Português Fernando Lemos expõe aquarelas em SP

As pinturas e aquarelas que Fernando Lemos expõe a partir de amanhã na galeria Múltipla mostram o vigor criativo desse artista múltiplo, capaz de continuar experimentando novos caminhos sem abandonar, no entanto, as lições que aprendeu ao longo de meio século fazendo arte. Se, num primeiro momento, têm-se a impressão de que existem vários Fernando Lemos, ele próprio vai aos poucos desvendando o que há de comum entre as várias fases de seu trabalho.A mesma transparência presente nas pesquisas fotográficas de teor surrealista que desenvolveu no início da carreira, quando ainda vivia em Lisboa (o Instituto Camões acaba de lançar um livro reunindo uma série de fotografias de personalidades portuguesas de sua autoria), está presente nas obras em cartaz na galeria paulistana. A diferença agora é que o artista radicado no Brasil há 47 anos se permitiu uma maior liberdade. Conhecido no País principalmente pelo abstracionismo geométrico (ainda que livre) que lhe rendeu prêmios como o de Melhor Desenhista Nacional da 4.ª Bienal de São Paulo, Lemos abriu-se ao mesmo tempo para a cor e para a figuração. As pinturas dessa nova fase em que Lemos resolveu "se desorganizar" foram feitas há quatro anos, a partir de pesquisas do artista sobre o tema dos ex-votos. "Estou trabalhando com ícones que nada tem a ver com aquilo a que se referem", explica ele. Apesar de ser figurativo, o trabalho não tem nada de narrativo. Os ícones que remetem à figura humana se organizam na tela de forma solitária ou estabelecendo campos de tensão e equilíbrio. Há também nessas obras uma certa filiação à escrita automática dos surrealistas que encantam o artista desde o início de sua carreira.Da pintura para a aquarela - técnica que considera a mais difícil e que só havia realizado quando estudante - foi um salto quase natural. Com essa técnica, as pesquisas com transparência ganharam maior impacto e a capacidade de controle do artista sobre o produto final é ainda menor. E essa crescente cota de acaso parece encantá-lo. "A cor é a memória da luz, mas há na pintura razões que a própria cor desconhece", ironiza ele para referir-se com prazer à interferência natural entre as cores, potencializada pelo uso da água como base.Esses trabalhos foram expostos em Portugal há três anos, mas até agora Lemos não havia conseguido encontrar uma galeria em São Paulo disposta a mostrar seu trabalho. "Muitos galeristas me disseram muito claramente que só expunham gente jovem", conta. Ironicamente, esse foi o adjetivo usado pela crítica lisboeta para referir-se à sua obra.Esse problema não é exclusividade dele. "É uma geração de alta velocidade", diagnostica ele, lamentando que "a maior parte dos jovens sabe mais o que se passa em Nova York do que aqui".Isso fez com que Lemos se voltasse cada vez mais para a sua terra natal, onde esteve proibido de entrar até o fim da ditadura salazarista. Como saiu de Portugal ainda jovem, em 1953 ele não tinha uma história tão sólida no país. "Acabei ficando no papel do famoso que ninguém conhecia", brinca. "Hoje estou procurando dividir-me, até porque minha geração está muito parada por aqui; o Brasil está começando a se preocupar apenas com o máximo do presente", diz o artista, que realizou sua última exposição há cinco anos no Masp. "Foi uma mostra de desenhos, mas muito mal realizada", lamentou o artista que, apesar das dificuldades, conseguiu mostrar que só a partir de sólidas bases se constrói uma obra madura e inovadora.Fernando Lemos - De segunda a sexta, das 10 às 19 horas. horas; sábado, até as 14 horas. Múltipla de Arte. Av. Morumbi, 7.986, tel. 241-0157. Até 17/7.

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