Por que não me ufano

Há 110 anos o conde monarquista Afonso Celso escreveu um livro, Por Que me Ufano do Meu País, em que defendia a superioridade do Brasil por motivos como a grandeza territorial, a beleza natural, o clima ameno, a índole feliz e a mistura racial. (Quem acha que foi Gilberto Freyre o primeiro a fazer a exaltação da mestiçagem, portanto, está muito enganado.) Quando criei a seção Por que não me ufano já na primeira coluna Sinopse, em 1996, muitos acharam que significaria "Por que não gosto do Brasil", esquecendo que sou contra o orgulho nacionalista em geral, não apenas em particular, e que, se quisesse o mal da nação, não me daria ao trabalho de martelar suas mazelas. E convenhamos que toda semana somos martelados por elas:

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2010 | 00h00

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Teremos em breve uma eleição entre a guerrilheira, o vampiro e a navi. A guerrilheira, favorita, jura que não vai aumentar gastos e tributos e que o PAC é um sucesso, mas já é a mulher mais poderosa do Brasil há quatro anos e os números informam exatamente o contrário. O voto nela tem um motivo simples e praticamente irreversível: é o voto conservador, o voto no que "está dando certo", o voto na continuidade do lulismo tucanado. O vampiro não consegue dissociar sua imagem do governo FHC e da fronteira paulista, nem consegue prometer nada confiavelmente inovador. E a navi, representante do discurso que mistura evangelismo e ambientalismo como o filme Avatar, não supera seu nicho.

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No bocejante debate de quinta-feira na TV Bandeirantes, essas impressões só se confirmaram. Dilma, nervosa, beirando a arrogância, vestida à la Marta Suplicy, não falou nada que a destacasse nem que a comprometesse. Continua, repito, uma incógnita. Serra falou muito em saúde, de novo, e se misturou aos outros na oferta de programinhas, tipo "nota fiscal brasileira", que duvido que a maioria saiba o que é (sem entrar no mérito da tal "nota fiscal paulista", pois a ela prefiro corte de impostos e obrigar que as notas discriminem quanto eles nos levam a cada compra). Marina conseguiu ser mais prolixa que os dois. Só um incidente grandioso muda o rumo dessa eleição.

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Afora o vale-tudo para a corrupção e a incompetência na infraestrutura, que não são exclusividades suas, há uma área em que o governo Lula cometeu lambanças únicas: a política externa. Seu apoio a governos autocratas (como o de Chávez) e teocratas (como o de Ahmadinejad), suas gafes no discurso e na ação (como o asilo a Zelaya em Honduras e a comparação dos presos políticos com presos comuns), seu descaso em relação ao comércio com os EUA (em favor de uma pauta de exportação cada vez mais dependente de commodities) - os exemplos são fartos. Quando ele diz algo que poderia lhe dar uma imagem positiva, como a defesa da iraniana condenada ao apedrejamento por adultério, fica pior ainda; afinal, é tarde, meu caro, e quem abraçou um tirano não passa a mão na cabeça de uma vítima. Aos poucos, os outros países, antes contentes com a ascensão econômica do Brasil sob as mãos de um ex-sindicalista, caíram na realidade. Lula, "o cara", virou agora ingênuo e emotivo. No mínimo.

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Enquanto isso, o caos aéreo volta a ameaçar os brasileiros. Antes mesmo da semana kafkiana que a Gol e outras companhias ofereceram a seus passageiros, escrevi no blog que a situação em aeroportos como Cumbica e Congonhas estava cada vez pior. Sim, houve motivos imediatos, como o alegado erro na escala dos funcionários, mas o problema é mais amplo e profundo: simplesmente a malha aérea não dá conta da demanda, mesmo depois de acidentes e trapalhadas que causaram trocas de ministro e diretores e algumas ações emergenciais. Quase nenhuma promessa de maior prazo foi cumprida, desde construir um terceiro aeroporto paulista até punir os responsáveis pelas tragédias. A quatro anos da Copa, os aeroportos continuam devendo segurança, estrutura e qualidade aos usuários. O país do futuro não sabe se preparar para ele.

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Se lhe veio à mente, leitor, o charutão daquela diretora da Anac, pense agora no que aconteceu na França com o ministro que gastou 12 mil em puros cubanos. Por ter usado dinheiro público, foi demitido e agora está sendo investigado. Se fosse no Brasil, o presidente Lula diria que ele é inocente até a sentença final, o deputado Ibsen Pinheiro lembraria que corrupção existe em todo lugar e, assim como no caso das tapiocas e outras contravenções pequenas ou grandes do governo atual, ele continuaria no cargo, no máximo evitando comprar charutos por um tempo. Como é que alguém pode se orgulhar da Justiça nacional se a Interpol persegue Paulo Maluf e ele continua a circular livre e falastrão por ruas e salões do Brasil?

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Por falar em segurança, não há números que mudem a percepção dos cidadãos de que a coisa só piora. Toda semana sei pelo menos de um conhecido que é assaltado, seja em pontos de ônibus na periferia seja em shoppings de luxo no centro. O PCC não esquece as lições do "dia em que São Paulo parou" e volta a atacar postos da Rota, cientes de que podem atemorizar a população a qualquer momento. Os presídios continuam a ser fábricas de crime, e os sem-teto são expulsos de um bairro para outro como se isso escondesse o problema. Em Higienópolis, onde moro, o que é particular melhora e o que é público piora, como policiamento, asfalto, etc. As autoridades ainda estudam fazer outra estação de metrô, na Avenida Angélica, já saturada, em vez de usar o dinheiro para levar transporte de qualidade aonde não existe.

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Não são apenas os políticos que insistem em nos causar engulho em vez de orgulho. A sociedade brasileira está cheia de exemplos semelhantes. Veja o meio cultural, onde o comportamento oligárquico se repete em cineastas, maestros, patrocinadores, etc. Eles se acham insubstituíveis e se articulam em patotas, contra as quais nenhuma crítica pode ser dirigida. Mesmo que sejam de famílias muito ricas, não dão um passo sem ajuda do dinheiro estatal. Um evento literário numa cidade charmosa, como a Flip, é dominado por uma panela de editoras e bancos e gira em torno dos mesmos autores. Uma coleção como a dos clássicos Penguin é lançada com preço pelo menos 50% maior que o da original: O Príncipe, de Maquiavel, lá custa US$ 7; aqui, R$ 19,50. Ou será que estamos pagando pelo prefácio de FHC? Prefiro muito mais o de Isaiah Berlin, incluído na edição brasileira da Prestígio.

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Não é de hoje que noto o pouco respeito existente no Brasil em relação ao trabalho intelectual. Convites para fazer palestra, participar de júri ou escrever artigo, vindos de empresas bastante lucrativas, simplesmente ignoram a informação do quanto vai ser pago - como se essas pessoas contratassem um advogado e não pagassem, fossem ao dentista e não pagassem, tomassem um táxi e não pagassem. Quando pagam, na maioria das vezes, pagam mal e/ou atrasado. Como há tanta gente que escreve de graça na internet ou comenta artes nas rádios papagaiando o que leu nos jornais, esses convites devem supor que escrever é tarefa menor, para diletantes, e requer pouco estudo. E tradução, no Brasil? Virou um trabalho de abnegado. Sei de alguns casos em que o autor do texto de orelha ganhou mais que o tradutor.

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Se nossos escritores se dessem ao trabalho de observar a tal "zelite" brasileira, teriam farto material para ficção. Os ricos brasileiros não mudaram muito desde que Machado de Assis retratou aqueles herdeiros do Segundo Reinado carolas e egocêntricos, principalmente no trato com a coisa pública e com os mais pobres. Me sinto mal quando vejo a maneira como eles - banqueiros, empresários, autoridades, famosos - lidam com as pessoas ao redor, que trabalham para eles e são obrigadas a aguentar a falta de educação aqui e ali atenuada pela culpa social, aplacada por mimos. Não dizem "por favor" nem "obrigado", gritam e até ofendem; depois vão lá e dão uma roupa usada ou uma gorjeta extra para se sentir bem, mas sem registrar em carteira ou pagar decentemente. Em mais de uma festa supostamente chique vi empregadas domésticas, evidentemente negras, passarem horas seguidas em pé ao lado do banheiro, para mostrar o caminho do trono às majestades... Não temos uma elite; temos uma classe alta quase sempre ignorante e grosseira.

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Na semana passada, por erro de edição, a nota "Por que não me ufano", sobre a proposta do movimento Brasil Eficiente de redução de um ponto porcentual da carga tributária a cada ano, saiu aqui sem o título da seção. Aproveito e relembro que os impostos inegavelmente escorchantes da economia brasileira não justificam totalmente a alegação dos bancos para cobrar juros tão altos em cartões e cheques. Afinal, como dizia o outro, banco é o único tipo de empresa que sai ganhando quando seus clientes não honram os compromissos.

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