Pororoca que arrasta para o universo de rosa

Cia. de Lia Rodrigues lembra seus 20 anos com espetáculo que nasceu da colaboração com elenco

Helena Katz / ESPECIAL PARA O ESTADO,

05 de abril de 2010 | 03h08

Para comemorar os seus 20 anos, a Lia Rodrigues Companhia de Danças estreou sua mais recente criação - Pororoca - na sua sede, na Favela Nova Holanda, uma das 16 que compõem o Complexo da Maré, no Rio. Depois de lotar, em novembro, o Théâtre de la Ville, em Paris, onde precisou oferecer uma sessão extra, Pororoca encerrou sua primeira temporada brasileira neste fim de semana.

É preciso andar um pouco pelas redondezas para aproximar-se dessa Pororoca. Ruas onde calçadas são continuidades das casas que, de tão apertadas e calorentas, expulsam a vida privada para fora, onde pessoas circulam junto com os carros, cheiros e cores misturam-se às músicas que tocam alto, sons que são abafados, de vez em quando, pelo dos rojões avisando os traficantes que a polícia está entrando na comunidade. Postes sobrecarregados por ninhos de fios que lembram obras de Edith Derdik e a Casa Borboleta de Laurie Chetwood, gente vestida tomando banho em chuveiros que existem em muitas esquinas, casas grudadas umas nas outras que vão crescendo na vertical, vielas estreitas, varal estendido na calçada. Um sofá-escritório na calçada, no qual o chefe do tráfico resolve demandas da comunidade. Tudo muito apertado, grudado, produzindo uma relação com o espaço que dá forma a essa Pororoca.

Na trajetória de Lia Rodrigues, ela marca um outro modo de lidar com a dança, papel semelhante ao que Aquilo de Que Somos Feitos teve em 2000. Nascida de estreita colaboração com o excelente elenco, formado por Amália Lima, Allyson Amaral, Ana Paula Kamozaki, Leonardo Nunes, Clarissa Rego, Carolina Campos, Thais Galliac, Volmir Cordeiro, Priscilla Maia, Calixto Neto e Lidia Laranjeira e pelas estagiárias Gabriele Nascimento, Jeane de Lima e Luana Bezerra, Pororoca nos rapta para a lógica rosiana de nomear do Grande Sertão: Veredas. Os modos habituais de dizer a dança não conseguem tratar do que aqui se passa.

Primeiro, a surpresa com a desmesura do espaço que a cia. transformou em sede, um galpão que está sendo reformado aos poucos, com teto em abóbada e proporções de igreja barroca. Barroco que também está na sua relação com o entorno. Entra-se olhando para cima, e se percebe a sucessão de “vitrais” transparentes, ritmicamente espalhados nesse teto curvo, que borram a separação entre o fora e o dentro. A luz externa está lá e tonaliza o que se passa.

É nesse ambiente que começa a ser montada uma experiência física diferenciada para a plateia. As primeiras duas cenas fazem conosco o mesmo que as águas da pororoca com as margens de seus rios: nos arrastam, nos devastam. Na primeira, o equilíbrio delicado de uma arquitetura de favela, que explode quando não se espera: pronto, estamos em plena pororoca, que envolve o que estiver por perto (nós). É um rumor como o ‘ror’ de que Guimarães Rosa fala, e fica como um moto-contínuo no espetáculo. ‘Ror’ tinha sido cogitado como título da nova obra, mas acabou engolido, flutuando bem no meio da pororoca.

Lego. Os corpos explodem, buscam acordos, inventam formas, investem nas maneiras de se juntar, de lidar com o outro, de encontrar sintonias. O que distingue o abraço do desejo do abraço da disputa? E redefinem, com a estrutura de lego com que vão organizando seus materiais, que a célula que tudo articula é o contato com o outro - desmontando, assim, o modo habitual de apoiar a dança em desempenhos individuais. O precioso duo de Volmir Cordeiro e Thaís Galliac representa apenas um de muitos outros que se reinventam.

São bailarinos-respingos, corpos-turbulências, corpos-pororocas de microviolências de distintas intensidades. Evidentemente, não poderiam ficar represados, pois a pororoca é da natureza do descontrole. Trazem a Amazônia para o espaço do público e, depois, a despejam na rua, que, afinal, também já estava lá dentro. Do palco, que fica vazio, vai surgindo a impressão de que aquelas imagens tão poderosas que acabaram de ali ser construídas, servem para nos lembrar que é mesmo muito mais fácil soltar do que perseverar na busca de contato com o outro.

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