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Pombas

Quase 160 anos depois, muita gente ainda prefere que Darwin tivesse seguido o conselho de escrever sobre pombas

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2020 | 03h00

Num dia do ano 1859, o editor de uma respeitada revista inglesa chamada Quarterly Review recebeu os originais do livro de um certo Charles Darwin, que leu e achou interessante, mas que, na sua opinião, não atrairia muitos leitores. O editor aconselhou Darwin a escrever sobre pombas. O público adorava livros sobre pássaros. E o título do livro de Darwin não ajudava: Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida. Pouco comercial, segundo o editor, que mesmo assim concordou em publicar o livro, com uma tiragem de 1.250 exemplares, vendidos todos num dia só. Desde então e até hoje o livro não parou de vender, e nunca deixou de ser discutido. Nada mal para um autor que, se não tivesse publicado sua teoria sabendo o alvoroço que provocaria, nunca seria mais do que um anônimo naturalista provinciano especializado em minhocas. 

O alvoroço continua. Quase 160 anos depois, muita gente ainda prefere que Darwin tivesse seguido o conselho de escrever sobre pombas. Os índices de leitura de horóscopos atestam o fracasso de Copérnico em convencer a humanidade de que a Terra não é o centro do Universo, como ela ainda pensa. A ciência em geral tem tido um péssimo desempenho na tarefa de vencer a crendice e o obscurantismo, embora a versão “oficial” da História humana desde, pelo menos, o século 18 tenha sido a de conquistas irreversíveis da razão secular, com alguns soluços de irracionalidade.

Darwin também não convenceu muita gente. Numa enquete recente, mais de 70% dos americanos pesquisados responderam que preferem a explicação bíblica da origem da sua espécie à de Darwin. Em vários Estados americanos há leis que obrigam o ensino da versão bíblica juntamente com a da evolução, que deve ser identificada como apenas uma especulação teórica em contraste com a palavra de Deus. A influência do fundamentalismo religioso cresce na política e nos costumes do mundo e, cada vez mais, do Brasil. E ainda por cima, ou por baixo, vem a pandemia mexer com nossos nervos.

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