Por uma poética da errância

Com traços autobiográficos, a produção literária de Al-Maaly se caracteriza pelo caminhar

MAMEDE MUSTAFA JAROUCHE É PROFESSOR DE LITERATURA ÁRABE NA USP, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h08

Um dos temas obsessivos da obra do poeta iraquiano Khalid Al-Maaly é o vagar, caminhar, sintetizado pelo semantema árabe sayr e seus derivados. Trata-se de uma poesia andarilha, passe o termo, em que a errância conduz de um sofrimento a outro, de uma tristeza a outra, de um nada a outro, enfim. A memória é um depósito de dores contínuas, e, conforme observou um crítico conterrâneo, em tal poesia a dor somente se suporta mediante a ilusão, ilusão essa que conduz, inevitavelmente, ao nada. Embora soe a lugar-comum referir o fato, existe muito de autobiográfico nessa prática poética.

Essa errância, em mais de um sentido, é também metáfora da uma fuga constante - da família, de Saddam Hussein, da intolerância religiosa, do atraso árabe, dos governos árabes - que marcou e tem marcado a vida do poeta. Mas a poesia de Khalid jamais refere fatos exteriores ao que ela mesma estabelece como poeticidade.

Sua estada no Cairo em 2011, em plena revolução, não lhe inspirou senão duas poesias, nenhuma sobre o assunto - muito embora, e aqui falo como testemunha ocular, pois acompanhei a revolução ao seu lado, o processo tenha mexido profundamente com ele. É uma poesia que dá preferência à interioridade, mas sem psicologismos. Os estados da alma são referidos sempre por metáforas - sonhos, fábulas, impressões: nada mais distante do que em árabe se chama de "artificialismo", takalluf, e de "retórica", inshá, que os versos desse admirador e tradutor de Paul Celan e Hans Magnus Enzensberger.

Nesse sentido, cumpre um dos preceitos que regem a poesia árabe desde o seu período clássico, o da naturalidade. Pairando sobre o eu poético existe quase sempre outro narrador, voz indeterminada, que o indaga e menciona em terceira pessoa, e isso, em mais de uma situação, faz supor uma incapacidade programática, constituída como uma espécie de "pudor poético", de falar em primeira pessoa. Uma seleta traduzida de produção poética seria muito bem-vinda em português.

Ao lado da condição de poeta, deve-se destacar a sua profícua atividade como editor. Manshurát Al-Jamal (Publicações do Camelo), cujo lema é "o camelo passa e os horizontes estremecem", consiste hoje numa das mais importantes editoras do mundo árabe. Fundada como empreendimento amador, com o propósito de passar livros artesanais de mão em mão, inspirada no projeto de Hans Magnus Enzensberger, a editora cresceu graças à qualidade de suas publicações, tornando-se hoje referência obrigatória entre os leitores árabes, tanto pelas obras clássicas que publica como pelos trabalhos de crítica moderna, sempre polêmicos. Khalid, que ainda hoje faz quase tudo na editora, desde a escolha dos textos até a elaboração do projeto gráfico, dá preferência a textos que quebrem tabus, destruam sacralidades e, nas suas palavras, "ajudem um pouco a superar a burrice imperante na maioria das publicações em árabe".

Ambas as atividades, de poeta e editor, são inseparáveis. Um existe em função do outro. E, no caso desse intelectual singular e vigoroso, se completam de maneira estranhamente harmoniosa.

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