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Pólvora & perfume francês

O poeta grandalhão ameaçava puxar as orelhas do deputado. Foi abatido com um tiro

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2019 | 02h00

Bem diferente dos barracos extraliterários aqui relatados na semana passada – nos quais as desavenças, com toques até cômicos, não renderam mais que pugilato, tabefe e palavrão –, a história de hoje, vou avisando, acaba em tragédia. Sem prejuízo disso, os dois protagonistas, se colocados no centro de um ringue, formariam uma dupla capaz de provocar risadas. 

De fato, um deles, jornalista e deputado federal, autor, já aos 28, dos ensaios de A Chave de Salomão e do romance Inocentes e Culpados, era um baixinho que, posto ao lado do outro, poeta fisicamente avultado, com um livro na praça e 41 anos nas costas, pareceria ainda mais miúdo. A uni-los, além da circunstância de serem ambos gente conhecida nos meios literários do Rio de Janeiro – estamos no ano de 1915 –, havia apenas o fato de arrastarem, um e outro, nomes quilométricos. 

Até nisso, aliás, o deputado – que veio a ser um figurão não só das letras, com assento na Academia Brasileira, como embaixador luzidio – perdia para o outro, também onomasticamente avantajado: no registro civil, o sergipano Gilberto Amado era Gilberto de Lima Azevedo Souza Ferreira Amado de Faria, enquanto o gaúcho Aníbal Teófilo, provido de nada menos que três conjunções hispânicas Y, era Aníbal Teófilo de Ladislau y Silva de Figueiredo y Melo de Giron de Torres y Espinosa. Posto por inteiro nos 140 caracteres do twitter, o nome deste deixaria pouco espaço para a mensagem propriamente dita. 

Assassinado – antecipemos o final da história – com um tiro que lhe seccionou a medula, Aníbal Teófilo não pôde ir além do livro de estreia, Rimas, do qual apenas um soneto, A Cegonha, haveria de ser lembrado, ainda assim por não muito tempo. Décadas mais tarde, o crítico Brito Broca lamentaria que o autor tenha estragado seu poema ao encravar um substantivo infeliz no último verso do terceiro terceto: “Qual morosa, tenaz, paciente lesma”. “Horrível essa lesma”, arrepiou-se ele, pois “desencanta a beleza do soneto com algo repugnante, destoando de todo o sentido poético”. 

Mas não deixemos que um molusco gastrópode torne ainda mais arrastado o nosso relato. Vamos aos fatos.

Um século e pico depois, ainda não se sabe exatamente quando e por que começou a malquerença que levou Gilberto Amado a sacar sua Mauser e abater Aníbal Teófilo no saguão do prédio do Jornal do Commercio, em plena avenida Rio Branco, no início da noite de 19 de junho de 1915. A crer no autor do tiro – que um ano depois seria absolvido –, o poeta de A Cegonha, por alguma razão, costumava praticar contra ele o que hoje se chamaria de bullying. Pelo menos foi o que contou, quatro décadas mais tarde, em seu penúltimo livro de memórias, Presença na Política

Nas quase 20 páginas do capítulo Terrível Prova, o nome de Aníbal Teófilo não é citado uma única vez. Gilberto Amado limita-se a apresentá-lo como “pessoa já madura, anos e anos mais velha do eu, atleta, homem de alta estatura, conhecido desde a mocidade pelo vigor físico”, em brutal contraste com ele próprio, descrito como “pequenino e magrinho”. 

Amado diz que tempos antes, assim do nada, o poeta o “estupefez” com uma ameaça – proferida em português corretíssimo, diga-se: “Quebro-lhe a cara, puxo-lhe as orelhas... seu...”. A crer no memorialista, seu desafeto sofria de uma “obsessão de puxavante de orelhas”, e voltou a ameaçá-lo quando, no derradeiro encontro, os dois se cruzaram na saída de uma “hora literária”, no 5.º andar da sede do Jornal do Commercio

Embora “miopíssimo”, o deputado estava sem óculos – que poderiam, talvez, ter evitado a tragédia. Num ambiente mal iluminado, ele saiu cumprimentando “à direita e à esquerda”, sem saber exatamente a quem se dirigia – e nisso teve a infelicidade de abanar a cabeça justamente para o belicoso Aníbal. “A você não cumprimento!”, teria rugido o poeta, cujo pavio, em contraste com a estatura de seu dono, era dos mais curtos – e, aos brados, renovou o propósito de puxar as orelhas do deputado, as quais, por sinal, vistas em fotografias, nada mostram de especialmente chamativo. 

No bafafá que se seguiu, já no saguão do edifício, o dono das orelhas sacou a arma e, meio às cegas, disparou três ou quatro tiros contra o autor de A Cegonha, um dos quais acertou o alvo. Minutos depois, Amado era detido e Aníbal Teófilo morria no hospital. Numa passagem pitoresca de seu relato, o assassino conta que naquele dia estreava um terno, e não qualquer: talhado pelo Nagib, “o alfaiate da moda”, em casimira azul. Foi a primeira vez, acrescenta, que pagou roupa com sua verba de parlamentar. Ficou traumatizado: “Nunca mais usei fazenda de cor azul”, esconjura, e “só de ver fazenda com essa cor me arrepio”. 

Minutos antes de ser abatido, Aníbal Teófilo tinha posado para uma foto em companhia de amigos escritores, entre eles Olavo Bilac, Martins Fontes, Emílio de Menezes, Olegário Mariano e Humberto de Campos. Todos estes, e muitos mais, engrossaram a multidão que compareceu ao velório e ao sepultamento, no cemitério do Caju. “O enterro de Aníbal foi uma apoteose”, escreverá o poeta Emílio de Menezes. “Nunca houve no Rio um movimento de solidariedade literária como este.” 

Não faltou àquele adeus um toque romântico-macabro. Biógrafo de Emílio, Raimundo de Menezes (nenhum parentesco) conta que por volta da meia-noite entrou no velório uma mulher de negro, usando véu, com um ramalhete de cravos brancos, e, erguendo a echarpe, beijou “demoradamente a face, a boca e as mãos esquálidas do poeta”, que era pai de família, para em seguida desaparecer, sem que se soubesse quem era. 

Houve mais. É também Menezes quem conta que Aníbal Teófilo e sua patota literária tinham selado um pacto pelo qual, na hora de fechar-se o caixão do primeiro que se fosse, cada um deles derramaria determinado perfume sobre o coração do falecido. Olavo Bilac, ninguém menos, puxou a fila, e tantos vieram em seguida que o ambiente “ficou balsamizado, cheio de celestial suavidade”. Naquele dia, registra Raimundo de Menezes, não restou no comércio do Rio de Janeiro um único frasco de Idéal, da perfumaria francesa Houbigant.

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