Por que gravações de qualidade ficam precárias ao vivo?

Foi uma bela festa. O teatro do Sesc Vila Mariana recebeu bom público no dia 28, no concerto de lançamento do CD A Música de Gilberto Mendes, do selo Sesc. Gravação importantíssima, porque resgata obras num grande arco histórico de meio século: desde os anos 60, do período dodecafônico (Gilberto o chama de "neue musik") até peças recentes, que já demarcam postura criativa diferente. O próprio compositor, de 88 anos, estava presente. No programa, o repertório do CD, com os músicos que participaram das gravações.

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2010 | 00h00

À medida que as peças iam se sucedendo no palco, comecei a me assustar com o descompasso entre o CD e o concerto. E me lembrei de algo que li esta semana no livro Listen to this, do crítico norte-americano Alex Ross: os discos "tornam-se cada vez mais um mundo ficcional". Isto é, "pressupomos que os discos clássicos praticamente negam o fato de que são gravações. Mas este processo envolve, paradoxalmente, considerável artifício". Com certeza, não é este o caso deste CD com obras de Mendes. Mas que é incompreensível execuções de ótima qualidade fixadas em estúdio soarem precárias ao vivo, lá isso é. O regente norte-americano Jack Fortner interrompeu duas vezes a execução por questões primárias de desencontro rítmico entre os músicos. Tais hesitações tiraram um pouco do brilho da festa (a única exceção foi Fábio Zanon).

Vou tomar como exemplo apenas a Música para 12 Instrumentos, peça pioneira de 1961. Assisti a uma execução dela pela Camerata Aberta em agosto. A diferença de qualidade é assombrosa. E a culpa não cabe aos músicos, mas às circunstâncias. Os membros da Camerata ensaiam regularmente três vezes por semana há oito meses. A esta altura já respiram juntos, entendem-se quase por telepatia e, consequência natural, eleva-se mesmo a qualidade da execução. Já os integrantes do Ensemble Música Nova reuniram-se só para a gravação e este concerto. Música de câmara, convencional ou contemporânea, exige amadurecimento da interpretação, que só acontece na comunhão entre os músicos. O mistério, entretanto, permanece, pois no CD do Sesc a execução é excelente. Será que o reino dos discos é mesmo ricamente "ficcional" e soa empobrecido quando realizado ao vivo? Sei que não estamos em Viena e até que a música admirável de Gilberto Mendes é uma das raras, entre as contemporâneas, capazes de seduzir o público na primeira audição. Desde que, é lógico, a execução observe padrões mínimos de qualidade. Ainda bem que os que ouvirem o CD terão todas as condições para degustar a fina arte de Gilberto Mendes.

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