover nova geração de compositores músicos e cantores que não encontravam espaço na mídia.  

Artistas que traziam propostas musicais e estéticas mais modernas, mais apropriadas a uma também nova plateia que encontrava naquela música eco mais coerente com sua cultura e anseios do que era servido pelo rádio e televisão de então. Esse processo tinha a Bossa Nova como êmulo.

 

 
 Gil no documentário. "O caminho do filme é bom, mas faltam algumas verdades", diz Solano.

O primeiro Festival Nacional da Música Popular Brasileira, de onde sai a sigla MPB, conseguiu abrir as portas da televisão para o elenco que teve Elis Regina com Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, como catalisador. Não aproveitado pela TV Excelsior, encontrou abrigo na Record. Contingências acidentais, como o incêndio que destruiu os estúdios, obrigaram a que toda programação fosse gravada "ao vivo" no Teatro Record Consolação. Foi oportunidade para exercitar o poder daquela música. Palco e plateia, cuja reação provou ser a música popular alternativa às novelas que já registravam grandes índices de audiência. Depois do Festival de 66, a programação musical da Record a colocou no primeiro lugar. Ainda no Festival de 1966, por sentir seu potencial, aconselhei Vandré que olhasse com carinho para a moda de viola. O resultado foi Disparada.

 

Contextos. No documentário Uma Noite em 67, minha participação se resume à frase que revela preocupação em fazer bom programa de televisão. O que era óbvio, mas, seu sentido fica distorcido se suprimido o contexto, não editado, que trazia a pergunta: "Naquele momento você sabia estar fazendo história?" Omissão que transforma e diminui a importância e até a própria razão daqueles eventos.

O filme mostra o momento e o depois. Falta um antes, cujo teor, embora sido registrado nas quase 12 horas gravadas na minha casa, não foi utilizado na versão final. Falta o relato de meus papos com Caetano Veloso e Guilherme Araújo, então seu empresário, em prolongado jantar no então Deck, da Av. Nove de Julho, sobre a necessidade de a MPB deixar de lado sua temática campestre/praieira e olhar para as cidades e seus motivos urbanos, de acordo com o que acontecia naqueles tempos de Lucy in the Sky with Diamonds aos quais a "Alegria..." do Caetano, contrapôs "...sem lenço e sem documento" que pedia instrumentos elétricos. Das tardes onde Chico de Assis, Rogério Duprat e eu tentávamos fazer com que os The Six Sided Rockers, em seguida Mutantes, tocassem moda de viola em suas guitarras.

O caminho escolhido por Renato Terra e Ricardo Calil resultou num bom trabalho, mas para quem escreveu aquela história faltam algumas verdades.

QUEM É

SOLANO RIBEIRO

Solano Ribeiro é produtor musical, diretor de TV e criador de grandes festivais de MPB, como o mítico Festival Internacional da Canção, em 1968. A vaia a Caetano, a censura a Vandré, a emergência de Teté Espíndola: suas experiências são descritas no livro Prepare seu Coração. Dirige o programa Nova Música do Brasil, na Rádio Cultura AM.

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