Por favor, onde é o mostruário de crianças?

Stela, você chegou ao mundo quando a Lua cheia subia e podia ser vista num céu limpo, após um dia de sol. Stela, estrela. Estrelas têm a capacidade de iluminar, são símbolos do espírito, da perfeição. Estrelas anunciam grandes acontecimentos. Para alguns povos, são as janelas do mundo. E a estrela da manhã anuncia o perpétuo renascimento do dia, ou seja, o princípio da vida. A estrela evoca ainda os mistérios da noite.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2012 | 03h11

Stela, minha neta, você nasceu em um mundo moderno, novo. Na terça-feira, na maternidade, estavam pais, avós e bisavós, primos, tios, amigos. Bisavós. Quando nasci, meu avô, que era então o máximo de velhice, estava em casa e ficou à espera da notícia. Ou então, vinha a parteira, os homens ficavam isolados, aguardando o primeiro choro e olhando aquela panelas de água fervente que entravam no quarto. Crianças eram distanciadas, não podiam saber que mistério era aquele. Na terça-feira, Stela, sua bisavó Silvia empurrou gente para te ver no berçário, foi à lanchonete e pediu um pratão, indiferente aos 90 anos. Estava feliz.

Na maternidade, os pais ficavam de fora do processo, aguardando na sala de espera, os bolsos recheados de charutos. Nunca entendi o porquê dos charutos. Sinal de masculinidade, símbolo de festa? Como não existia ultrassom, sabia-se do sexo apenas na hora do nascer. Uma enfermeira ia à sala de espera e comunicava ao nervoso pai se era homem ou mulher. A cena era comum no cinema e na televisão, o pai andando de lá para cá, inquieto.

Hoje, os pais entram na sala de parto, dão força à mulher, seguem o nascimento, fotografam, são dos primeiros a ter o filho nos braços, faz parte de um novo ritual. A mulher sofre as dores e o pai, a angústia, principalmente ao ver um obstetra subir e ajudar a criança a sair, empurrando-a com os pés. Isso mesmo, Stela, você veio ao mundo empurrada. Seu pai, André, assustou-se um pouco, entrou no ritual de vida. Você não queria sair do abrigo, do quentinho do ventre de sua mãe, Debora, ou Deb. Deixar a tranquilidade? Ali era cuidada, a comida vinha sem esforço. Agora, terá de se virar um pouco para mamar. Um dia vai se virar muito para comer. A vida é assim, se virar sempre. E isso dá certa graça.

Pais e amigos, parentes comemoravam com um vinho, um champanhe. Quando sugeri na lanchonete da maternidade uma cerveja para aplacar a adrenalina da espera, a garçonete me olhou com espanto. As leis hoje são contra o álcool e o fumo. Daí os charutos terem desaparecido? Ou porque muita gente fumava naquela hora o único charuto de toda uma vida?

Ah, Stela, quando vi aqueles iPads, câmeras e celulares fotografando e gravando, sorri. Minha primeira foto foi feita quando eu tinha 1 ano. Foi preciso que me levassem ao estúdio fotográfico, me colocassem sobre um sofá estampado. Lá estou com cabelos cacheados. Minha madrinha estava para morrer e pediu aos meus pais: cortem os cachos do menino, quero vê-lo com cabelos de homem. Antes do corte, a foto. Depois disso, Stela, minha foto seguinte foi aos 3 anos. E a outra, aos 11. Tenho apenas quatro fotos da infância, parece que nunca fui menino, esse período não existiu para muitos de minha geração. Ao menos, como imagem.

Cartas seguiam comunicando nossos nascimentos. Ou telegramas, ainda que caros. Pessoas ficavam sabendo dos acontecimentos semanas, meses depois. Ficavam sabendo se era homem, mulher. Vocês chegam ao mundo hoje e essa entrada é registrada imediatamente. Vi fotos suas com um, cinco, dez minutos, meia hora de vida. No mesmo momento, essas fotos seguiram para amigos, parentes distantes. Você foi para o Rio de Janeiro, Minas Gerais, Araraquara, Nova York, Inglaterra, onde quer que houvesse alguém ligado por amizades ou parentesco a Deb e André, seus pais. As redes sociais se encarregaram de enviar você para todos. É um mundo interessante, este, minha neta.

Vi no quarto de sua mãe um pequenino quadro feito por Rita Wainer. O mundo é estreito. Como não ligar tudo? Rita é filha de Pinky, que é filha de Danuza, que foi mulher de Samuel, meu primeiro patrão em São Paulo, que me ensinou a fazer jornal e a ser repórter. Como imaginar, naquele ano de 1957 em que cheguei a esta cidade, que 55 anos mais tarde, a neta do homem que me deu emprego iria fazer o quadrinho que enfeita o quarto de sua mãe, Stela? O mundo e a vida são bons e cheios de mistérios deliciosos. O mundo e a vida têm sabor.

Quando você comemora horas de vida, Caetano Veloso completa 70 anos. Um dia você saberá das músicas dele, do que significou para a arte brasileira, para este País. Aos 20, estando a vida cada vez mais longa, quem garante que você não vá ao show daquele senhor baiano de 90 anos, ainda lúcido, esperto, voz afinada, dando uma virada na carreira?

Subimos para ver Deb, a mãe. Deitada, rindo, ela comeu maçã, conversou, contou, lembrou o parto, feliz. Antes, as mulheres paridas ficavam de resguardo, distantes dos olhares, principalmente dos masculinos. O melhor de tudo foi a frase que ouvi de João, seu tio. Estávamos procurando saber onde poderíamos ver os recém-nascidos. João não teve dúvida, parou uma enfermeira e indagou:

- Por favor, onde é o mostruário de crianças?

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