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É possível satisfazer a curiosidade do público sem servir de braço de propaganda para o EI?

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

05 de junho de 2017 | 03h00

Vai começar, pensei, ao primeiro alerta de que algo horrível tinha acontecido na London Bridge, sábado à noite. Não deu outra. Diante da falta de notícias concretas, com a área cercada e tanta gente no local que trouxe barcos para levar feridos no Tâmisa, a tropa de especialistas ocupou seus postos no ar, como franco-atiradores do Exército de Brancaleone. São os oráculos do terrorismo ou da segurança nacional, ex-agentes da CIA, do FBI ou generais de pijama a soldo dos departamentos de jornalismo da mídia eletrônica americana.

Seria cômico se não fosse tragicamente pornográfico. Âncoras solícitos faziam perguntas que poderiam ser respondidas com igual rigor por astrólogos. Quem são eles? O que vão fazer agora? E a polícia, como vai agir? As respostas, claro, vêm repletas de suposições separadas da cena do crime por um oceano, e, para não desvalorizar o valor de mercado dessas Cassandras de araque, acompanhadas de cenários aterradores. Semear medo vende anúncio, gera cliques e aumenta o cachê.

No dia 22 de maio, o ataque suicida ao estádio de Manchester, no final do concerto de Ariana Grande, serviu de exemplo sobre o poder de jornalistas de fazer escolhas e algumas delas são o melhor presente que o Estado Islâmico pode esperar. A cobertura 24 horas no cabo ofereceu um contínuo desfile de adolescentes gritando, ferimentos, imagens medonhas que em nada contribuem para informar sobre o acontecimento ou dar contexto ao terrorismo. 

Há uma ligação entre o fato de ataques suicidas terem se tornado mais numerosos porque são a modalidade de terrorismo que mais cobertura recebe? Uma professora de ética em jornalismo e veterana correspondente, Indira Lakshmanan, acredita que sim. Não é surpresa que, embora o terrorismo mate uma ínfima fração da população americana, diante de enfartes, câncer, acidentes e armas de fogo, receba uma cobertura muito mais extensa. O terrorismo é assim definido por querer destruir o tecido social, o que une uma nação ou comunidade.

Mas, repito, fazer jornalismo é editar. Aqui, a colunista pode ser parte do problema. Nos ataques de Paris, Bruxelas e também no Reino Unido, postei notícias com velocidade na minha conta do Twitter, sempre atribuindo a fontes. Algumas foram posteriormente desmentidas. Outras, precedi de “possível” ou do verbo “seria”. Sou contra qualquer forma de censura, mas reconheço que uma enxurrada de tuítes não equivale a informação.

Enquanto atualizava as notícias sábado à noite, comecei a me questionar sobre o quanto tinha atualizado notícias do dantesco atentado que sucedeu Manchester e precedeu Londres. Foi o ataque à bomba em Cabul, que matou 90 pessoas e feriu cerca de 400. Resposta: nada. Contribuí para uma câmara de eco em que 9 mortos em Londres mobilizam nossa compaixão autorreferente – podia ser um de nós em férias ou meu primo que mora ali perto. Já 90 mortos em Cabul representam uma tragédia abstrata e distante. O que é uma reação razoável do ponto de vista do leitor, mas não se justifica como escolha jornalística. Sim, o ataque a Cabul teve uma fração da cobertura de Manchester e Londres na imprensa de língua inglesa, a que mais acompanho.

É possível satisfazer a curiosidade e ansiedade do público sem servir de braço de propaganda para o Estado Islâmico e a Al Qaeda, esta, ensaiando uma volta com Bin Laden júnior? Acredito que sim, na escolha de imagens, no controle de histeria, na admissão do que não se sabe ainda, sem especulação vazia de “especialistas”. Estudo após estudo mostra que jovens terroristas islâmicos são recrutados com promessas de se tornar importantes, de compensar o niilismo de seu desajuste em sociedades ocidentais. Cobrir a violência do terror com repetição pornográfica é facilitar sua missão.

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