Pop e Erudito

Francis Hime, Nelson Ayres e Fábio Zanon falam da composição dos concertos e apostam que eles podem emocionar os amantes do popular

Entrevista com

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

Na tarde da última quinta-feira, o Estado reuniu, na Sala São Paulo, os pianistas e compositores Francis Hime e Nelson Ayres, e o violonistas Fábio Zanon, que lançam na próxima semana disco gravado com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Com Concerto para Violão, de Hime - que tem Zanon como solista -, e Concertino para Percussão e Orquestra, de Ayres, os dois compositores, reconhecidos por seus trabalhos de faceta mais popular, voltam a fazer incursões na música clássica, invadindo a mesma seara percorrida no passado pelos mestres Radamés Gnattali, Heitor Villa-Lobos, Cláudio Santoro, Guerra Peixe. Na conversa, eles falam do processo de composição e do pêndulo cada vez mais comum entre popular e erudito.

Vocês são compositores genuinamente populares. Como se deu a ligação de vocês com a música clássica a ponto de culminar neste disco?

Hime: Comecei na música clássica, estudando piano desde os 6 anos. Depois tomei gosto pelo piano popular. E por meio do encontro com o Vinicius (de Moraes) acabei embicando na carreira de música popular, até que no fim dos anos 1960 fui para os Estados Unidos, estudar trilhas de filmes, principalmente com o Lalo Schifrin e o Paul Glass, que escrevia muitas trilhas para Hollywood e peças de música clássica. A partir desse contato passei a escrever umas peças de câmara e a esboçar minha primeira sinfonia. Voltando ao Brasil, embiquei direto na minha carreira de música popular e somente realmente voltei a me interessar por música erudita profissionalmente na década de 80. Essa área se situa na intersecção da popular e a erudita.

Ayres: Desde os 16 anos, com o meu primeiro conjunto, sempre me interessei pela combinação dos instrumentos, pelo arranjo. E acabei, assim como o Francis, indo para os Estados Unidos, só que fui para Berkeley, fui o primeiro aluno brasileiro a ir para lá.

Hime: É mesmo? Em que ano?

Ayres: Em 1969. Mas fui estudar arranjo e nessa história você acaba caindo no erudito, né? Nos Estados Unidos eu comecei a escrever algumas coisas que não era nem jazz nem música brasileira. Eram fugas para quarteto de saxofone, música de câmara. De volta ao Brasil, comecei a gravar e a coisa do arranjo nunca mais me largou.

Sobre essa intersecção, nomes como Villa-Lobos, Radamés Gnattali, Cláudio Santoro, Guerra Peixe e Léo Peracchi mostraram isso no passado. Como eles serviram de inspiração para vocês trilharem esse caminho?

Hime: O Brasil tem essa coisa da mistura que aparece na música de uma maneira muito definida.

O concerto foi originalmente escrito para Raphael Rabello, não?

Hime: Foi escrito de 1988 até 94, passei seis anos com o violão debaixo do braço e o Raphael ficava me botando pilha. Eu dizia: "É muito difícil o concerto." Ele respondia: "Não, pode escrever que eu garanto." Fui desenvolvendo as ideias e acabei o concerto, ele chegou a tocar alguns trechos em shows, seis meses antes de morrer. Depois que ele morreu, cheguei a mostrar para outros violonistas, como o Duo Assad. Foi até curioso, eu não sabia de uma história, que eles me falaram: "Você fez o concerto que o Tom queria fazer." Até que uns quatro anos atrás eu mostrei o concerto para o (John) Neschling e ele disse: "Olha, eu tenho um cara que vai tocar isso de forma sensacional."

Zanon: Ele foi gentil. Realmente, é um concerto grande. Poder prestar essa homenagem ao Raphael é uma tocha bem pesada de carregar.

O Raphael tinha uma técnica, principalmente para a música popular, absurda. Tem diferença para você, Francis, ver seu concerto tocado hoje por um violonista clássico?

Zanon: Você tem de relevar o fato de estar lidando com um superdotado. Mesmo a gente, que tenta tocar violão direito, ficava de olho esbugalhado vendo o Raphael.

Nas décadas de 70 e 80 o violão foi praticamente banido da universidade clássica, a USP ficou sem curso durante um período. Hoje isso mudou muito.

Zanon: A USP começou o curso em 1986, fui da primeira turma (risos).

Ayres: Sou de 1973 e não deixavam entrar com o violão na escola. Era muito ortodoxo.

Zanon: E muito acadêmico. Eles faziam uma prova de aptidão e apareciam 70 violonistas concorrendo para o curso de música e o pessoal tocava violão por cifras, ninguém lia música. A partir do momento em que o violonista começou a se preparar, o preconceito acabou. Hoje, o que o Brasil exporta de música clássica? É violão, é a área em que a gente é referência.

Hime: A tendência é desenvolver uma literatura do violão brasileiro que foi interrompida durante um certo tempo.

Zanon: A gente não tinha concertistas de violão até aparecerem Turíbio Santos e Barbosa Lima. Antes, havia um pessoal híbrido, como o Garoto. Concertista de violão é uma coisa que surgiu nos anos 1960. O Duo Abreu, o Geraldo Ribeiro.

Outra particularidade do Brasil, como o violão, é a percussão. Origem do concerto do Nelson.

Ayres: Da primeira vez que o John (Neschling) fez música, digamos, popular foi com a Banda Mantiqueira e a Mônica (Salmaso), um concerto de fim de ano. Eu ajudei o John a fazer os contatos com a banda e a formatar o concerto. De repente ele falou: "Você não quer escrever um concerto pra percussão?" Acho que ele pensava que ficaria algo popular, bem brasileiro. Quando comecei, pensei: é uma solução um pouco óbvia. Quis fazer um negócio que não tivesse formas brasileiras. Decidi usar instrumentos clássicos de percussão de uma forma clássica. Eu, quando escrevo, penso que os músicos têm de se divertir, já é metade da batalha ganha. Se os caras tocam com empolgação, o público sente isso também.

Vocês acham que as gravações desses dois concertos vão atingir os ouvidos de quem conhece o trabalho popular de vocês?

Zanon: Acho que da mesma forma que você tem a intersecção dos gêneros, tem a do público. Existe muita gente interessada em música instrumental, não importa o gênero. Acho que essa intersecção está cada vez mais forte. É algo que o Lucas falou, que remete ao Radamés Gnattali, que foi uma pessoa que enfrentou muito nariz empinado para fazer o que fazia.

Hime: O nariz é cada vez menos empinado. Eu me lembro quando escrevi essa minha primeira sinfonia, na década de 1980, eu levava o projeto para os maestros, mas eles não diziam de cara que não gostavam, mas eu sentia. Hoje é mais fácil (risos).

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