Por uma arte da mentira

Responsável por novo espetáculo do Galpão, Jurij Alschitz recusa o realismo para ler Chekhov

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2011 | 03h08

Ele gosta de provocações. Enquanto discorre sobre seu trabalho e sobre os rumos do teatro, o diretor russo Jurij Alschitz elege a instabilidade como um valor a ser cultivado. Condena a estética das imitações. "Acredito mais na mentira do que na imitação da verdade." Faz considerações e perguntas incômodas, para as quais nem sempre temos as respostas. "Se, amanhã, o governo da Rússia decidisse fechar todos os seus teatros, haveria um levante popular. Mas e aqui no Brasil? Por que vocês fazem teatro? Será que poderiam viver sem isso?"

Um dos fundadores da Escola de Arte Dramática de Moscou e coordenador da European Association for Theater Culture, entidade que integra centros de formação em vários países da Europa, Jurij Alschitz, de 63 anos, vive há mais de duas décadas na Alemanha.

Especialista na obra de Anton Chekhov, bebeu nos contos do autor russo para costurar a dramaturgia de Eclipse, novo espetáculo do grupo Galpão, do qual ele também assina a direção. Após a estreia da montagem em Belo Horizonte, no início deste mês, o encenador veio a São Paulo. Aqui, ministra um laboratório para atores, conversa com os professores da SP Escola de Teatro e dará uma conferência amanhã, no Sesc Consolação. Em entrevista ao Estado, Alschitz relatou sua experiência com os mineiros do Galpão e falou sobre as possibilidades que Chekhov oferece para o teatro contemporâneo. "Chekhov é como uma boa caipirinha. É forte, é amargo, é doce, é fresco. Tudo ao mesmo tempo."

Eclipse, o espetáculo do Galpão que você dirigiu, se baseia em contos de Chekhov. Como se organiza essa dramaturgia, como os textos foram escolhidos?

Pedi a eles que escolhessem as histórias que falassem à sua alma, à posição deles como artistas. Eles gostavam de Chekhov de uma maneira genérica - o que é, aliás, muito comum. Mas não se pode amar genericamente. É como acontece entre as pessoas: existe alguém que você ama e alguém que você não ama. Acredito em amores muito específicos.

Como foi a relação com eles?

O Galpão me procurou em busca de um novo jeito de atuar. Nós trabalhamos muito. Ainda estamos trabalhando. Porque foi uma briga entre dois teatros muito diferentes. Eles sabem como representar, o público já sabe o que esperar deles. Então, o que queria fazer é algo que o aparato físico deles não estivesse preparado para suportar. Deixá-los nus, inseguros.

Instaurar a instabilidade faz parte do seu processo?

Sim, absolutamente. O Galpão tem 30 anos de trabalho junto. E 30 anos, é claro, gera uma série de clichês. Queria levá-los a cometer muitos erros, transformá-los em iniciantes. Eles são muito bons juntos e interpretam como um time. A primeira coisa que fiz foi separá-los, propor que estivessem sozinhos, sem suporte. E isso os assustou: se você está sozinho ou você existe ou não existe, porque ninguém vai te ajudar.

Mas por que propor a instabilidade como valor?

Essa ideia de renascimento tem a ver com a minha própria história. Aos 36 anos, eu já era diretor, atuava na direção artística de um grande teatro de Moscou. Então, um dia acordei e resolvi abandonar tudo. Voltei para a escola de teatro e disse: gostaria de recomeçar do início. Acredito que uma vida não é o bastante para a arte. Em tudo o que faço, estou tentando não me repetir. É o melhor remédio para se manter jovem: morrer e nascer de novo. Mas é duro. Começar uma vida nova é muito mais difícil do que simplesmente começar a viver.

O Galpão também fez Tio Vânia, uma obra de Chekhov. Mas o que você propõe em Eclipse é muito diferente, não é?

Totalmente. Chekhov é muito perigoso porque no mundo inteiro existem clichês a respeito dele. Por isso, não gosto de dizer que Eclipse é 'o' Chekhov, mas um pedaço dele, uma das partes. Talvez a que eu goste mais: o paradoxo, o absurdo. Muita gente nunca entendeu o que ele escreveu. Ali, existe o caos, o ilógico, o humor negro - de um médico que sabia da sua doença, da proximidade da morte. Há toda essa combinação de dor e absurdo...

E esperança.

Sim, e esperança. Chekhov é como uma boa caipirinha. É forte, é doce, é amargo e é fresco.

Ao falar de Chekhov, você parece ver um autor não necessariamente ligado apenas a um momento histórico do teatro, a um estilo. Mas uma obra que abre possibilidades para um teatro novo, um teatro conectado à contemporaneidade.

Chekhov não tinha ideia de que suas peças seriam populares por tanto tempo. Quando lhe perguntaram quanto tempo achava que seus textos seriam encenados, ele disse seis, talvez oito anos. Não mais. E, hoje, Shakespeare e Chekhov são os dois mais populares autores do mundo. Sim, eu vejo o paradoxo, a filosofia nas peças de Shakespeare e nas peças de Chekhov. É por isso que eles sobrevivem. Samuel Beckett dizia que Chekhov era uma de suas maiores influências. Assim como foi para Harold Pinter e Sartre.

Mas Pinter e Beckett para nós hoje já são história. Que aspectos da obra de Chekhov podem fazer sentido e ser utilizados em um teatro contemporâneo?

Chekhov não era um bom dramaturgo. Disse isso uma vez a um jornalista que ficou indignado, mas eu explico. Chekhov não cria um roteiro perfeito, onde tudo se encaixa. Nem todas as coisas são explicadas e se conectam. E esse é um traço contemporâneo. A velha dramaturgia tenta explicar a vida. Chekhov não faz isso.

Nos acostumamos a ler Chekhov a partir de um ponto de vista psicológico, calcado no realismo. Você crê que esse seja um meio equivocado de se olhar para Chekhov. Ou apenas uma dentre muitas possibilidades?

É claro que é possível lê-lo com esse viés realista. Mas, ao mesmo tempo, não podemos esquecer que ele é filho do impressionismo e pai do novo teatro. Chekhov não tem apenas uma face. Depende de como você queira se conectar com a sua obra. Infelizmente, o homem tende a ver realismo em todo lugar, quer explicações para tudo. Logo, verão realismo em Magritte, em Miró. Gostamos de olhar dogmaticamente para as coisas, dar-lhes um rótulo.

Rotular nos libera para poder esquecer.

Sim. Não ter que pensar a respeito. Às vezes, falar sobre o realismo, sobre o teatro de Stanislavski, me deixa muito irritado porque existem muitas imitações. Prefiro um teatro amador a aquele que fica tentando imitar a vida no palco. Isso eu odeio. Vivemos em um mundo de imitações. Existe a imitação do pão, não mais o pão de verdade. Réplicas do que seria a comida, o amor, a mulher, o homem. Imitações de diamantes que valem mais do que os verdadeiros. Eis a catástrofe. E é por isso que eu escapo desse teatro que quer imitar a vida. Creio mais na mentira do que na imitação da verdade.

E o que seria essa mentira na arte?

A artificialidade. Quando o artista assume que não está representando a vida das pessoas, está falando um texto cujo final já conhece. Ele não pode simplesmente fingir que não sabe. Mas, hoje, 90% do teatro que se faz no mundo é uma imitação.

Mesmo naquilo que chamamos de teatro pós-dramático, experimental. Existe uma série de pastiches desse novo teatro.

Precisamente. Não acredito em modelos. Acredito no processo, em atores que vivenciam coisas no palco, usando suas próprias emoções, seus corpos. Mas é muito raro ver isso. Por quê? Porque hoje é possível fazer imitações bastante convincentes. Mas, para mim, o teatro só tem uma função: nos fazer escapar desse planeta, nos levar para um mundo metafísico.

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