Mick Rock/Divulgação
Mick Rock/Divulgação

Por trás das lentes, um chamado

Ícone dos anos 70, Mick Rock diz que tenta capturar alma de personagens

Eva Joory, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2010 | 00h00

Famoso por imagens exclusivas do mundo musical, Mick Rock lembra, na continuação da entrevista, do carisma de David Bowie e de como era natural para ele estar na frente da câmera. Inibição diante de celebridades também não faz parte dos 40 anos de carreira do "homem que fotografou os anos 70", que diz ainda sentir um "frisson rebelde".

O que o sr. tentou capturar ao fotografar David Bowie?

Tentar é a palavra errada. Eu simplesmente o expus do jeito que o via. Ele era muito carismático, divertido e bastante inteligente. Ficava natural na frente da câmera, gostava de interagir com ela. Bowie tinha uma compreensão de estilo e uma linguagem corporal nunca vistas. E eu era fascinado pela sua aura, pela energia única que ele transbordava. Foi isso que revelei.

Estilo e moda são importantes na fotografia de rock?

Não cabe a mim ditar isso. Há tantos comentaristas de moda e experts no assunto hoje em dia! Claro que alguns rappers e roqueiros exercem um grande impacto na moda hoje. Mas, mesmo sabendo que algumas das minha imagens influenciaram alguns estilistas, não é sobre isso que penso quando fotografo.

O que o sr. busca captar?

Busco a energia, a atitude, o ângulo, a luz, as lentes e tudo que poderá dar às imagens a intensidade necessária para capturar a alma do meu personagem. Eu sempre segui meus instintos. Acho que o fato de nunca ter estudado fotografia me deixou mais à vontade e sem inibições.

Existe diferença entre fotografar naquela época e hoje em dia?

O rock era rebelde nos anos 60, 70 e 80. Hoje, o rótulo não seria esse. Ele foi absorvido pela sociedade moderna e se transformou numa espécie de campanha publicitária. Mesmo assim, ainda sinto aquele frisson rebelde e tenho o desejo de fotografar algo ousado. Acredito que os meus personagens ainda respondem a esse chamado. É só ver as minhas fotos recentes de Bowie, Iggy Pop e Debbie Harry e também as mais atuais, com Gossip, Lady Gaga e The Killers.

Qual era o espírito dos anos 70?

Selvagem e natural. Era uma época de grande experimentação, social, sexual, criativa e muito produtiva. Era um tempo ideal para ser jovem, mesmo se alguns de nós vivêssemos no limite. Tempos únicos que nunca mais poderão ser recriados.

O sr. testemunhou o nascimento do punk em Nova York. Como era essa época?

Estávamos diante de uma nova forma de se olhar para a música e a arte. O punk foi uma tentativa de quebrar as barreiras e mostrar um coração anárquico. Eu, com certeza, me identifiquei com essa energia maluca, mesmo sem usar alfinete no nariz ou me tatuar.

Qual a sua foto favorita?

Elas mudam a toda hora. As primeiras, com Syd Barrett, as de Iggy Pop para Raw Power, as na estrada com Bowie, minhas sessões Marilyn Monroe, com Debbie Harry e a capa que fiz para o segundo disco do Queen. Incluo também as imagens que fiz com Kate Moss.

Muita gente diz que o sr. não era apenas parte da cena, mas que ajudou a criá-la. Concorda?

Certamente, eu me identifiquei de alguma maneira com os meus personagens e isso transpareceu nas fotos. Produzi várias imagens que muita gente hoje rotula de icônicas. Mas a minha intenção era simplesmente fazer o que eu amava.

Qual o seu conselho para um aspirante a fotógrafo?

Siga as suas obsessões. Mas, antes de tudo, fotografe, fotografe, fotografe...

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