Pombas Urbanas ocupa zona leste

Aos 50 anos, o diretor peruano Lino Rojas tem algumas convicções. Uma delas diz respeito à sua nacionalidade. "Ser peruano é carregar uma cruz incaica", afirma. "Eu acho que o artista peruano nasce com a responsabilidade de ter um olhar comprometido a um só tempo com suas raízes sedimentadas numa cultura milenar - bombardeada pelo avanço tecnológico - e com a evolução do pensamento no mundo contemporêno."Rojas não abandonou sua cruz quando, em 1974, passou a viver no Brasil, depois de ter entrado em contato com o teatro argentino e europeu, a partir da Espanha, onde estudou. E fez uma opção artística coerente com a interação entre diferentes culturas. Em 1985, fundou a Companhia Artística Pombas Urbanas com adolescentes de São Miguel Paulista. Condição para que eles participassem do grupo: não abandonar a escola.O diretor observa que boa parte da criação brasileira, em todas as áreas da cultura, surgiu primeiro como percepção intuitiva, depois veio o contato com a chamada alta cultura, na contramão do que ocorre na Europa. "Na Europa, na Argentina e até no Peru, os artistas saem das camadas médias da população. No Brasil, os melhores atores vêm das camadas mais populares. A história da cultura brasileira está ligada a gente que é, antes de mais nada, um poço de intuição, depois vem a sofisticação."Frutos - Integrada por 12 artistas - sete faziam parte da formação inicial - e com seis espetáculos no currículo, a companhia Pombas Urbanas começa agora a colher os frutos de um longo trabalho de aprimoramento e depuração artística. E prepara-se para ocupar, durante um ano, um galpão na zona leste, que abrigará uma temporada de seis meses do espetáculo Uma Baleia perto da Lua, com texto e direção de Rojas.E ainda diversifica atividades. Desde o ano passado, a companhia tem um núcleo de cinema, que já rendeu um vídeo exibido no programa Metrópolis, da TV Cultura, sobre o centro de São Paulo. Atualmente, o Núcleo Ribalta - voltado para a linguagem audiovisual - prepara o curta-metragem Baby FM e um curso de teatro para adolescentes, em vídeo.Na nova sede na zona leste - atualmente eles ocupam um amplo apartamento no centro da cidade, onde vivem e trabalham -, os atores do Pombas Urbanas vão oferecer seis meses de oficinas gratuitas de teatro para jovens dos bairros próximos, prática constante da companhia. Em 11 anos de existência, os atores já estabeleceram contato com cerca de 6 mil jovens em bairros como Pirituba, Paraisópolis e Barro Branco."Temos alguns espaços em vista e estamos negociando com possíveis apoiadores", diz Rojas. "Queremos ocupar um espaço na periferia e, certamente, vamos conseguir, iniciando uma nova etapa na história da companhia." Uma história que começa com a criação de personagens e pequenos esquetes a partir da observação do comportamento de figuras típicas das ruas da cidade: executivos, religiosos, desempregados, motoqueiros, meninos e meninas de rua, prostitutas, travestis, bêbados, migrantes de vários Estados do País. Alguns desses personagens se mantêm em mais de um espetáculo do repertório, como o machão Chiclete de Onça ou o romântico Perfume Francês, dono de uma banca de jornais na Praça da Sé.Mingau de Concreto, um dos espetáculos de rua mais conhecidos do repertório do grupo, concebido em 1996 com o apoio do Sesc/SP, já integrou a programação do Festival de Teatro de Curitiba e participou das comemorações do aniversário de São Paulo, com duas apresentações na Avenida São João. Nesse espetáculo, os atores vestem seus figurinos na própria rua, enquanto do diretor Lino Rojas discursa para a platéia, apresentando os personagens e preparando o público para as cenas que verá em seguida.Em 1997, o grupo ganhou o Prêmio Flávio Rangel para finalizar a montagem de Ventre de Lona, espetáculo que ensaiava havia 13 meses, durante dez horas diárias. "Pesquisamos o que mantém vivo um garoto que dorme nas ruas, que forças o protegem dos exterminadores", lembra o ator Marcelo Palmares. "Rojas sempre nos deu liberdade para pesquisar a partir de um universo próximo, em que a gente se reconheça, mas não para reproduzi-lo. O que fazemos é representação, o resgate poético dessas experiências. Nesse sentido, o aprimoramento conseguido com "Ventre de Lona" consolidou a linguagem do grupo."Bandeira - Da rua para o palco. Ano passado, com o apoio da Funarte, foi a vez de criarem Buraco Quente, em formato Arena. O título do espetáculo surgiu a partir de uma das personagens de seu repertório de tipos, Lady Dá, uma mulher que ganha a vida vendendo pinga na boca da favela do Buraco Quente. "De início, tudo o que tínhamos na Funarte era um pequeno espaço com uma arquibancada verde. Nas improvisações, percebemos que estávamos dentro da bandeira do Brasil. Pintamos uma arena de amarelo e criamos o cenário ideal para o nosso espetáculo", lembra o ator Adriano.Na avaliação do grupo, Uma Baleia perto da Lua, que também foi apresentado no Festival de Curitiba, representa um salto de qualidade para toda a equipe do Pombas Urbanas. "O espetáculo vem sendo retrabalhado há quase um ano, desde sua apresentação em março, no festival. E atuamos pela primeira vez com um texto fechado", comenta Adriano. Espetáculos como Mingau de Concreto foram sendo criados a partir da observação do público nas ruas e tinham um roteiro básico, que permitia alterações/improvisações por parte dos atores.A louca e dois velhos - Uma Baleia tem como ponto de partida o encontro, num play ground de um prédio abandonado, entre uma jovem louca e dois velhos, invasores do local. A partir das alucinações da louca e da memória dos velhos, a peça vai traçando um panorama da metrópole paulistana de ontem e hoje. Mas não é apenas na dramaturgia que o novo espetáculo difere dos anteriores. "A parte técnica foi muito bem cuidada. Subimos, por exemplo, na torre da Igreja da Consolação para gravar o som do sino e fizemos o mesmo com diversos sons das ruas, para criar uma ambientação sonora da cidade."E já está pronto o roteiro de Baby FM, que começa com um close numa reprodução da tela O Quarto, de Van Gogh, pendurada na parede de uma quitinete do centro de São Paulo. E conta a trajetória de uma rapaz desde o dia em que sai de casa, confiante, para fazer um teste de locução, mas vai pouco a pouco enlouquecendo diante da impossibilidade de desenvolver o seu potencial de talento. O tratamento realista, de um realismo cru, vai aos poucos cedendo espaço ao onírico.Rojas é um diretor otimista com o desempenho e em relação à continuidade do grupo. E não tem dúvida de que o apoio para a nova sede acabará surgindo. Só lamenta o preconceito que ainda envolve a chamada "arte popular", que acaba tendo reflexos no trabalho do grupo. "Num País como o Brasil, a palavra ´povão´ jamais deveria carregar a carga pejorativa. Deveria sim estar impregnada de um sentido positivo. ´Povão´ devia ser sinônimo de grandeza."

Agencia Estado,

07 de fevereiro de 2001 | 16h13

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