"Ponto de Vista" quebra o ritmo

Um dos maiores sucessos do teatro inglês nos últimos anos, Amy´s View, obra escrita em 1997 por David Hare, detentora dos prêmios Tony e Olivier, chega ao Brasil com o nome de Ponto de Vista, sob direção de José Possi Neto. Em cartaz no Teatro Faap, a ótima peça de Hare leva para o palco uma história com fundo falso.Na superfície do texto, o dramaturgo discute relações familiares e esmiuça as diferenças que separam uma grande atriz, Esme Allen, de seu genro, Dominic, e sua filha, Amy. A essa trama banal David Hare mistura uma fascinante discussão sobre mídias. Esme representa o teatro, uma tradição secular, venerável. Dominic é a televisão e o cinema, não tem o menor respeito pelo mundo teatral e acredita que a arte dramática, enquanto veículo narrativo, está morta, em via de desaparecer.Têm consistência e profundidade os personagens de Hare, veterano dramaturgo e roteirista (Plenty, Perdas e Danos), um dos maiores da cena britânica contemporânea, pela primeira vez montado no Brasil. A dimensão humana das figuras que o autor cria evita que o texto se torne um enfadonho debate sobre tradição e modernidade. A inconseqüência da hedonista Esme atriz superlativa que perderá sua fortuna em aplicações financeiras de alto risco, contrasta com a rigidez de Dominic, criado em um orfanato, profissional resoluto, decidido a dominar as leis do mercado para ser bem-sucedido em mídias que atingem as massas. Entre eles coloca-se a amorosa Amy, que não pertence a nenhum desses mundos. E Evelyn, a sogra de Esme, surge em cena como uma imagem da finitude do ser humano.A qualidade do texto, aliada ao elenco estelar, integrado por Beatriz Segall, no papel de Esme, Marcello Antony como Dominic, Adriana Esteves vivendo Amy e Myriam Pires fazendo Evelyn, além de Luiz Baccelli e Bruno Costa, transformou Ponto de Vista em uma das montagens promissoras da temporada. Mas a promessa é frustrada. O espetáculo de José Possi Neto quebra a narrativa. Faltando um terço para o fim da história, o diretor interrompe a ação para um longo intervalo, ao qual se segue um segundo ato de cerca de 20 minutos. O procedimento corta a fluência e devolve um público morno para a sala de espetáculo. Resultado: o embate final entre Esme e Dominic, fecho da história, uma formidável declaração de amor ao teatro, perde força e vibração.A razão do intervalo fatal é uma troca de cenário, que passa de uma casa de campo para um camarim de teatro. O espaço, assinado pelo francês Jean-Pierre Tortil, poderia prever uma mudança rápida de ambientes, eliminando o problema, mas não foi essa a solução adotada. Como se não bastasse, a cenografia da primeira parte, bem resolvida e equilibrada, abre espaço para um ambiente tosco, que em nada se parece com um camarim de teatro.Ponto de Vista conta com um problema sério no elenco. Adriana Esteves fica muito longe de convencer como Amy, personagem crucial na trama. Faz uma mulher ansiosa, arquejante, que em vez de tentar apaziguar o conflito que eclode entre mãe e marido amplifica o desacordo que há entre eles. Adriana Esteves perde-se em cena, impedindo o espectador de estabelecer contato com a personagem que interpreta.Bruno Costa, como um jovem ator que entra no fim da história, carrega demais na dose de entusiasmo que tem de demonstrar. Luiz Baccelli, na pele do desastrado consultor financeiro de Esme, compõe um tipo adequadamente esnobe e empertigado. Em discreto e memorável desempenho, Myriam Pires traça com suavidade e delicadeza o perfil da frágil Evelyn. Marcello Antony desenha de modo vigoroso o complexo Dominic, egocêntrico, implacável, mas também frágil e sensível. O ator demonstra ter o talento e a presença de cena indispensáveis ao exercício do teatro. Pena que, atropelada pelo intervalo, a cena final de Dominic e Esme não atinja o estágio eletrizante que o texto permite.Beatriz Segall erra no varejo e acerta no atacado. Ao longo da peça, enfrenta visíveis problemas de emissão vocal. Em certas passagens chega a tartamudear no início das frases. Ainda assim, reverte o jogo a seu favor: incorpora esses problemas na personagem. Como se Esme, e não a intérprete, engolisse o fim das palavras. O recurso não chega a convencer, mas a energia da atriz e sua disposição para fazer o papel são tamanhas, que o espectador esquece do acessório para se concentrar no principal. Essa Esme vive, está plena no palco.Ponto de Vista não é a produção homogênea e consistente que seria de desejar. Mas a excelência da obra de David Hare e o que há de acertado nas interpretações do elenco justificam a ida ao teatro.Serviço - Ponto de Vista. De David Hare. Direção José Possi Neto. Duração: 100 minutos (com intervalo de 10 minutos). Quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 25,00 (quinta); R$ 30,00 (sexta e domingo) e R$ 35,00 (sábado). Teatro Faap. Rua Alagoas, 903, tel. 3662-1992. Patrocínio: Votorantim e Correios

Agencia Estado,

27 de setembro de 2001 | 17h02

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