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Por que me ufano...

No aniversário de São Paulo é hora de comemorar unidos no espaço que Tibiriçá criou em Piratininga, João Ramalho povoou e os jesuítas tentam educar há mais de 4 séculos

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2017 | 04h00

No aniversário da cidade de São Paulo do ano passado, escrevi um artigo para o Estadão. Usei a frase da personagem Rastignac, de Balzac, que olha para Paris e fala do duelo entre ele e a urbe, entre o destino à sua frente e o obstáculo/oportunidade da cidade-luz: à nous deux maintenant! Agora é entre nós! Agora somos eu e você!

A sorte está lançada. Era o desafio do imigrante: a consciência de que São Paulo é uma metamorfose para quase todos que aqui chegam. No aniversário atual, cito, em parte, o título da obra de Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior: 'Por Que me Ufano de Meu País' (1900). Advirto: falarei da cidade que amo: não esperem prudência de adjetivos. Hoje, como os franciscanos medievais falavam sobre as glórias de Nossa Senhora, prefiro ser criticado pelo excesso de louvores.

Somos imigrantes ou descendentes deles. Paulistas quatrocentões são descendentes de forasteiros antigos, e amiúde, de indígenas. Italianos, árabes, negros, orientais, judeus e nordestinos são mais recentes. É uma consciência que precisamos proclamar a todo paulistano branco, negro, ou oriental: ter chegado aqui à força como escravo, expulso pela pobreza na sua área de origem ou perseguido num gueto europeu só dá mais energia à sua luta de agora, em 2017.

Há uma tragédia e uma lacuna na base. Nosso ancestral imigrante não era um duque milionário na Borgonha que, entediado de caçadas à raposa entre vinhos inebriantes e trufas, decidiu vir para uma vila colonial no interior da América. Todos temos uma dor na base da árvore genealógica.

Um mameluco nascido em Santana de Parnaíba, Domingos Jorge Velho, teve de buscar ocupação no bem mais rico Nordeste do fim do século 17. Por lá andava caçando indígenas e para lá voltou para destruir o quilombo dos Palmares (ainda que exista um bom debate histórico sobre a presença dele no episódio). 

Vianna Moog, gaúcho nascido na mesma cidade que este cronista, comparou a São Paulo de 1954 (então no ano do seu quarto centenário) com os EUA. O livro, cada vez menos lido, chamou-se 'Bandeirantes e Pioneiros'. À parte o determinismo geográfico que a obra ainda contempla, ele fez uma das primeiras comparações entre os dois mundos. Moog viu quase só diferenças. Os paulistanos de hoje contemplam muitas semelhanças.

Voltemos mais no tempo. O cacique Tibiriçá fundou a paulistanidade quando acolheu um grupo heterogêneo de jesuítas. Surgiram um povoado e um gesto: receber quem vem de longe. Cortemos a rígida corda da precisão histórica. Se um dos jesuítas tivesse tido um justificável mal-estar a caminho da colina fundacional e tivesse retardado os colegas missionários um único dia, a maior cidade do Brasil poderia se chamar São Timóteo, patrono do dia 26 de janeiro. Os aqui nascidos seriam timotenses (ou timotianos?) e o bispo de Éfeso seria louvado na Sé. Imagine um carioca, nesta história alternativa, reclamando da obsessão do povo de Piratininga: essa gente de São Timóteo é toda estressada! 

Voltemos ao real. Hoje, São Paulo está de aniversário. É hora de comemorar. Em outro dia falarei de nossos problemas. Hoje, acordei ufanista. Amo São Paulo e aqui construí a maior parte da minha existência. A cidade foi generosa comigo e, como tantos, reconheço “que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi”. 

Velha calúnia: São Paulo é bairrista e não admite estrangeiros. Afinal, os paulistas lutaram nas Minas contra “os de fora”, os emboabas. Velho mito. Derrubemos a aleivosia com uma lista incompleta. O prefeito Raimundo Duprat era do Recife. Álvaro Gomes da Rocha Azevedo governou a capital paulista sendo mineiro.

De Itu procedia Firmiano de Morais Pinto. Washington Luís, ínclito prefeito e futuro presidente, era de Macaé, estado do Rio de Janeiro. Isso não o impediu de escolher o brasão da cidade que conhecemos: Non Ducor, Duco (não sou mandado, mando). Pires do Rio nasceu em Guaratinguetá.

Jânio Quadros era paulistano autêntico de Campo Grande, hoje Mato Grosso do Sul. O administrador e futuro governador Ademar de Barros era piracicabano com raízes em São Manuel. Wladimir de Toledo Piza era de Serra Negra. Prestes Maia chegou ao mundo na calma estância hidromineral de Amparo. O grande Faria Lima? Surpreendam-se paulistanos: carioca ao nascer e ao morrer.

Paulo Lauro, o primeiro negro a governar a Pauliceia, era um brilhante advogado de Descalvado. Para todos os matizes políticos lembramos na lista o santista Mário Covas e Luiza Erundina, paraibana de Uiraúna. A lista dos “emboabas” se encerra, até o momento, com o carioca Celso Pitta. Os alcaides seguintes foram escolhidos entre paulistanos natos, como o atual João Doria Júnior. 

Assim somos paulistanos de todos os locais, unidos no espaço que Tibiriçá criou em Piratininga, João Ramalho povoou e os jesuítas tentam educar há mais de 4 séculos. Vocacionados para a luta, marcados pela obsessão do relógio e adaptados à diferença que nos une: esse é o paulistano real e ideal. Objetivos e diretos, somos menos suaves do que os mineiros, menos abruptos do que os gaúchos, menos cariocas do que os cariocas.

Quase 12 milhões de seres humanos com muitos problemas e muita esperança. Somos assim, ligeiramente vaidosos; mas, meu amigo, temos motivos para isto. Fizemos São Paulo e ela, generosa e maternalmente, reinventou-nos. Quem falaria mal da mãe no dia do aniversário? Parabéns aos paulistanos de todo o mundo, de todas as epidermes e de todos os sonhos. Outro dia trataremos das nossas dores aqui. Hoje, apenas, canto: Feliz Aniversário, São Paulo!

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