Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE

Por uma nova curadoria

Jovens buscam espaço no mercado defendendo parceria com artistas e resgatando o prazer no contato com a arte

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2011 | 00h00

"Curadoria é um momento do crítico", diz a carioca Fernanda Lopes, de 31 anos. Jornalista, com mestrado em história e crítica de arte, ela se mudou para São Paulo em 2009 atrás de oportunidades de trabalho. "A situação das instituições aqui é mais generosa", diz. Entre uma reportagem e outra, em 2007, Fernanda trabalhou como assistente de curadoria de Glória Ferreira na mostra Anos 70 - Arte Como Questão. E, dois anos depois, fez sua primeira curadoria solo com De Passagem, na então galeria Rhys Mendes. Em 2010, ela seria convidada a preparar a sala sobre o Grupo Rex na 29.ª Bienal de São Paulo e contratada para integrar a equipe de curadoria de artes visuais do Centro Cultural São Paulo. "Vivo de curadoria hoje porque estou em um lugar fixo", diz.

Coincidentemente, os jovens curadores entrevistados pelo Estado entraram no ramo curatorial pela experiência. Assim como Fernanda Lopes, Mario Gioia, de 36 anos, é jornalista pela e fez seu "salto no escuro" deixando o emprego em um jornal para se dedicar à curadoria. "O mercado está acolhendo propostas", diz Gioia. Desde 2009, ao estrear com a concepção da individual Obra Menor, no Ateliê 397, ele já realizou sete curadorias e fez acompanhamento crítico de exposição do Ateliê Fidalga no Paço das Artes.

Já Paulo Miyada é formado em arquitetura e começou sua experiência "na frigideira", ou seja, como curador-assistente na 29.ª Bienal de São Paulo, em 2010. "Eu cuidava de 80 artistas da mostra e, se fosse para fazer uma comparação, era uma espécie de volante que fica no ataque e na defesa", conta. Agora, Miyada coordena o núcleo de curadoria e pesquisa do Instituto Tomie Ohtake e integra a equipe da atual edição do programa Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural.

Já Luiza Proença, formada em artes plásticas, além de estar centrada agora no mapeamento de artistas da cidade e do Estado de São Paulo para o mesmo Rumos Itaú, está realizando uma publicação de arte, participa do grupo de estudos da USP que vai ajudar na concepção de uma das mostras do futuro espaço do MAC e não descarta também desenvolver trabalho como artista. "A maior dificuldade da curadoria é aprender na prática", afirma. "O curador faz de tudo, às vezes até divulga a exposição. Mas ser também produtor pode ser bom, a gente vai criando repertório." Para os outros três entrevistados, a maior dificuldade de trabalhar no ramo é a falta de editais para mostras de novos curadores. "Galerias incentivam muitos jovens artistas, mas não críticos", completa Fernanda.

Há quem brinque que Fernanda, Gioia, Miyada e Luiza possam se tornar parte do time de "novos ditadores" - e não curadores - do meio das artes. Mas eles negam, claro. "O curador é cúmplice do artista, um interlocutor de sua produção", afirma Miyada. "É importante acompanhar a minha geração, fazer curadoria com um espírito mais colaborativo", diz Gioia. "Está voltando uma ideia inicial de curadoria: o prazer de encontrar uma obra de arte", afirma Fernanda, citando o professor Ronaldo Brito, para quem os curadores deveriam, simplesmente, "ver" arte. "A mão pesada do curador pode ser um mito. A curadoria lida com a exclusão/seleção e por isso existe sempre uma revolta", diz Luiza.

Termo

Segundo a crítica Nessia Lonzini, "a palavra curador vem do latim curare, que por sua vez chega à nossa língua como curar - na acepção de "cuidar" ou "conservar": tomar conta das obras de arte"

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