PORTA DE ENTRADA DA RUÍNA

Em Los Enamoramientos, o espanhol Javier Marías explora o risco dos segredos

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

Maria Dolz observa, a cada dia, antes de ir ao seu trabalho de assistente editorial, a felicidade contagiante de um casal que ela vê como perfeito: no trato, no carinho, no afeto entre eles. A alegria do casal é tamanha que ajuda ela mesma a viver sua vida e aguentar seu cotidiano em uma editora repleta de escritores caprichosos. Um dia, no entanto, o homem nunca mais retorna ao bar onde ela os observava; foi assassinado. Esse é o arranque do desconcertante Los Enamoramientos, do espanhol Javier Marías. A história de Maria Dolz estrutura o primeiro romance do autor após o monolítico Seu Rosto Amanhã, uma narrativa de 1.300 páginas editada em três volumes. Los Enamoramientos é mais um mergulho no universo de Marías, no qual conhecer o segredo do outro é a porta de entrada para a ruína.

O estilo de Marías, que em outras obras se tornava convoluto pelo excesso de idas e vindas de seus narradores, agora se torna fluente e elegante. As narrativas de Marías são uma quebra do realismo convencional: narradores dotados de uma capacidade ímpar e peculiar de pensar o mundo, ao descreverem suas tramas, se perdem com elucubrações sobre aquilo que os acontecimentos lhe sugerem. Pode-se dizer que pouca coisa acontece, mas isso não é a verdade: o que acontece é o pensamento da personagem enquanto ela recobra as peripécias da trama.

E a trama de Marías, em Los Enamoramientos, é o descaminho do amor - suas inúmeras máscaras. Desde o amor perfeito que o casal representava aos amores casuais da narradora; do amor enlutado da recém-viúva ao do melhor amigo do falecido - e até mesmo o amor patético de um escritor da editoria em que ela trabalha pela sua obra. Se o romance ficasse apenas nisso, na amizade da narradora pela viúva, e na presença que os mortos têm na vida daqueles que restaram, já seria perfeito. Mas ele toma um inesperado caminho para a trama policial, que no início parece arbitrário e depois ganha uma força gigantesca ao explorar, no fundo, outros tipos de amor - pela violência e impunidade, pela vingança e inveja.

Poderoso no retrato que traça da sociedade contemporânea espanhola, Marías se destaca em uma literatura com nomes fortes como Vila-Matas, Javier Cercas, Juan Marsé e Antonio Muñoz Molina. Não é pouco.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

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