Nicole Xu/The New York Times
Nicole Xu/The New York Times

Por que os idosos conseguem se manter mais felizes na pandemia

Novas pesquisas feitas durante o ano passado mostram que a capacidade de enfrentar a pandemia melhora com a idade

Benedict Carey, The New York Times

16 de março de 2021 | 09h00

Apesar de todos os desafios para a saúde mental, este ano de pandemia também foi um teste para a ciência da psicologia e, em particular, uma das suas verdades mais reconfortantes: a de que, em regra, a idade e o bem-estar emocional tendem a aumentar juntos, mesmo quando a acuidade mental e a saúde física diminuem.

A conclusão é sólida. Comparadas com jovens, as pessoas com mais de 50 anos de idade têm uma nota consistentemente mais alta, ou mais positiva, numa ampla faixa de emoções cotidianas. Elas tendem a ter emoções mais positivas e menos negativas num dia, independente de renda ou educação, de acordo com amostragens nacionais (o trabalho ainda precisa ser realizado em comunidades mais pobres, rurais e de imigrantes).

Mas esse diferencial requer uma explicação clara.

As pessoas de algum modo desenvolvem uma melhor habilidade para enfrentar situações à medida que envelhecem?

Ou elas refinam suas habilidades reduzindo o número de situações estressantes e os riscos que enfrentam à medida que ficam mais velhas?

Para testar esses dois cenários, os cientistas precisavam de um ambiente em que populações mais jovens e mais idosas se encontrassem em situações igualmente estressantes.



Mas “nunca houve uma situação em que, de algum modo, conseguiríamos testar os efeitos de um estresse extremo nesta relação de alguma maneira ética”, disse Susan Charles, professora de psicologia da universidade da Califórnia, em Irvine.

O coronavírus mudou isso. Se a pandemia que atingiu o país durante a primavera mostrou algo de maneira clara foi que as pessoas mais velhas deparavam com um risco muito maior - de adoecer e morrer de covid-19, do que os jovens.

“Desde o início o vírus foi uma ameaça para as pessoas idosas que elas simplesmente não conseguiam evitar e isto, decisivamente,  aumentou o estresse”, afirmou Laura Carstensen, psicóloga do Centro de Longevidade da universidade Stanford.

Uma equipe de pesquisa liderada por ela estudou essa realidade. Em abril, depois que o escopo potencial da pandemia ficou aparente, a equipe recrutou um grupo representativo de cerca de mil adultos em idades de 18 a 76 anos vivendo em diferentes áreas do país. Os participantes responderam a questionários em que deveriam descrever em detalhe suas emoções durante a semana anterior, incluindo 16 positivas, entre elas se os entrevistados tinham se sentido tranquilos ou alegres e 13 negativas, como algum sentimento de culpa ou raiva.

Os recrutados também tinham de dar uma nota para a intensidade daquelas emoções. Pessoas que disseram ter tido raiva na semana anterior, por exemplo, teriam de responder à pergunta: “quando sentiu raiva na semana passada, a que ponto ela chegou, foi pouco, ligeiramente, muita, ou uma raiva extrema?”.

Se os mais velhos de fato controlam suas emoções evitando situações estressantes, então o estudo mostraria uma diminuição no nível de alegria, talvez até um desaparecimento, imaginavam os cientistas.

Mas o estado de ânimo deles continuou elevado, em média, comparado com o das gerações mais jovens, mostraram os dados da pesquisa, mesmo que ambos os grupos tenham reportado os mesmos níveis de estresse.

“As pessoas mais jovens estavam reagindo pior emocionalmente do que os mais idosos. Estávamos em abril o mês mais desgastante que observamos nesta pandemia; os casos de covid-19 aumentaram do nada para 60.000, tudo isto era cercado por muita atenção e medo. Entretanto, observamos o mesmo padrão em outros estudos, com as pessoas mais idosas reportando menos estresse.

Num estudo similar, psicólogos da universidade da Colúmbia Britânica realizaram uma pesquisa exaustiva junto a 800 adultos de todas as idades nos primeiros meses da pandemia - e chegaram à mesma conclusão.

“A pandemia levou a um discurso público de que os idosos eram um grupo homogêneo vulnerável”, concluíram os autores. “Nossa investigação da vida cotidiana em meio à pandemia sugere o oposto: a idade mais avançada está associada a um menor estresse com relação à ameaça da covid-19, um bem-estar emocional melhor e mais eventos positivos diários”.

Esses resultados dificilmente descartam a evasão como uma maneira de controlar as emoções cotidianas. As pessoas mais idosas, especialmente as que possuem alguns recursos, têm mais recursos para aliviar as tensões do dia, pagando por entregas por meio de delivery, contratando alguém para ajudar, ficar confortavelmente em casa e tudo isto sem crianças à sua volta.

Uma das pesquisas que concluiu não haver diferenças relacionadas com idade no campo do bem-estar, postada no ano passado, se concentrou em 226 adultos, jovens e idosos, vivendo no Bronx, o bairro mais carente de Nova York. Neste bairro, os idosos com frequência vivem com os filhos e netos, auxiliando nas refeições, levando e trazendo as crianças da escola e atuando como baby-sitters. Não houve nenhum aumento do seu bem-estar emocional em razão da idade, concluíram os investigadores, em parte porque “nessa mostra eles estavam de alguma maneira “mais estressados” do que a média nacional”.

Mesmo com essa distinção, estes estudos respaldam uma teoria de desenvolvimento emocional e envelhecimento formulada por Carstensen que os psicólogos debatem há anos. Segundo sua tese, quando as pessoas são jovens, seus objetivos e motivações estão concentrados em ganhar novas habilidades e aproveitar as chances, se prepararem para as oportunidades que o futuro pode lhes oferecer. Você não sabe se será um bom administrador de empresas, ou bom no palco, a menos que se der uma chance real. Exercer um trabalho monótono, ganhar pouco, tolerar chefes horríveis, um locador péssimo, amigos necessitados - a corrida de obstáculos mental dos adultos jovens não é menos árdua pelo fato de ser tão previsível.

Depois da meia idade as pessoas se dão conta de um horizonte de tempo que afunila e, conscientemente ou não, começam a gravitar em torno das atividades do dia a dia que, por natureza, são mais agradáveis do que aquelas tendo em vista o desenvolvimento pessoal.

Tradução de Terezinha Martino

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