PORTUGUESA O SUINGUE DA

Sob as bênçãos de Quincy Jones, Maria Mendes desponta como sensação no cenário do jazz

ROBERTO MUGGIATI , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2013 | 02h08

Maria Mendes achou graça quando eu disse que ela vinha de "jazzes nunca dantes navegados". O contato com o outro lado do espelho - a língua falada de Portugal - me leva a inventar palavras e sotaques. Com a maior inocência, Maria diz que gravou esta ou aquela canção "em brasileiro". Estamos no sol a pino da Praia de Ipanema, sob 40 graus, fazendo fotos da diva e conversando sobre este curioso fenômeno: uma cantora portuguesa que surgiu de repente para o jazz com a chancela de Quincy Jones, presidente do júri do Montreux Jazz Voice Competition em 2010. O maestro decretou: "Vejo um futuro promissor e brilhante para esta jovem e talentosa cantora".

Na verdade, não houve nada de repentino no sucesso de Maria Mendes: ele foi construído laboriosamente ao longo de 24 dos seus 27 anos de vida. Aos 3 anos ela já cantava no chuveiro. A família do Porto, com fortes ligações artísticas - os avós eram intérpretes eruditos -, decidiu investir na carreira da menina. Aos 13 anos já estudava canto lírico, aos 16 era solista na Gloria de Vivaldi. Aos 17, porém, mudou seu curso: apaixonou-se pelo repertório das jazz ladies, aqueles standards cantados por Ella, Billie e Sarah.

Em 2004, matriculou-se na Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Porto, especializando-se em jazz e ampliando os conhecimentos não só de interpretação vocal, mas de música em geral. Uma das professoras, a cantora holandesa Fay Classen, foi forte influência para que ela decidisse mudar para a Holanda, onde mora desde 2007.

Quase sempre estas trocas de país têm a ver com o amor. Pergunto a Maria se ela casou com um holandês. Ela reage num tom rebelde: "Casei-me, não! Moro com um holandês!". Maria casou também, de certa forma, com o trio holandês que acompanha o gaitista belga Toots Thielemans: Karol Boehlee (piano), Clemens van der Feen (baixo) e Jasper van Hulten (bateria), além do gaitista Wim Dijkgraaf, discípulo de Toots. Os quatro participam do CD de estreia de Maria, Along the Road, gravado no ano passado na Alemanha e Holanda e mixado na África do Sul, refúgio do "mago" Hein van de Geyn, que foi contrabaixista de Chet Baker.

Maria promove o álbum em turnê internacional desde setembro, com plateias esgotadas em Lisboa, Porto e Amsterdã. Inaugurou o Ano de Portugal no Brasil com apresentações em fevereiro nos Sescs Pompeia e Sorocaba, em SP, e na casa de jazz carioca TribOz, e prosseguirá ao longo do ano com shows na Holanda, Suíça, Portugal, Espanha, Ásia e EUA - o Blue Note de NY será "a cereja do bolo". No Brasil, foi acompanhada por um trio de feras: Kiko Continentino (piano), Paulo Russo (baixo) e Márcio Bahia (bateria), além do gaitista do CD, Wim Dijkgraaf, holandês que também é dos nossos, por ser casado com uma brasileira.

Epígrafes são comuns em livros, mas raras em CDs. Maria extraiu da letra de Over The Rainbow - a canção de Judy Garland em O Mágico de Oz - um lema e uma lição de vida: "Where troubles melt like lemon drops/ Away above the chimney tops/ That's where you'll find me. (Onde os problemas derretem como drops de limão/ Ao longe, acima das chaminés/ É lá que você vai me encontrar.") Diz ela: "Tudo está ao seu alcance, quando você luta com empenho por aquilo que realmente deseja".

As dez faixas do álbum - "uma criança gestada ao longo de nove meses" - são uma amostra da polivalência de Maria: dois standards de Harold Arlen, Over the Rainbow e Come Rain or Come Shine; três canções brasileiras com a letra em inglês: Love Dance, de Ivan Lins e Gilson Peranzetta; Obsession, de Dori Caymmi e Peranzzetta, e So Many Stars, de Sérgio Mendes; duas em "brasileiro": Verão, de Rosa Passos, e Começar de Novo, de Ivan Lins; e uma na língua universal do scat, um saltitante Chorinho Pra Ele, viajando pelas harmonias geniais de Hermeto Pascoal. E, é claro, as duas faixas em que Maria, além de intérprete, mostra seu lado autoral: Olha Só no Meu Olhar, parceria com Pat Metheny; e Saia Preta, um tema que remete à nostalgia luso-brasileira.

Com bisavós do lado materno residentes em Curitiba, ela sempre buscou resgatar seu lado brasileiro. Numa viagem anterior, Maria ouviu Caetano cantar no Canecão e, voltando para casa num táxi, foi acometida na Lagoa Rodrigo de Freitas por uma erupção criativa e compôs Saia Preta na hora. Ela vestia saia preta na ocasião, mas a saia preta vai mais longe, um símbolo do fado e da alma feminina portuguesa.

Aproveitando a estada no Rio, ela grava um clipe promocional da canção. Por estas e outras, apesar do neologismo e do plágio camoniano, quero ver (e ouvir) Maria Mendes continuar na sua bela trajetória "por jazzes nunca dantes navegados...".

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