Política sem maquiagem

A Copa, ímã das atenções. Um mês com o País fora do prumo, com ou sem protestos. Estando ou não na final. Levando ou não a taça. Mas também um tempo em que os marqueteiros da política não tirarão férias. Ao contrário. Enquanto a bola rolar no gramado, articularão intensamente. Porque logo o jogo será outro. Competição de três meses, em âmbito nacional, para o grande loteamento do poder. Serão tantas ambições em campo que o torneio da Fifa corre o risco de passar para a história como um convescote de escoteiros.

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2014 | 02h06

Pensava nisso dias atrás, enquanto via um dos pré-candidatos à Presidência em entrevista numa roda de TV. Já conferira antes a entrevista de outro pré-candidato no mesmo programa. E a de um postulante a governo estadual. Tem sido um desfile interessante. Em comum entre os candidatos, aquele tom artificialmente triunfalista, quase sempre expresso em plural majestático, nós faremos isso ou aquilo, não toleraremos mais isso ou aquilo, nunca antes tivemos isso ou aquilo, fora a dicotomia "nós e os outros", fórmula inescapável. Chegando ao poder, "nós", e seja lá quem for essa entidade, inauguraremos um novo tempo.

O Brasil parece sempre prestes à sua refundação. Como se contasse com a providência de um milagre. Um golpe de sorte. Um gol para virar definitivamente o placar. Nesse autoengano, constrói-se o processo eleitoral. E o mercado das candidaturas, com seu imenso balcão de pronto-atendimento: MBAs em comunicação política existem vários. Livros para organização de campanhas, com dicas supostamente infalíveis, também. Compêndios com estratégias para redes sociais, essa grande incógnita. Cursos de media training sobre como se safar de situações difíceis, indigestas ou embaraçosas. Peritos em mediação de conflitos. Caçadores de escândalos. Construtores de dossiês. E, como técnicos de seleções, pairam nossos grandes marqueteiros, alguns ainda fechando contratos milionários.

O programa na TV avança, o pré-candidato é abalroado por uma pergunta pra lá de incômoda, balança, enrubesce, mas responde. Está treinado para reagir. Não há dúvida que o marketing político se consolidou no País. Ele prepara os candidatos, profissionaliza campanhas, aprimora a análise de dados, monta e desmonta estratégias com rapidez e ainda monitora campanhas em tempo real. Em suma, os marqueteiros sabem que estão pisando cada vez mais em campo minado, daí talvez a tendência de fazer do candidato-cliente um herói blindado. Um sabichão contumaz. O articulador de um palavrório sem-fim, de onde é possível sacar solução para tudo. O problema é que essa linha de fabricação de políticos pode gerar no público (o eleitorado) a impressão de que "eles são todos iguais". Ou, no limite, muito parecidos. Perde, em diversidade, a democracia.

Nos anos 1990, o jovem primeiro-ministro Tony Blair, estrela ascendente do trabalhismo inglês, se cercou de consultores que lhe venderam os moldes do "good enough leader". Aquele líder "bom o suficiente", saído dos fornos da London Business School para atuar em empresas. O que se buscava? Não mais o executivo programado para exercer repetitivamente funções de comando e controle, mas aquele capaz de incorporar um pacote de atributos mais flexíveis, e criativos, tais como sinceridade, respeito, tolerância, transparência. Blair encarou a receita por bom tempo, tirou vantagens dela (inclusive eleitorais), mas acabou se rendendo ao establishment e virando um político convencional.

Hoje cresce o interesse por gente "boa o bastante", gente que reforça a face humana da meritocracia, por sua vez meio desvirtuada por tecnocratas. Tomemos um caso bem extremo: Francisco, o papa que não se escuda na infalibilidade, reitera ser um pecador, tratando de se libertar de um fausto descabido que o manteria numa redoma, longe da sua clientela, o rebanho. Um líder religioso que se volta para tarefas 100% mundanas, na tentativa de corrigir os rumos de uma instituição cercada de escândalos. De onde vem tamanha admiração por esse argentino até pouco tempo desconhecido, se não do fato de ter sido capaz de romper com uma ordem cristalizada, buscando um diálogo de franqueza com as pessoas?

Outro personagem que mereceria inspirar nossos marqueteiros - e assim nos livrar dos debates políticos engessados, que certamente virão por aí - é José Mujica. Não há no mundo governante tão sem maquiagem. Tão sem esquema. E ao mesmo tempo tão admirado. Até Obama se rendeu ao charme do presidente uruguaio. Pela internet, encontram-se diferentes versões da lista "10 razões para amar Pepe Mujica", que incluem a coragem de legalizar a maconha e o casamento gay, mas também a decisão de viver na simplicidade e adotar uma cachorra aleijada, de três patas.

O clima político no país vizinho vem esquentando, o ex-presidente Tabaré Vázquez deve voltar ao poder pela Frente Ampla, coalizão de Mujica, mas colorados e blancos se agitam com seus clãs tradicionais, os Lacalle, Bordaberry, Heber. Mujica governa sem se perturbar. Continua doando 90% do salário presidencial, não deixou de viver na casinha da estância que pertence à mulher, circula no Fusca de sua propriedade (embora o carro oficial seja outro, um Corsa...) e quando lhe informam sobre novas proposituras de seu nome ao Nobel da Paz, resmunga algo como "mas, estão todos loucos?".

Esta semana ele de novo brindou o povo com uma de suas falas espontâneas, que acabam reverberando pelo mundo. Ao se despedir da brava seleção celeste, no amistoso contra a Eslovênia, disse aos jogadores: "Não vamos para uma guerra, embora saibamos como é difícil (o torneio). Vamos para uma festa mundial, no Brasil. E estaremos com vocês". Em seguida entregou a bandeira uruguaia ao capitão do time, Diego Lugano, sussurrando-lhe alguma coisa no ouvido. O jogador caiu na risada. Depois se descobriu o teor do cochicho. Sabem o que Mujica disse a Diego? "Estamos en las ultimas los dos, eh...".

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