Portugal volta com seu melhor Teatro

Sombras, no Teatro São João, do Porto, estará no Brasil no ano que vem

Jefferson Del Rios ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

Sombras, o novo espetáculo de Ricardo Pais para o Teatro Nacional São João, do Porto, Portugal, estreia naquela cidade no dia 18 e será umas das atrações internacionais da temporada paulista de 2011. Com variações no elenco, teremos o mesmo talentoso encenador e a companhia que trouxeram, no ano passado, Turismo Infinito, baseado em Fernando Pessoa. Intercâmbio artístico que se segue à montagem de Madame, de Maria Velho da Costa, que reunia Maria Eduarda, de Os Maias, de Eça de Queiróz e Capitu, de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Estas mulheres inquietas foram interpretadas por Eva Wilma e Eunice Muñoz.

Em Sombras, Pais continua a repensar teatralmente as imagens, reais ou inventadas, em torno da nação portuguesa ao longo do tempo. O ponto de partida é um verso do seu compatriota, o poeta Alexandre O"Neill (1924-86): "Portugal, questão que tenho comigo mesmo." Potências literárias - do quinhentista António Ferreira, o dramaturgo da tragédia A Castro, a Almeida Garrett, Fernando Pessoa e poetas contemporâneos - formam o texto. Na composição plástica e sonora desse universo múltiplo entram dança e vídeo, fado e fandango.

Há uma afetuosa relação prévia de Sombras conosco. Ricardo Pais evoca a passagem anterior por aqui: "Quando há um ano estivemos no Brasil com Turismo Infinito, me perguntaram por que é que nós não fazíamos um espectáculo de fado "a sério". Ao que respondi: Mas já fizemos várias coisas de fado a sério. Seja como for, a proposta dos nossos amigos brasileiros aconteceu porque a identificação do público de São Paulo com Turismo Infinito e com o Fernando Pessoa foi fascinante. E boa parte do fascínio decorreu do fato de as pessoas ouvirem portugueses a dizer Pessoa."

Assim nasceu Sombras: a proposta de Pais e seus companheiros de "fazermos algo que correspondesse, na medida do possível, à encomenda brasileira: uma incursão no território da nossa língua, aí incluindo o fado. Ocorreu-me que seria interessante brincar um pouco com nossas histórias, nosso próprio sistema de lendas, a mitologia de D. Sebastião, etc."

Contrapondo-se ao viés trágico que se atribui ao fado, a representação traz à cena outro gênero, o fandango, que o diretor define como uma cavalgada eufórica. Sombras foge ao realismo documental e à exaltação passadista em favor da exposição poética dos contrastes de Portugal. O tom é de evocação histórica, ecos dramáticos extraídos da ficção, poemas e fragmentos de prosa. A linha emocional da ação junta tempo, fado, figuras nobres e plebeias; e, como acentua o diretor, expõe "a timidez em enfrentar o nosso próprio retrato, ou a pressa de perdoar, de aplacar; e ainda a vida lisboeta nos escassos mas vibrantes textos populares de Pessoa; a vertigem da culpa e do desejo nos poemas de Pedro Homem de Mello" (autor da letra do fado Povo que Lavas no Rio, consagrado por Amalia Rodrigues e recriado por Dulce Pontes)

O subtítulo da encenação - "A nossa tristeza é uma imensa alegria" - simboliza a recusa em enquadrar uma imagem nacional no lamento e na eterna perda. Na sua concepção, por mais que se fale do fado como rito de sofrimentos, o importante é a vitalidade com que se canta. Cantar para que o dia nasça e afaste as trevas.

No Brasil. Na companhia de Mário Laginha, um músico inovador entre o jazz e suas raízes, atores, cantores fadistas e bailarinos, todos de alto nível, o Teatro Nacional São João estará, em junho e julho de 2011, em São Paulo, Santos e Belo Horizonte (locais a serem definidos) com a sutileza de Sombras que, segundo Pais, exalta os jogos de equívocos e verdades de que o teatro é capaz e nunca parece saciar-se.

QUEM É

RICARDO PAIS

DIRETOR DE TEATRO

O encenador português, nascido em Maceira, em 1945, é um criador audacioso, dos melhores de sua geração. Estudou no Drama Centre London e trabalhou com Victor Garcia, o revolucionário encenador argentino.

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