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Por essas bandas

Avanço de novas manias diante da TV depende da melhoria de conexões

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2014 | 02h09

Nessa era em que o hábito de ver TV anuncia uma revolução de comportamento, sem que anunciantes, produtores e programadores acompanhem o ritmo do espectador, 26% dos entrevistados ouvidos pelo Ibope entre Rio e São Paulo disseram já ter assistido à televisão por outras plataformas - tablet, smartphone ou computador. Para 32% desses, a experiência foi pior do que ver TV pelo televisor, enquanto 44% consideraram indiferente. Mas houve até quem achasse melhor.

Dos 4% que hoje veem TV por demanda (veja dados abaixo), 67% o fazem por streaming (internet em banda larga) e 49%, por serviços de TV paga, como NOW, da NET, e GVT, lembrando que um modo não exclui o outro. Do total de espectadores de internet, 74% já usam a Netflix, serviço de locadora virtual mais popular do mundo, presente no Brasil desde setembro de 2011.

O crescimento da tendência que permite ao público ver TV como, onde e quanto quiser depende essencialmente de uma questão: banda larga. Para o CEO do Ibope Media, Orlando Lopes, a expansão do serviço é fator determinante na aceleração dos novos hábitos.

Resultado de dois estudos feitos pelo instituto, os dados aqui apresentados partem do Target Group Index, realizado em várias regiões do País, e do Social TV, que ouviu 9.100 pessoas com mais de 10 anos de idade, no início deste ano, em São Paulo, Campinas, no Rio, em Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Salvador, Vitória, Brasília, Florianópolis, Goiânia, Porto Alegre e no Recife.

Ator de TV aberta, TV paga e teatro, Marcelo Médici, hoje no ar em Joia Rara, novela das 6 da Globo, é o típico telespectador multitelas. Assíduo frequentador de Twitter e Facebook, gosta de ver TV em tempo real, grava o que não será possível ver na hora da transmissão e assiste a séries pelo NOW, plataforma da NET, e pela Netflix. Em duas semanas, Médici começa a gravar a 2.ª temporada do Vai Que Cola, do Multishow. Como não esteve no elenco da primeira safra e não conseguiu assistir a todos os episódios, recorreu aos recursos do vídeo sob demanda e gravou outros.

"Minha preferência ainda é ver na hora", fala o ator. Se estou em casa, gosto muito de minissérie, seriados... O que fica difícil pra mim, hoje, é acompanhar um seriado. Prefiro ver tudo de uma vez, no áudio original", diz.

Nesse quesito, a Netflix tem mexido ainda mais com o modo de ver TV, ao despachar temporadas de 13 episódios de uma só vez em seu endereço, como aconteceu com as duas safras da aclamada House of Cards, com Kevin Space.

Com o olho em uma tela da TV e outro nas redes sociais, Médici também se enquadra na fatia de telespectadores que já se permitiu mudar de canal influenciado pelo Twitter. "Também já entrei lá pra saber qual canal estava transmitindo um red carpet de premiação. E outro dia avisei ali sobre a entrevista da Nicete (Bruno) no Damas da TV, que eu estava vendo no Viva", emenda.

As dicas do Twitter funcionam não só entre telespectadores, mas também para quem está na tela ou no comando dela. Não é raro ouvir relatos de diretores e apresentadores que mudaram o rumo de alguma transmissão ao vivo por causa de comentários de internautas.

Há dois anos, bem antes que essa discussão sobre a correlação entre a rede de microblogs e a TV viesse à tona, Astrid Fontenelle se impressionou com a comoção desfilada pelos comentários em torno do show de Wagner Moura em tributo a Renato Russo, promovido pela MTV Brasil, que àquela época ainda era um canal aberto. Passou a mão no telefone e ligou para Zico Goes, então diretor do canal. "Foi virando uma maluquice, e eles, da MTV, não tinham noção do que estava acontecendo porque estavam ocupados com o show. Falei pra ele: 'Pode reprisar isso amanhã, tá bombando!'. Para o espectador, em eventos ao vivo, é um jeito de o cara estar lá dentro", diz a âncora do Saia Justa, no GNT.

A percepção de que os comentários online funcionam mais para eventos ao vivo é endossada por Guilherme Zattar, diretor dos canais Multishow, BIS, OFF e o BBB 24 horas, em pay-per-view. Ligado na rede de microblogs o tempo todo, Zattar cita um caso de interferência no Rock In Rio, no ano passado, quando um comentário na rede de microblogs o levou a encaminhá-lo como dica aos apresentadores, que aproveitaram a sugestão no ar.

"Acredito muito no Twitter para a TV e eles também estão investindo muito na ideia de ser uma segunda tela", argumenta Zattar. "Estou tentando tirar proveito da situação."

Para a gerente de novas mídias do GNT, Fabiana Gabriel, o Twitter "é uma ferramenta muito televisiva". Ela lembra que o canal estampava na tela, a cada episódio da série Sessão de Terapia, três tweets eleitos pelo próprio GNT durante a exibição. Os escolhidos faziam foto da tela para postar no Instagram e no Twitter. "Eles se sentem representados no programa. Isso volta para a TV. O caminho é: 'Falem da gente nas redes sociais e, a partir do quanto estão falando nas redes, assistam à gente'. Tem retorno."

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