Porta para entender a tragédia argentina

Em Gramado, Puerta de Hierro mostra retrato imparcial de Juan Perón

LUIZ CARLOS MERTEN , GRAMADO, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2013 | 02h09

Há um momento de Porta de Hierro - El Exilio de Perón tão surreal que o espectador não familiarizado com a história argentina pode pensar que aquilo é um delírio do realismo fantástico à Gabriel García Márquez. O ex-dirigente Juan Domingo Perón, exilado em Madri, recebe, enfim, o esquife contendo os restos de sua ex-mulher, Eva Duarte Perón, a Evita. Ela morreu prematuramente de câncer, foi embalsamada, o corpo desapareceu e, quando foi encontrado e enviado à Espanha, o caixão estava violado e o cadáver havia sido profanado com várias facadas.

Perón consulta-se com a morta. Ele se casou de novo - com Isabelita, a quem chamava de Chalita - e ela ficou a influência de um bruxo, José Lopez Rega. Tudo isso é História, mas ao ver as cenas - Isabelita de joelhos junto ao esquife e o bruxo fazendo mandingas para incorporar à atual mulher de Perón a aura da ex -, o público pode se perguntar se aquilo tudo não é produto de uma mente muito delirante. Com os defeitos que possa ter, o filme interpretado e dirigido por Victor Laplace, é bom ver Puerta de Hierro porque é uma iniciação a um personagem mítico e uma tentativa de entendimento do inconsciente coletivo de um país vizinho do Brasil, mas que os brasileiros não conhecem.

Da Argentina, sabemos que tem um futebol que concorre com o do Brasil, um craque (Maradona) que se considera superior a Pelé e um cinema que ganhou duas vezes (duas!) o Oscar. Puerta de Hierro abre uma porta para a compreensão da tragédia argentina. Perón, o pai da pátria, pai dos pobres - Evita era a mãe -, não tem descendência. No exílio, ele trama a volta à pátria, tece alianças. E escreve para uma amiga - a única personagem fictícia, Sofia - suas memórias. Perón pensa a política, antecipa de 50 anos o ABC da união intercontinental, entre Argentina, Brasil e Chile, mas sua tragédia e da Argentina é que, ao regressar ao país, está morrendo de câncer e Isabelita, quem fez eleger vice-presidente, está nas mãos de um demente.

Pode ser que o filme seja excessivo, longo, mas não é chapa-branca. Pega seu personagem num momento de dúvida, e o Volver, com o tango famoso de fundo, é uma covardia. Uma grande cena para levantar plateias. O filme, embora passe uma sensação de urgência, foi muito pensado. Victor Laplace, que codirigiu (com Dieguillo Fernández), pensou seu filme também como cinema. Não importa o tempo que fazia quando o esquife de Evita chegou a Puerta de Hierro. Na ficção, é com chuva, trovões. Um clima de terror. "Nós argentinos somos exagerados, passionais", disse o ator e diretor ao repórter.

O brasileiro também talvez seja, mas Bruno Safadi segue o caminho oposto em Éden. Um pastor evangélico tenta manipular uma grávida cujo marido foi vítimas da violência urbana. Ela parece ceder, mas vai resistir. Leandra Leal descobre que a vida, o filho, é mais importante e só por meio dele ela poderá renascer. Éden já passou no Festival do Rio do ano passado. É rigoroso, exigente. A narrativa reduz-se ao essencial, com lacunas que o espectador tem de preencher e uma pesquisa sonora das mais elaboradas. O festival mal começou, mas já há o que admirar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.