Poucas e boas

Lojas de CDs driblam a crise preservando o atendimento especializado e jogando as fichas em produtos importados

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2010 | 00h00

Um garoto de 12 anos, acompanhado de outro da mesma faixa etária, entra na loja de CDs, esquadrinha as prateleiras de rock e acaba comprando por R$ 20 o primeiro álbum do Velvet Underground, com Nico - aquele com a célebre capa da banana de Andy Warhol, de 1967. "Li na Guitar Player que esse disco é importante, fiquei curioso pra conhecer", diz o fã do Nirvana. "Nem tudo está perdido", comentam Ademir e Regina Manzato, dois dos três sócios da Pop"s Discos, em Pinheiros. O garoto não representa o grosso da clientela fiel, na faixa acima dos 30/40 anos, mas a exceção é alentadora para o comércio de CDs, que se julga em crise irreversível.

Uma ronda pela região central de São Paulo fora dos sebos - onde os LPs e DVDs ocupam cada vez mais o espaço que foi dos CDs - evidencia que lojas como a Pop"s, a Compact Blue e a London Calling sobrevivem porque investem na especialidade, na exclusividade e na informalidade e abominam a pirataria (o que muitas lojas do centro já praticam). Nas megastores (como Fnac, Saraiva e Cultura) e magazines/supermercados (como Carrefour, Lojas Americanas), os CDs são apenas uns itens a mais entre livros, copos de plástico e salgadinhos sintéticos. Nas heroicas pequenas lojas, quem vende entende tanto de música quanto a exigente clientela.

Há significativos pontos em comum entre elas. As três trabalham com encomendas, direto nas lojas ou pelos sites, têm raridades e estão sempre em dia com os lançamentos. Têm também clientes fixos, advogados, publicitários, jornalistas, músicos, colecionadores em geral, radialistas e artistas como Nando Reis, Charles Gavin, Raul de Souza, o dramaturgo Alcides Nogueira. Os jazzistas Harvey Wainapel e Jeff Gardner vêm comprar discos de música instrumental brasileira e deixam seus próprios CDs para vender na Pop"s. Na Compact Blue (que tem 60 mil títulos disponíveis), os discos de jazz, trilhas sonoras de filmes e reedições de luxo de clássicos do rock são os campeões de venda.

Nas três lojas também há a predominância dos produtos importados sobre os nacionais. As tiragens de discos no Brasil são muito pequenas e em questão de dois a seis meses somem de circulação. "Os itens raros são nosso diferencial", diz Walter Thiago, proprietário da London Calling, "mas também procuro ouvir e trazer novidades bacanas, como este Loveless Unbeliever, da banda The School, que tem uma vocalista incrível, parece Martha Reeves, The Shirelles." Além de muitos álbuns fora de catálogo de bandas como James, Echo & The Bunnymen, punk, new wave e classic rock dos anos 60 e 70, ele investe no acervo de singles e picture discs para colecionadores de bandas como Oasis, Joy Division e U2. Uma das peças raras é o single numerado de Ask, dos Smiths, autografado pelo baixista Andy Rourke, a R$ 75.

As tardes de autógrafos na loja - que festejou 24 anos com show de Hugh Cornwell, vocalista dos Stranglers, no CB Bar sábado passado - já são famosas. Na parede atrás do balcão, Walter tem registradas as passagens de integrantes de bandas como The Smiths, L7, Toy Dolls, Bauhaus e Ramones por lá. Sua especialidade é rock (principalmente indie), mas a eletrônica e outros gêneros também têm espaço, principalmente no site, que oferece cerca de 300 mil títulos (entre CDs, DVDs e vinis novos), o que a torna "a maior loja virtual no Brasil". Duas pepitas à venda são as compilações Brazilian Guitar Fuzz Bananas, com obscuras bandas de garagem e psicodélicas brasileiras dos anos 60 e 70, e Brazilian Pós-Punk - Não Wave, edição alemã, cada um por R$ 59,90.

Raridades. Colecionador de Frank Sinatra, jazz, shows da Broadway e trilhas da Disney, o engenheiro Nelson Toledo, assíduo frequentador da Compact Blue, se entusiasma: "O que não tem em lugar nenhum, encontro aqui. O dono conhece o gosto da gente", diz. É verdade. Novidades importadas aparecem rapidinho lá. Entre os vários bons títulos trazidos esta semana há tentadores álbuns de Bing Crosby (On the Sentimental Side e Return to Paradise Islands, entre outros), pela primeira vez em CD, e a reedição de Roman Candle, o primeiro de Elliott Smith, que estava fora de catálogo. Caçar raridades (muitas de música brasileira também) é uma diversão por lá.

"Nunca quis ter loja de rua, para evitar assalto e para não atrair público que não me interessa. Ficar escondido até facilita para atender melhor o cliente que merece atenção", diz Joel Zalc, um dos três proprietários da rede, um negócio em família que tem outras lojas menores, uma na Avenida Paulista e outra na Rua São Bento, no Centro. A da Augusta é a principal e vai mudar de endereço em breve.

Lojas como essas (e os sebos) viram ponto de encontro, especialmente aos sábados. Além de prazeroso, é cultural. É comum um cliente entrar na conversa do outro para trocar ideias, sugerir títulos, contar histórias e novidades. Proprietários e consumidores falam a mesma língua. Por isso eles estão sempre atrás de novidades para atender à demanda. "Temos clientes desde quando abrimos a loja de LPs em 1979", conta Regina Manzato, da Pop"s.

Entre os 15 mil títulos da loja você encontra muita coisa fora de catálogo, uma infinidade de álbuns clássicos do jazz e do rock. É onde se acha com mais facilidade discos independentes de música brasileira, vocal e instrumental, e vários títulos do mainstream da MPB. Entre as preciosidades da Pop"s há discos de Sebastião Tapajós, Tom Waits, da banda Gov"t Mule, os da ex-banda de Manu Chao, Mano Negra e Bim Bom: Complete João Gilberto Songbook, de Ithamara Koorax e Juarez Moreira. "Todo dia vendemos pelo menos um Bob Dylan. Madonna encalha."

COMPACT BLUE

Onde: Rua Augusta, 1.592, sobreloja 11, telefone 3251-5248, metrô Consolação. Quando: De 2ª a sábado, das 10 às 20 horas.

Site: www.compactblue.com.br

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