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Ignácio de Loyola Brandão
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Por que o porteiro chegou naquela hora?

Vez ou outra chega uma carta para esse 'Layola', devolvo; já me acostumei a trocaram o 'o' pelo 'a'

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2018 | 02h00

Sempre falo de coincidências, acasos. Ou sincronicidades como preferem alguns. Uma prima, a Monica, que mora na Alameda Ministro Rocha Azevedo, me ligou, dizendo: “Chegou correspondência para você aqui no prédio. De quem? De uma pessoa chamada Beatriz Amaral, mas não se preocupe, estou indo para seu lado, deixo na sua portaria”. 

Achei curioso. Saí da Rocha Azevedo em 1992, mudei-me para a Aclimação, de lá vim para Pinheiros em 1993, ano em que comecei a escrever para O Estado de S. Paulo. Portanto faz 26 anos que deixei o apartamento em frente ao Círculo do Livro, dos mais deliciosos clubes de leitura já inventados. Eu atravessava a rua e ia conversar com Fernando Paixão, diretor editorial, sabia antes o que ia ser publicado, ganhava livros, acabei publicando vários textos ali. Ele me convenceu a escrever o Manifesto Verde, uma cartilha do meio ambiente muito adotada em escolas.

Até hoje, surge alguém com o exemplar capa dura amarela de Não verás País Nenhum, editado pelo Círculo, para que eu autografe. Aquelas capas duras resistiram bem nas prateleiras e nos sebos de calçada. Eu comia no restaurante Divina Comédia da Alameda Jaú, onde todos garçons vinham de Laguna, Santa Catarina, e que foi sucessor do Pirandello, frequentava diariamente a Livraria Cultura, ia a pé fazer palestras no Dante Alighieri, vez ou outra ia ao Massimo, cuja figura exuberante era uma delícia de encontrar. Ali Delfim Netto e Maluf, cada um em sua mesa, tomavam vinhos como Romanée-Conti ou Chateau Margaux, de preços astronômicos. Comia também no Spot e no Degas (subsolo do Masp) e ia a pé aos cines Belas Artes. Aquele entorno era uma cidade.

Bem, Monica trouxe-me o envelope, era um convite de Beatriz Helena Ramos do Amaral para o lançamento do livro Os Fios do Anagrama. Só que, quando chegou, o lançamento já tinha acontecido há muito. Porque esse convite chegou às minhas mãos por estranhos caminhos. Desde que me fui daquele prédio, muitos porteiros passaram por ali. Cada vez que chegava correspondência para mim, era devolvida ao carteiro. Se existe um buraco negro no correio, deve estar cheio de correspondência dirigida a mim equivocadamente. Mas os envelopes foram rareando, até sumirem.

Então, há algumas semanas, chegou o convite de Beatriz. O porteiro, na hora de selecionar a correspondência para os apartamentos, apanhou a minha e escreveu: desconhecido. Nesse exato momento, em cima, guiado pelo imponderável, chegou um antigo porteiro, da minha época, meu amigo, que ficava perplexo com o tanto de coisas que eu recebia, malas-diretas, convites, flyers, cartas de leitores, de bancos, editoras, cobranças e cartas anônimas. “O que o senhor é, o que faz? Deve gastar uma nota respondendo a tudo isso”, me disse um dia. Daquela farta correspondência nasceram dois contos meus: 45 Cartas para Vera Fischer e Obscenidades Para uma Dona de Casa

O porteiro visitante viu meu nome no envelope, perguntou: “Ué? Seu Loyola voltou para o prédio?”. O outro: “Vez ou outra chega uma carta p’ra esse Layola, devolvo”. Estou acostumado a trocarem o O pelo A. O porteiro que me conhecia: “Pois conheci bem. Mudou há muitos anos. Mas a prima dele mora no bloco A. Mande para ela”.

Assim o convite chegou às minhas mãos. Dentro havia um cartão com e-mail, mandei um para a Beatriz, contando essa história. Voltou. Questões de segurança. Para reenviá-lo eu deveria digitar um código, decifrar um desenho, etc. Sentindo-me o professor Alan Turing que decifrou o código Enigma, usado pelos alemães na Segunda Guerra, fiz o que me mandavam. Voltou de novo e, na terceira vez, sem saber se era a KGB, a Stasi, a Scotland Yard, a Interpol, desisti com medo do Moro aparecer na minha porta. O que o porteiro meu amigo foi fazer no prédio onde tinha trabalhado há 25 anos, chegando no exato momento da seleção de correspondência?

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