Por que Romney pode vencer Obama

"Inacreditável!", gritam os liberais americanos. "Inacreditável! Romney mudou de opinião incontáveis vezes nos últimos anos, não parece ter nenhum tipo de centro moral, e quer apenas restabelecer as políticas fracassadas que Obama revogou bem a tempo de evitar o pior. E, com tudo isso, Romney e Obama estão quase empatados nas pesquisas de intenção de voto! O que há de errado com os Estados Unidos?!"

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h09

Alguns meses atrás, escrevi que, se os eleitores fossem capazes de aceitar o fato de Romney ser um mórmon, ele seria eleito presidente no próximo mês de novembro. Bem, praticamente não se falou na religião dele. Apesar de todos os confiantes comentários feitos pelos liberais, segundo os quais os cristãos evangélicos jamais se convenceriam em votar num mórmon, os cristãos evangélicos estão apoiando Romney de coração. Na verdade, quando os evangélicos chamaram o mormonismo de culto pagão, eles estavam prestando uma homenagem aos membros dessa igreja. Os conservadores americanos se tornam mais pagãos e menos cristãos a cada dia, pedindo o desmembramento histérico das políticas de Obama e uma reconstrução da harmonia civil que parece saída das Bacantes, de Eurípides. Os conservadores cristãos são agora animados pelo espírito de Dionísio, e não pelo espírito de Cristo.

Romney vai ganhar, principalmente porque os EUA nunca estiveram de fato preparados para um presidente negro. Obama foi eleito quando o país estava de joelhos, implorando por um salvador que o redimisse, e quanto mais excluído pelo sistema ele parecesse, melhor. Mas a eleição de um negro colocou os brancos economicamente deslocados bem nas margens onde, na cabeça dessas pessoas, os negros tinham estado. Esses brancos, gradualmente expulsos da classe média, se tornaram agora os excluídos. E a presença de um negro na Casa Branca, eleito pela candidatura dos democratas, simplesmente confirmou a crença conservadora segundo a qual os liberais se importam apenas com determinados grupos protegidos - negros, gays, mulheres -, e não com os pobres trabalhadores nem com a classe média.

Mas, além da questão da raça, há outros motivos poderosos pelos quais Obama está prestes a se tornar um presidente de um único mandato. Um deles é o fato de Romney estar se valendo de um completo colapso no respeito à autoridade. Desde a Guerra do Vietnã e do caso Watergate, que desacreditaram os políticos enganadores, e a Guerra do Iraque, que desacreditou a mídia ingênua, o respeito à autoridade tem sido desgastado em praticamente todas as esferas da vida americana. O próprio Obama foi eleito em parte porque parecia ser justamente o antídoto para a imagem padrão (branca) da autoridade americana.

Romney se beneficia dessa erosão da autoridade por dois motivos. Primeiro, ele parece aderir ao programa da direita que pretende reduzir o governo ao tamanho de um hidrante. Se os republicanos tivessem liberdade para governar, as pessoas estariam prendendo umas às outras nas ruas e entregando as próprias cartas.

Segundo, a aparente falta de espinha e centro moral de Romney desmente qualquer autoridade que ele possa representar. Ele é ao mesmo tempo a autoridade em si e o próprio espírito antiautoritário. O fato de ser tão falho, tão reduzido, tão absurdo no seu oportunismo cínico significa que os eleitores podem desmerecê-lo, ao mesmo tempo em que puxam nas urnas a alavanca que vai alçá-lo à Presidência. Os americanos gostam de ser inspirados por líderes que eles possam desmerecer.

Romney tem algo a seu favor. Os americanos são agora talvez o povo mais inquieto do mundo. A mudança constante é a única coisa que parece estabilizá-los. As ondas cada vez mais aceleradas da tecnologia - que nos levam do iPod 1 ao iPod 5 no que parecem ser minutos - moldaram os ritmos da vida em geral. É raro encontrar uma criança que não tenha passado por diferentes babás, pediatras, creches e escolas - e talvez até pais - antes de chegar aos 8 anos. O número de pessoas casadas nos EUA é o menor já visto na história americana, preferindo em vez disso pular de relacionamento em relacionamento. Os empregados não são hoje em dia mais leais aos empregadores do que estes últimos são leais em relação a eles. Que motivo haveria, em meio a tamanho turbilhão, para aceitar o mesmo presidente por quatro anos? Em quatro anos, a pessoa terá passado por 16 celulares diferentes, 10 iPads e 8 computadores, além de uma dúzia de amantes.

Se Romney de fato vencer - e nada está definido, apesar do meu ar de certeza -, os liberais terão de culpar a si mesmos, ao menos em parte. Durante as primárias republicanas, os liberais riram das gafes de Romney, deixando-se iludir e pensar que a desgastante disputa republicana acabaria por prejudicá-lo nas pesquisas; eles o ridicularizaram repetidas vezes por causa do tratamento dispensado por Romney ao próprio cão (ele chegou certa vez a colocar o bicho numa jaula e amarrar a jaula ao teto do carro durante uma viagem da família). Mas as gafes o tornaram mais humano, ninguém se lembra do que ocorreu cinco minutos atrás, e os conservadores mais contrários a Romney jamais deixariam de votar nele se isso incorrer no risco de deixar Obama governar por mais quatro anos. E aqueles que perderam seus empregos e seus lares não se importam com um cachorro amarrado com segurança ao teto de um carro, protegido numa jaula, desfrutando o vento que sopra em seu pelo.

Os liberais são incapazes de levar a sério aqueles que enxergam o mundo com uma perspectiva diferente da sua. Em vez de enigma oportunista, Romney me parece ser um sujeito sério, um tecnocrata pragmático que, como presidente, consultaria dúzias de conselheiros, das mais variadas procedências, antes de definir suas políticas. Ele parece não nutrir nenhum amor pela extrema direita de seu partido, que tentou prejudicar sua candidatura, e cujos ancestrais destruíram as chances de seu pai de chegar à Presidência. Não quero que Romney se torne presidente, mas ele pode perfeitamente ser um presidente eficaz. Afinal, ele tornou o sistema de saúde universalmente acessível em Massachusetts. Mas, para os liberais, o simples fato de não gostarem dele significa que Romney deve ser um tolo depravado. Inacreditável.

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