Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE

Poxa, como é bacana ter um CD do Zeca de novo...

Já nas rádios, faixa que puxa o disco é um sambão que fez sucesso nos anos 70

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

De uns tempos para cá, Zeca Pagodinho vinha escutando a reclamação dos fãs: "Você não grava mais aquelas músicas de dor de cotovelo..." Atento, na hora de selecionar o repertório do novo CD, Vida da Minha Vida, o 22.º de uma carreira que contabiliza mais de 10 milhões de unidades vendidas, o sambista das multidões resolveu corrigir isso.

"Comecei bem romântico, depois fiquei menos", conta Zeca. "E quem nunca passou por uma situação dessa? Eu já passei, e muita mulher já passou por mim também. A música ajuda. O sujeito enche os cornos e bota pra tocar Pela Casa Inteira..."

"Não quero nem pensar/ Ter que voltar pro nosso lar/ É triste olhar o nosso quarto/ E ver que só a solidão existe", diz o samba de Almir Guineto, Magalha e Fred Camacho. É apenas uma das faixas em clima de fossa. Mas é Zeca quem canta, e com ele a dor se torna passageira, ao contrário do que diz a letra.

Ainda que venha, em seguida, Desacerto (Toninho Geraes, Fabinho do Terreiro, Randley Carioca), que trata de uma paixão que se vai sem sequer se despedir, e antes, Hoje Sei Que Te Amo (Nelson Rufino), sobre aquela sensação de que "foi preciso perder pra saber que te amo".

 

Veja também:

som Ouça trecho da faixa "Quem passa vai parar"  

link Uma voz amaciada nos grandes sambas

A mais conhecida delas é Poxa (Poxa/ Como foi bacana te encontrar de novo/ Curtindo um samba junto com meu povo...), regravadíssimo sucesso de Gilson de Souza dos anos 70, que ele ouviu recentemente numa rádio popular, antes da Ave-Maria de todas as tardes. Agora, as rádios tocam o Poxa de Zeca.

Ele prestigiou Souza chamando-o para a gravação. O compositor de Marília se deparou com um estúdio em festa, regada a cerveja e animada pelas tiradas de Zeca e as brincadeiras com os músicos. São eles os integrantes da "família Zeca Pagodinho", à qual o patriarca ergue brinde no início do vídeo feito por sua equipe e divulgado na internet para promover o CD. "Fiz o samba por volta de 1975 e ele foi rolando, rolando, até chegar na boca do Zeca", dizia Souza nos bastidores, o orgulho em forma de sorriso.

Quem também apareceu foi Nelson Sargento, que gravou com Zeca sua idílica Encanto na Paisagem, conhecida nas rodas de samba. A letra fala de um morro "de rudimentar beleza". É a favela romântica, que com o passar das décadas deu lugar à dos fuzis e das ocupações policiais.

Botequim. A sincopada Quem Passa Vai Parar também remete a um Rio do passado - do passado de Zeca. Ele chamou Alcione para entrar no clima de botequim, churrasco, pelada, "um cavaco e um violão na marcação". Realidade que não é mais a do compositor da zona norte, que nasceu em Irajá, criou-se em Del Castilho e hoje mora na pouco inspiradora Barra da Tijuca.

Zeca sente o impacto dos desregrados 51 anos. "Quem disser que não sente, tá mentindo. Tenho muita dor nas costas." Há seis meses, largou o cigarro, companheiro desde a adolescência. Vez ou outra cede e faz dieta, mas a cerveja ele não larga.

Na tarde da última quarta-feira, deu entrevista numa mesa do restaurante do prédio de sua gravadora, a Universal, na mesma Barra. Entre uma pergunta e outra, suplicava ao garçom: "Uma cerveja, pelo amor de Deus! Se não tiver aí, manda buscar lá em casa..."

Quem circulava por lá era o netinho Noah, de sete meses, filho de sua filha Elisa. O menino, que também visitou o estúdio, é homenageado por Zeca em Orgulho do Vovô, em que ele pede "ao Criador" que o bebê, "criado ao som de um cavaco", "seja herdeiro de seu amor pelo samba".

A vida na Barra em nada lembra a dos anos pré-celebridade. Mas o sítio em Xerém, na Baixada Fluminense, foi mantido, e ainda é lugar de pagode, comilança e cervejada. É de onde sai parte do repertório de seus trabalhos. Em uma dessas "brincadeiras", ele ouviu aquela que se tornaria a faixa mais melodiosa deste CD: O Som do Samba, de Marcos Diniz, Barbeirinho do Jacarezinho e Luiz Grande, o "Trio Calafrio", como Zeca brinca, que já lhe deu o hit Caviar.

Serginho Meriti, de Deixa a Vida Me Levar, é coautor de Chama de Saudade, composta com Beto Sem Braço (1940-1993), a quem Zeca só se refere como "professor" (com ele, compôs alguns de seus primeiros sambas cantados pela massa, como Camarão Que Dorme a Onda Leva e Brincadeira Tem Hora).

A deferência vai também à Velha Guarda da Portela, sempre convidada a fazer coro - desta vez, em Dolores, de Monarco e seu filho, Mauro Diniz -, e à Velha Guarda do Império Serrano, afago em Dona Ivone Lara, de quem gravou Candeeiro da Vovó. É a vez do "samba sem agrotóxico", como Monarco gosta de dizer.

Zeca é assim, um homem de muitos afetos, e é também por isso que agrada de Irajá à Barra. De seu bairro, aproveita, quando vence a preguiça, o calçadão da praia. Caminha e é cumprimentado por quem passa - não há quem tenha cerimônia com ele. "Todo mundo fala comigo, o pessoal do caminhão de lixo, o cara do coco, do gelo, os artistas. Vou andando e falando."

Os tipos risíveis que Zeca canta não ficaram de fora do CD. O Garanhão ("malandro", "vacilão"), de Zé Roberto, tema do mal-ajambrado Fortunato de Passione, e O Puxa-Saco ("carrapato, cola, chiclete", que diz "saúde" antes mesmo de o chefe pensar em espirrar), de Alamir, Roberto Lopes e Levy Viana, acertam em cheio.

AS MULHERES DE PAGODINHO

Beth Carvalho

Zeca faz questão de dedicar seus CDs a quem admira. Desta vez, escolheu Beth Carvalho, sua madrinha artística, que o projetou como compositor nos anos 80. Beth está se recuperando de problemas na coluna, que a mantêm refém em casa, e escolhe repertório para um novo CD. Ela pretende gravar com o arranjador e diretor artístico dos discos de Zeca, Rildo Hora.

Dona Ivone Lara

Da dama do Império Serrano Zeca gravou Candeeiro de Vovó, que ela fez com o parceiro mais constante, Délcio Carvalho, e que virou um clássico. No vídeo dos bastidores, a atriz Regina Casé, amiga de Zeca, aparece fazendo coro com a Velha Guarda do Império Serrano. É ela quem evoca "um clima de umbanda" junto aos sambistas veteranos na hora da gravação.

Alcione

Com a Marrom, Zeca divide a faixa mais gostosa de cantar e dançar, Quem Passa Vai Parar (Efson/Marquinhos PQD/Carlito Cavalcanti). O samba fala de hábitos que ele sempre cultivou. "É aquela coisa do subúrbio. Lá em Xerém é assim, você vai bebendo, depois vai pra casa almoçar lá pras 5 da tarde...", suspira o cantor. Aos 51 anos, ele já não faz tantas estripulias.

A filha Elisa

Zeca se orgulha da entrada da filha Elisa em seu coro - presente em quase todo o CD. Ela engravidou ano passado e, agora, Noah é o centro das atenções. É para o bebê a única composição do avô no CD (com Arlindo Cruz). Há mais de uma década Zeca vem preferindo prestigiar os amigos menos afortunados, deixando de lado suas próprias músicas para gravar as deles.

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