Potinhos da Turquia

Na primeira vez de um homem e uma mulher, que mal se conhecem e dividem por uma noite a maior das intimidades, seus corpos, em que se entregam e se consomem, há um final que é habitual: o que aconteceu exatamente?

MARCELO RUBENS PAIVA, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

Então, se perguntam em segredo, na nostalgia precoce da despedida, com a porta do elevador aberta, se será que vai rolar novamente.

Como se conheceram? Onde muitos se conhecem: numa festa de amigos em comum.

Ela chegou acompanhada por um garotão que faz sucesso com o mulherio do grupo. Linda. Se olharam, se cumprimentaram e passaram muito tempo se examinando de longe. Até acabarem o gelo, o sorvete, a seleção do iPod de um, e passarem do uísque para a cerveja. Os que acordavam cedo foram embora. Como o garotão dela, depois definido como "apenas um amigo".

De repente, estavam juntos num sofá, oferecendo carinhos discretos, descobrindo afinidades, coincidências. Eram tantas, que não deu outra, trocaram os números de telefone, para continuarem aquela conversa com um grau de sobriedade aprovado em qualquer blitz do bafômetro.

Na verdade, ela já reparara nele em outras ocasiões. Em encontros em que ele estava sempre acompanhado por uma garotinha de minissaia que não parava de falar, com a metade da idade dele, definida como "periguete", termo de que ele nunca ouvira falar. Filha de um amigo, ele confessou. Foi um erro, um deslize.

Ela gostou da resposta. Se queixaram da hipocrisia dominante nos novos tempos. Terminaram o papo imaginando se era possível haver 100% de honestidade numa relação de trabalho, amizade ou amorosa. E imaginaram, gargalhando, as possibilidades de se dizer a verdade sempre. Como num quadro do Fantástico.

Haveria o dia em que um cara diria para uma mulher: Só quero te comer. Ou que ela diria para o cara: Sorry, você até que é gato, mas não rolou química, e estou apaixonado por um restauranter especialista de comida mediterrânea. Ou chegaria alguém para reclamar ao chefe: Olha, eu até poderia enganá-lo e afirmar que a concorrência quer me contratar pagando o dobro, mas será que não rola um aumentinho?

Foi no dia seguinte que ele torpedeou confessando que adorou o encontro. E ela respondeu de imediato dizendo que era mútuo. Ele perguntou então quando poderiam repetir, tomar um café, que é o código que se usa para encontros que sabe-se lá como terminam. E ela devolveu perguntando quando ele podia. Ele nem titubeou e disse que no dia seguinte. E logo se arrependeu, pois sabe que, nunca corte, a ansiedade é um veneno sem antídoto para o começo de uma história. Mas ela não podia, e perguntou se não poderia ser naquela mesma noite, em que ela estava livre. Ele, enfim, respondeu claro que sim. Sugeriu o café ao lado da casa dele. Ou na própria casa dele. Deu o nome da rua, para saber se ela teria como ir até lá. A resposta demorou. Deve estar refletindo, pensou, no convite ousado, sem rodeios. Será que fui rápido demais? Ou está no outro lado da cidade. Bem, fui honesto. Ela demorou, mas respondeu que morava na mesma rua, a uma quadra dele, e que levaria um tempinho para se arrumar e um jantar.

Eles tinham poucos minutos. Ótimo, pois não deu tempo para se perguntarem se faziam a coisa certa, já que praticamente se conheceram mesmo na noite anterior.

Ela chegou logo depois carregando uma informal sacola de feira, com uma deliciosa baguete para fora, comidinhas e um vinho. Riram da coincidência. Tinham a mesma farmácia, banco, café na esquina, feira, e nunca se encontraram pelo bairro.

Ele colocou Curtis Mayfield. Sem pestanejar. Achou que era quem combinava com aquela noite. Ela serviu a mesa. Pão, queijos, vinho, morangos, geleias, água de coco... Existe algo mais propício?

Meia hora depois estavam agarrados na sala. Minutos depois ele a levou para conhecer o apartamento. Segundos depois ele estava na cama. Ela subiu em cima dele. Ele levantou o vestido dela. Estava sem calcinha. Sem sutiã. Com uma camisinha na mão.

A afinidade no papo era a mesma do ato. Como se conhecessem há anos. Descobriram rápido do que o outro gostava. E como gozava. Se deliciaram sem culpa. Se deram na primeira noite. E daí?

Entraram pela madrugada na cozinha, já vestidos. Ela enfiou a sobra de queijos e geleias na geladeira dele. E mataram o vinho. Lavaram a pouca louça. Deram um tapa na pia. Falaram do passado amoroso de cada um. Um rápido resumo do presente afetivo.

Então, ela disse, enxugando as mãos num pano de pratos: "Já que a honestidade é a marca do nosso encontro, queria dizer que estes potinhos são da Turquia, gosto muito deles. Posso deixá-los aqui. Mas a gente vai se ver de novo?"

Ele abriu o armário da cozinha, para guardar as taças, e viu outros potes da Turquia, Grécia, uma xícara do México, outra do Peru, autêntica, pois estava escrito nela "Perú" com acento. E se lembrou de brincos de prata, pérolas e até um relógio esquecidos por outras, perdidos em gavetas pela casa. Sabia exatamente a quem pertenciam. Nunca foram devolvidos. Periguetes?

Riu e concluiu. Sim, devolverei estes potinhos. Haverá outro encontro, ele respondeu, despedindo-se na porta do elevador. Honestamente.

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