Por que Elis (não) é a maior cantora do Brasil

''Já ouvi de uma pessoa do meio, muito inteligente, que ela morreu quando achou que não teria mais como realizar um grande disco. Difícil concordar, difícil discordar''

João Marcello Bôscoli, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2010 | 00h00

Emoção, criatividade, capacidade de interpretação, resposta melódica, poder de síntese, dicção, afinação, dinâmica, senso rítmico, estético e organizacional fazem parte da essência de um indivíduo musical. Esses atributos e habilidades são sintomas de musicalidade e seus efeitos sobre os artistas são independentes, como em um transe ou sonho. De maneira incomum, Elis atinge em todos estes itens graus muito altos em qualquer avaliação. E não é razoável que alguém sozinho concentre tantos atributos. Demanda uma quantidade muito grande de energia psíquica, derrete circuitos e gera um preço altíssimo no campo pessoal. Seria trágico em um ser humano comum, sem dúvida. Mas não em um ser humano-coletivo, capaz de captar o inconsciente da raça humana e o devolver para a sociedade sobre a forma de uma obra de arte pessoal e universal, dialogando, desafiando e restabelecendo mitos. Acima e profundamente ligada ao seu tempo, consciente às raias da loucura, dona de uma inteligência desconcertante e tomada por sua necessidade de cantar, Elis é um acidente genético, uma síntese de aptidões contraditórias. É aquilo que se convencionou chamar de gênio.

Certa vez, Bjork me disse que "não teria jamais coragem de ir emocionalmente até onde Elis ia; temia não conseguir voltar." Poucas vezes vi definição tão precisa. Esse medo do inesperado, sentimento pai de clichês e fórmulas, era algo que Elis desconhecia. Alimentava-se do novo, precisava dele como combustível. Raríssimas vezes em shows cantou seus hits, normalmente utilizados por grande parte dos artistas como trincheiras, como um discurso pronto que impede a emergência da novidade. Ao contrário, garantia aplausos inaugurando sensações, compositores, cortes de cabelo, gírias, indumentárias e estéticas musicais, num processo artístico contínuo, humano ao máximo.

Era comum gravar discos, como Elis & Tom, em três dias - Falso Brilhante, com músicas como Fascinação e Como Nossos Pais, foi gravado em dois. Mais do que cantar, vivia a canção, transformando toda sua existência em música. O sucesso, efeito colateral da criação artística, era consequência amiga e nunca razão de ser. Talvez por isso guardasse seus troféus e discos de platina no canil e não tivesse em casa seus próprios álbuns. Fazer o próximo era o mais importante. Ser hipnotizada pelo espelho colocaria a decadência na sala, como ocorreu com Elvis Presley e Michael Jackson. Aliás, o lento suicídio dos reis começou exatamente quando deram as costas para a música, em nome de suas idiossincrasias e de algo que sempre foi extremamente pejorativo e virou, em tempos atuais, almejável: ser uma celebridade, essa versão contemporânea do bobo da corte - sem querer ofender o bobo da corte.

Já ouvi de uma pessoa do meio, aliás muito inteligente e próxima, que ela morreu quando achou que não teria mais como realizar um grande disco. Difícil concordar, difícil discordar.

Ganha sentido quando lembramos que a música se manifesta através do artista - e não o contrário. Tal qual uma entidade independente, toma-o para si, definindo-o. Rei Lear pariu Shakespeare, assim como o trompete criou Miles Davis - e não o contrário.

Desmentindo Carl Jung, era uma grande artista e uma pessoa de ótimo caráter. Grande amiga de seus amigos, do tipo que se soubesse de alguma dificuldade financeira depositava algum valor sem comunicar ou ia visitá-lo na prisão no auge da ditadura militar, ignorando qualquer risco maior. Adorava cuidar da casa, passando em algumas temporadas meses sem nenhum auxiliar. Fazia a faxina, as compras do mês, lavava, passava, levava os filhos às aulas e cozinhava, tirando muita vida, frescor e auto-confiança disso tudo. Sendo verdadeiramente uma estrela, era desnecessário emular ou seguir algum livro de regras do star-system. Como um Marlon Brando em cena, ela só precisava existir na vida para ser quem era. Elis Regina se garantia.

Sem planejar, foi o primeiro artista brasileiro a vender um milhão de cópias, foi apresentada ao País através da televisão, onde detém o maior recorde de audiência da história da TV brasileira e fabricou o primeiro disco independente no País, entre outros marcos. Se poucas pessoas sabem desses dados, deve-se ao fato de ela viver da realização e não da percepção alheia. Dizia ser impossível para si fazer qualquer coisa em função da expectativa dos outros. Anacrônico, afinal, vivemos tempos onde artistas (artistas?) fazem pesquisa com o consumidor (público de música agora virou consumidor) para tentar identificar tendências de mercado. Era só o que faltava: um artista me perguntando o que eu acho. O mínimo que espero é que faça o que acredita, o que sente, independentemente de qualquer opinião.

Em 1979, quando foi ovacionada durante uma tour no Japão e em sua antológica apresentação no Festival de Montreux, na Suíça, descobrindo que seus ídolos jazzistas eram seus fãs, Elis chorou dizendo que sendo "filha de uma lavadeira e um operário desempregado, não sabia se merecia" tudo aquilo. Curiosamente, essa ex-criança prodígio, apesar de seus feitos, parecia não ter consciência plena de sua genialidade, depois de ter saído de Porto Alegre de ônibus com apenas uma mala e, sem conhecer ninguém, conseguir em poucos meses nas capitais paulista e carioca ser reconhecida como uma das melhores cantoras do país.

Embora tivesse grande capacidade de tradução emocional, há uma coisa impossível para Elis ou qualquer outro artista: representar todas as gamas de sentimentos. Não é possível para ela entregar os sentimentos que Carmem, Elizeth ou Bethânia entregam, por exemplo. Ou evocar o mesmo que Ella, Sarah ou Nina Simone. Isso é pessoal, intransferível e, claro, subjetivo - passa completamente pela ligação emocional que cada um tem ao ouvir determinada música. E ouvimos música por razões emocionais. Ponto. Muito pode ser dito e escrito em diversas abordagens - aspectos matemáticos, estética, sintaxe, questões apolíneas, dionisíacas -, mas o cerne é a emoção. Por isso creio que "a melhor cantora do Brasil" seja um cargo inexistente; está mais para uma panaceia. Há talvez a "melhor cantora de cada um", dependendo do estado de espírito inclusive. Apesar de amar esportes, nunca consegui acreditar na ideia de um ranking absoluto. São necessárias muitas vozes para representar todo o espectro de sentimentos existentes.

JOÃO MARCELLO BÔSCOLI, FILHO DE ELIS, É PRODUTOR E RESPONSÁVEL PELA GRAVADORA TRAMA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.