SERGIO CASTRO/AE - 5/8/2008
SERGIO CASTRO/AE - 5/8/2008

Por outra história da música

Sem alarde, Lauro Machado Coelho publicou vinte livros na primeira década do século 21. Metade deles dedicada à sua monumental história da ópera, entre 2000 e 2005, pela Editora Perspectiva, num projeto editorial sem equivalente, mesmo quando se examina o mercado internacional. O lançamento, em 2006, ainda pela Perspectiva, do magnífico Shostakovich: Vida, Música, Tempo, deu a largada numa série de biografias de compositores já por outra editora, a Algol. Nos últimos dois anos, foram lançados estudos sobre Anton Bruckner, Franz Liszt, Hector Berlioz e Jean Sibelius. E, agora, a Algol junta as quatro biografias à de Béla Bartók, lançando-as numa caixa. Ao todo, quase 2 mil páginas.

JOÃO MARCOS COELHO, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

Ao repassar as primeiras quatro biografias e ler a de Bartók, me dei conta de que Machado Coelho pertence à nobre estirpe de escritores divulgadores da cultura, já que também traduziu um sensacional volume de poesia soviética (2007) e escreveu uma biografia de Anna Akhmatova (2008). Uma linhagem iniciada por dois nomes popularíssimos na primeira metade do século 20. De Paris, o francês Romain Rolland (1866-1944) era capaz de escrever biografias competentes de criadores díspares como Beethoven, Michelangelo e Tolstói; e, além disso, repicar com uma monumental ficção beethoveniana, a obra-prima Jean-Christophe. E em Viena, seu contemporâneo austríaco Stefan Zweig (1881-1942) fez ficção de alta qualidade e era uma verdadeira usina de biografias. Escreveu, entre tantas outras, sobre as vidas de Maria Antonieta, Balzac, Dostoievski, Dickens, Casanova e Tolstói. E, no domínio musical, chegou a ser libretista de Richard Strauss na ópera A Mulher Silenciosa.

No Brasil, seu antecessor imediato é Otto Maria Carpeaux (1900-1978), verdadeiro enciclopedista de escrita ágil e frases certeiras que dominou a imprensa cultural no País por quatro décadas. Capaz de escrever uma história das literaturas em dez volumes e uma História da Música que por muitos anos constituiu a única e excelente panorâmica a quem desejasse se interessar pelo assunto.

O exercício da crítica musical amadureceu-lhe a escrita informal, o gosto pelo detalhe que seduz o leitor; mas, principalmente, Machado Coelho une características jornalísticas a um conhecimento musical profundo, que jamais descamba para o tom professoral ou para os elogios desmedidos disparados por metralhadoras de adjetivos ocos.

O grandioso projeto editorial de Machado Coelho não se esgota em meras biografias de compositores para consumo rápido ou que apenas repetem platitudes e frases feitas de terceiros. Tratei, então, de tentar encontrar os pressupostos teóricos de que ele partiu para construir estas biografias. No final da biografia de Bartók (pág. 238, chama a atenção o modo como ele comenta o Concerto para Orquestra, uma das derradeiras obras do húngaro então já muito doente, que compôs esta obra em 1943, encomendada por Serge Koussevitzky, da Orquestra de Boston, para garantir alguns meses de subsistência. É obra polêmica, acusada pelos vanguardistas de ser um recuo em relação aos seus radicais anos 20: "É uma grande obra, das maiores produzidas no século 20, e não apenas pela surpreendente originalidade de seu material ou novidade do tratamento que lhe é dado. Mas porque aos problemas amplos e vitais que ele coloca é dada solução lógica e absolutamente convincente. São estas as qualidades que fazem da Sinfonia dos Salmos, de Stravinski, ou da Turangalila de Messiaen, obras-primas. E que estão presentes em obras tão díspares quanto a Paixão de São Mateus ou o Wozzeck, a Sinfonia Júpiter ou as Quatro Canções Sérias, os últimos quartetos de Beethoven ou Tristão e Isolda."

Fazer ou não avançar a música não foi o ponto fundamental dessas obras, diz Machado Coelho. Sua "grandeza não está na experimentação ou na especulação acadêmica, mas na perfeita adequação da linguagem à ideia, que ela expressa da forma mais viva possível. E, ao fazê-lo, revelam-nos alguma coisa sobre nós mesmos. São obras inevitáveis (...), impossível imaginá-las escritas de outra maneira".

Na biografia do finlandês Jean Sibelius, Machado Coelho é preciso ao tratar de um caso ainda mais flagrante de compositor que não adotou as premissas da vanguarda e por isso foi reduzido a lixo por nomes como Theodor Adorno. Ele concentra-se na questão da adequação da linguagem à ideia, na resolução de um problema, não preocupado em saber se aquela obra faz ou não avançar a música. Machado Coelho cita frases sintomáticas de Sibelius - "Para cada uma de minhas sinfonias, desenvolvi uma técnica especial. Ela não deve ser superficial, mas enraizar-se na experiência" - e conclui: "Por isso, Sibelius não gostava de falar de sua música, pois achava que ela explicava a si mesma. Dizia ser um escravo de seus temas e se submetida às suas exigências."

No conjunto, as três biografias de compositores do século 20 - Shostakovich, Bartók e Sibelius - contam uma outra história da música, a que foi recalcada pelas vanguardas, preocupadas em reescrever o passado o tempo todo, a fim de acomodá-lo como mero antecedente lógico do presente. Chama-se a isso de atitude historicizante, teleológica - é como olhar o passado pelo retrovisor e só enxergar o que te interessa.

Não sei se Machado Coelho leu o ensaio Para Uma Outra História da Música, do musicólogo suíço Jean Molino. Se não as conhece, é inacreditável como essa atitude tão saudável mantém estreitas afinidades com a proposta de Molino, que cito de modo talvez mais extenso do que o necessário, mas fundamental para entendermos melhor o real significado e valor das obras de Machado Coelho.

"Não existe um ponto de vista divino a partir do qual se poderia contar objetivamente a história da musica", diz Molino. Uma saída é tentar reconstruir idealizadamente a situação na qual o compositor se encontrava. Isto é, que problema estritamente musical ele queria resolver, de quais recursos dispunha e em que contexto se encontrava. Molino recorre ao conhecido conceito de "análise de situação" de Karl Popper para mostrar como é idiota julgar esta ou aquela obra ou compositor a partir de um olhar retrospectivo ancorado neste ou naquele ponto de vista. Um historiador com olhos de vanguarda como o inglês Paul Griffiths, citado por Molino, entende, por exemplo, que Strauss nos anos 10 do século passado se recusou a progredir na criação musical, enquanto Schoenberg não temia dar o chamado passo à frente. Ora, como um compositor como Strauss pôde ser tão revolucionário em óperas como Salomé (1905) e Elektra (1908) e adotar uma posição tão conservadora, ou reacionária, poucos anos depois com O Cavaleiro da Rosa (1910)?, pergunta-se Molino.

Joga-se no lixo uma obra-prima como a última citada, porque seria "um confortável pastiche" (Griffiths), e louvam-se as audácias harmônicas das duas primeiras. É um julgamento historicista, diz curto e grosso Molino, que "condena antes de compreender". Claro que é mais complicado, raciocina este fabuloso pensador da música suíço, perguntar-se quais eram as situações respectivas dos atores e quais soluções elaboraram para responder às questões que se colocavam e aos problemas que tinham de resolver.

Outra qualidade notável dos livros de Machado Coelho é o modo como ele insere o compositor na história, política, economia e moldura cultural de seu tempo. Na prática, ele concretiza os ideais de Molino, que critica justamente histórias da música rotineiras por fazerem relatos assépticos, corrigidos, e portanto distantes das condições reais da vida musical. Vale citar a conclusão final de Molino: "O maior problema da chamada Grande Narrativa da modernidade é que ela precisa ser incessantemente reescrita (...) a questão é saber quem escreverá a última Grande Narrativa - a história revolucionária é necessariamente uma história trotskista, que só conhece a revolução permanente." Para superar tamanho empobrecimento e distorção, basta "avaliar as soluções dadas por cada músico segundo seu próprio valor". Esse é o ideal que Machado Coelho realiza nessas preciosas biografias, de modo tão adequado, rigoroso e cheio de imaginação - tal como o fizeram, no século passado, Rolland, Zweig e Carpeaux.

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