Pouco demais

A reação do presidente Lula às críticas de seus opositores e de observadores independentes à violação do sigilo fiscal de tucanos e da família de José Serra, por funcionários da Receita comprovadamente filiados ao PT, só fez endossá-las. Afinal, Lula não reservou nem sequer uma linha do discurso para criticar os aloprados travestidos de servidores. Como presidente de uma nação democrática e não coordenador de uma campanha partidária, tem a obrigação não só de manifestar repúdio a um atentado contra os direitos civis, mas também de mandar que ele seja investigado e punido. Se fosse realmente contra a exploração eleitoral (de resto inútil), trataria de despartidarizar a questão.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

O que fez foi exatamente o contrário. Nem é preciso ser um estadista para agir como deveria; basta ser um mandatário ciente de que o cargo é maior que a pessoa. Acontece que em muitos momentos de seus dois mandatos Lula se esqueceu de tão simples fato. Desde a estrela vermelha que mandou podar no jardim do Planalto até os sucessivos palanques aonde subiu ao lado da ministra nos últimos meses, ele sempre se achou acima do bem e do mal - e, quando houve algum mal, botou a culpa na "praxe". Alguns dias atrás, apareceu com o boné do partido em ocasião oficial. Na defesa de Dilma Rousseff no caso da Receita, mais uma vez posou de vítima e adotou o tom populista para afirmar que se trata de preconceito contra uma mulher, semelhante ao que teria sofrido por ser nordestino - embora no Sudeste tenha estudado, feito carreira como operário e sindicalista e sido apadrinhado por intelectuais para fundar o PT.

Não existe vínculo comprovado entre a ação dos petistas de Mauá e a coordenação da campanha de Dilma. Mas, mesmo no desespero com a iminente derrota em primeiro turno, em nenhum momento li ou ouvi Serra e os demais membros do PSDB atribuindo uma coisa à outra; o que criticaram foi a motivação política dos responsáveis pela quebra, motivação que tentou ser disfarçada, mas que está claríssima. Para saber se ordens vieram de lá do alto ou se a ação foi iniciativa de alguns voluntaristas, mais uma vez, é necessário investigar. Mas, com o presidente da República encorajando a impunidade, fica difícil. Em países desenvolvidos, os chefes de tais "desservidores" já estariam demitidos. E também não se leria gente supostamente séria, como alguns professores paulistas, dizendo na imprensa que o caso é menor e que a culpa é da má cobertura eleitoral da mesma imprensa... Crimes são crimes ainda. Ou depende do que Nosso Guia decretar?

A ausência de Dilma no debate e seu silêncio em relação ao crime dos funcionários da Receita também comprovam esse descaso com as leis e as instituições da democracia. Além disso, mostram a fraqueza do debate na cultura brasileira. Quando escrevi aqui que vivemos sob um pensamento único, não estava me referindo ao lulismo apenas, mas ao conjunto de valores (e falta deles) comum ao atual governo e à suposta oposição. Os tucanos fizeram ataques aqui e ali, mas quase todos foram anulados pelos números ligeiramente melhores da economia, pela implicação de vários de seus membros ou aliados nos maiores escândalos dos últimos anos (como a acusação de que o valerioduto começou em Minas, sob Eduardo Azeredo, que jamais foi contestado por nenhum de seus pares) e pela falta de ideias novas sobre o Brasil - exceto uma frase ou outra de Serra sobre a tal "responsabilidade cambial", a qual meteu mais medo no mercado do que o passado guerrilheiro de Dilma.

Não se trata de dizer que a aliança entre PT e PMDB forma uma espécie de partido único no Brasil, afinal o PSDB tem grande poder em regiões como Minas Gerais e São Paulo, aqui em aliança com o DEM, antigo PFL, tão fisiológico e oligárquico quanto o partido de José Sarney. (Isso explica que a administração paulista ponha tanta ênfase em obras viárias e tão pouca em educação e segurança - assunto ao qual volto outro dia.) Mas se trata de lamentar que o "lulotucanismo" siga imperando, com diferenças apenas de graduações, baseado no duo estabilidade & assistencialismo. Lula roubou as bandeiras todas do PSDB, seguindo e aprimorando as políticas do governo FHC, e com isso os tucanos caíram numa tocaia: se elogiam, não ganham votos; se criticam, atiram nos próprios pés. Têm toda razão quando acusam o governo de loteamento de cargos e aumento da impunidade, mas para a maioria da população essa tem sido a tônica de 510 anos de Brasil... Quando é plausível assim, o cinismo vigora.

Sou a favor de estabilidade & assistencialismo há muito tempo, batalhei verbalmente por eles - aguentando reclamações de ambos os lados - e fico satisfeito que hoje ninguém mais fale em permitir aumento de inflação (como Mercadante tanto falava) ou cancelar bolsas para os pobres (instrumento recorrente em todas as grandes economias). Mas isso não basta, nunca bastou. Volta e meia cito alguns dados que me parecem absurdos em pleno século 21 e deveriam nos encher de vergonha, mas o brasileiro é conformista e colonizado: se tudo parece melhorar um pouco e se os estrangeiros estão elogiando, então valeu, beleza, estamos "quase lá" e a inércia dá conta do futuro. Agora leia o relatório recente do Pnad, ratificando que apenas metade dos brasileiros tem acesso a esgoto e que a renda média apenas recuperou o valor que tinha em 1995, cerca de R$ 1.100. O Brasil melhorou, mas pouco demais.

Rodapé (1). Em 2002 escrevi um ensaio na revista Cult fazendo paralelo entre os dois contos O Espelho de Machado de Assis e Guimarães Rosa, mostrando como "um tende mais ao antimetafísico, o outro ao metafísico". Vejo agora que num seminário da Petrobras chamado Mutações, coordenado por Adauto Novaes, há a mesma abordagem, claro que sem crédito. Notei ainda, como num ensaio para a saudosa revista Entrelivros, que nossos dois maiores escritores são semelhantes em temas fundamentais, como essa questão da identidade difusa, da superação de dicotomias, com seu reflexo nos dilemas brasileiros. "Os dois são, em suma, estudiosos de contrastes, e os contrastes que eles estudam têm os matizes do Brasil: litoral x interior, civilização x índole, cartesianismo x carnavalização. E nenhum deles é partidário sobre essas questões."

Também acaba de sair um livro sobre o assunto, chamado Machado e Rosa - Leituras Críticas, organizado por Marli Fantini para a Ateliê Editorial. São ensaios acadêmicos, alguns muito interessantes, mas são raros os que abordam os dois autores ao mesmo tempo. Os capítulos se alternam, tratando ora de um, ora de outro, ou de aspectos comuns como as dificuldades de tradução, mas o encontro mesmo aparece apenas em Olhares e Espelhos, no qual, como sugere o título, se discute o conto do alferes que confunde o ser e a aparência. O breve texto de Susana Kampff Lages é o que se sai melhor.

Infelizmente, a ninguém ocorreu ir além; por exemplo, tratar da ambivalência sexual de personagens como Bentinho (incapaz de lidar com uma mulher que era mais mulher do que ele era homem) e Riobaldo (apaixonado por um jagunço que não sabia mulher). Os dois escritores, por sinal, foram injustiçados por críticos de renome quanto à sua capacidade de criar vidas, de construir personagens poderosos. Antonio Candido, um dos três maiores da nossa história, escreveu há muito tempo que Machado ficaria menos pela galeria de personagens do que pelos "esquemas narrativos"; e Wilson Martins disse que Riobaldo e Diadorim nem sequer chegavam a ser personagens de verdade. Mas eles e elas estão mais vivos que nunca em nosso imaginário, como mostram esses ensaios e, mais importante, sua força junto ao leitorado brasileiro e mundial.

Rodapé (2). Por falar em paralelos, foi excelente a ideia de Daniela Kern de organizar o livro Paisagem Moderna - Baudelaire e Ruskin (editora Sulina), com as críticas de arte dos dois autores, raramente publicadas no Brasil. Juntá-las permite que se reflita sobre várias questões sobre a arte moderna e o surgimento das cidades, nos termos de dois dos maiores críticos de todos os tempos e que foram contemporâneos: o inglês John Ruskin nasceu em 1819, o francês Charles Baudelaire em 1821. Ambos defenderam ardentemente pintores de sua época, respectivamente Turner e Delacroix, que ao lado de Goya e outros são motivos de disputas infinitas sobre quem foi "o primeiro pintor moderno". De Baudelaire foram traduzidas resenhas de salões de arte; de Ruskin, capítulos do livro Pintores Modernos. No confronto, Baudelaire foi mais agudo e menos moralista, mas Ruskin criou uma leitura mais próxima e, ironicamente, mais sensual. Não, a modernidade não foi um erro.

Por que não me ufano. Modernidade que em alguns solos resiste a vingar. A atual onda de espiritismo em filmes, livros, revistas e TVs não chega a me espantar, porque qualquer pessoa que circula pelo Brasil sabe como ainda se acredita em reencarnação, vida após a morte, etc. O que me espanta é que o assunto seja tão pouco debatido, que o exercício de contestação seja sempre visto como fútil. No Brasil, criticar ou rebater uma crítica, por mais intelectualmente desonesta que seja, é "passar recibo" ou "se levar a sério demais"; a turma do deixa-disso logo se mobiliza em nome de uma harmonia social antirrealista. Mas eu me divirto perguntando coisas como: se os espíritos sobrevivem e se comunicam conosco, têm matéria? Se têm matéria, onde ficam? E por que só escolhem alguns como médiuns, feito povo eleito?

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