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Pomo da discórida

Uma história exemplar dos tempos trevosos em que vivemos.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2018 | 06h00

Em 1983, a escritora e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras Ana Maria Machado, autora de livros infantis mundialmente premiada, publicou O Menino Que Espiava Pra Dentro, logo adotado em escolas de todo o País. Trinta e cinco anos e 92.000 exemplares vendidos depois, uma inquisição virtual colocou-o no index librorum persecutorum da estupidez nacional. 

O rastilho persecutório foi involuntariamente aceso por uma professora do Recife curiosa de saber se os filhos de outras internautas também lhes haviam perguntado sobre supostos efeitos oníricos de uma maçã entalada na garganta, depois de ler um pequeno trecho de O Menino Que Espiava Pra Dentro. No tal trecho, um garoto chamado Lucas conjectura engasgar-se com uma maçã para ver se, conforme ouviu dizer, aquele sucedâneo do pó de pirlimpimpim em forma de fruto proibido o levaria a viajar para um mundo de sonhos. 

Que eu saiba, Lucas não morre, nem sequer se sufoca, nada de mau lhe acontece. 

Não obstante, pais e mães alarmantes e milicianos do ódio de plantão na internet deflagraram uma sistemática campanha de difamação e caça ao livro e sua autora, acusando-os de incentivar o suicídio infantil. Balela. São outras as questões nele tratadas, à sombra, como se viu, de Monteiro Lobato e da Bíblia: sonho vs. realidade, a solidão (Lucas é filho único e anseia ter um irmão), a fuga na fantasia (Lucas cria um amigo imaginário e crê ingenuamente na possibilidade de uma vida paralela), a transferência de afetividade (Lucas ganha dos pais um cachorro). 

Os leitores mirins adoraram, os pais, pretensamente mais inteligentes, renderam-se à paranoia. Ignoram como funciona a linguagem simbólica de uma obra de ficção, desconhecem a diferença entre o real e a fantasia. Nem gibi parece que leram na infância. 

Quantas crianças já se jogaram de uma janela na vã tentativa de imitar o Super-Homem ou o Capitão Marvel? Ou, mais objetivamente, quantas crianças tentaram se asfixiar com um naco de maçã nos últimos 35 anos? 

Pensei que já tivéssemos superado os preconceitos disseminados na década de 1950 pelo psicólogo Fredric Wertham sobre a “sedução dos inocentes” pelos comics. Lhufas. Não querem que as crianças evoluam, exercitem a imaginação, capacitem-se melhor para a vida. Só sabem falar em tom repressivo, em domesticar as ideias e evitar que elas circulem livremente nas escolas – em censura, enfim. Ano passado, o então ministro da Educação Mendonça Filho ordenou o recolhimento, em todas as escolas brasileiras, de 98.000 exemplares do livro de contos Enquanto o Sono Não Vem, de José Mauro Brant.

Por quê? Porque embora aprovado três anos antes por entidades do governo ligadas à educação, um alcaguete moralista qualquer buzinou no ouvido de alguma autoridade incompetente que, no conto A Triste História de Eredegalda, havia um incesto. 

Para início de conversa, incesto não consumado. OK, o que vale é a intenção. Vamos lá: um rei cisma de casar com uma de suas três filhas, justamente a infausta Eredegalda. Ela se nega e o pai a castiga, deixando-a morrer de sede. Claro que as crianças se identificam, como se identificaram e se identificarão sempre, com a menina, não com o pai cruel – e incestuoso. Além de filicida.

Ao chavão apresentado pelo ministério – “as crianças do ensino primário não têm maturidade e senso crítico para problematizar certos temas com alta densidade” – o autor poderia ter contraposto esta verdade insofismável: se não têm maturidade nem senso crítico, grande parte da culpa cabe à infame qualidade do ensino fundamental. Brant, porém, preferiu outra verdade insofismável: “Melhor que as crianças entrem em contato com os temas difíceis através da literatura do que na rua”. 

Insofismável, mas incômoda por questionar a tutela, não dos pais, mas do Estado. Nem entro no mérito da discutível representatividade do atual governo. Sua falta de discernimento me basta. Como pode um ministro da Educação exigir que uma história informada por vários relatos da tradição oral em todos os tempos não contenha “assuntos delicados”, e que eles existam exatamente para alertar as crianças sobre os perigos do mundo?

Não temos, como os argentinos, uma expressiva tradição de censura a livros infantis. Na ditadura militar daqui, a literatura adulta canalizou quase todas as energias da repressão; só o livro de contos de Rubem Fonseca Feliz Ano Novo ficou proibido durante 12 anos, sob a acusação de ofender “a moral e os bons costumes”. Já as pressões sobre Monteiro Lobato por um comentário considerado racista em Caçadas de Pedrinho foram desencadeadas apenas quatro anos atrás, não pelo governo (de resto civil e legitimamente eleito), e sim por grupos turbinados pelo politicamente correto, afinal frustrados por uma decisão do STF, inocentando Lobato.

Na ditadura militar argentina (1976-1983), escritoras de livros infantis sofreram o diabo. Só dois exemplos: 1) Laura Devetach, autora de La Torre de Cubos, foi acusada de “questionar ideologias sociais” e apresentar “simbologia estranha”; 2) por imaginar uma fuga do zoológico liderada por um paquiderme revoltado com os maus-tratos a que ele e demais animais eram submetidos, Elsa Izabel Borenmann teve Un Elefante Ocupa Mucho Espacio tachado de subversivo e proibido pelos milicos. 

O que esperar de um regime que nem do inofensivo Antoine de Saint-Exupéry livrou a cara? Sob a durindana do general Videla, O Pequeno Príncipe foi demonizado por sua “ilimitada fantasia” e pela obstinada busca do protagonista por amigos, vista como uma ameaça aos mecanismos de controle do regime.

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