Joseph Beuys/Autvis/Divulgação
Joseph Beuys/Autvis/Divulgação

Política, ecologia e diálogo, por Beuys

Sesc e Videobrasil promovem retrospectiva do artista alemão

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2010 | 00h00

Era um slogan pacífico e político - "A Revolução Somos Nós" - o que o artista alemão Joseph Beuys (1921-1986) criou em 1971 para o cartaz de sua primeira exposição em Nápoles, na Itália. "Tinha uma ideia romântica e ele o escreveu em italiano", diz Antonio d"Avossa, professor de história da arte contemporânea na Academia di Brera, em Milão, e especialista na obra de Beuys, considerado um criador conceitual cuja produção é referência inegável para tantos artistas de hoje. A frase de ordem do alemão é agora resgatada, trazida como título da mostra que será inaugurada hoje para convidados e a partir de amanhã para o público no Sesc Pompeia e reúne obras criadas por Beuys entre 1964 e 1986.

Em 1979, o artista participou da 15.ª Bienal de São Paulo com o trabalho Brazilian Fond, instalação que vinha acompanhada, como ele fazia questão, do texto (em português) Conclamação para Uma Alternativa Global, em que o tema principal era a "não violência" (um exemplar pode ser visto no Sesc Pompeia). Em 2000, o Museu de Arte Contemporânea da USP fez no Centro Cultural Fiesp a exposição Os Múltiplos Beuys e neste momento a atual retrospectiva do artista, realização do Sesc São Paulo e Associação Cultural Videobrasil, vem contribuir para que o público brasileiro possa adentrar nas ideias e conceitos desse criador que, na verdade, mais se ouve falar do que propriamente se vê no País.

"A premissa de fazer a exposição era informar e compreender a dimensão histórica e contemporânea de Beuys", diz Solange Farkas, criadora e diretora do Videobrasil, evento que a partir de 2011 terá como título principal Festival Internacional de Arte Contemporânea, ampliando, assim, seus braços para além da mídia estritamente audiovisual (mas este já é um movimento que vem se desenhando nos últimos anos). Sendo assim, a mostra Joseph Beuys - A Revolução Somos Nós, com 260 obras, apresenta não apenas 20 vídeos, mas cartazes e múltiplos criados pelo artista.

Transformador. A primeira ideia, segundo Solange Farkas, era a de o Videobrasil realizar ampla mostra sobre o provocativo grupo Fluxus, criado em 1961, em Wiesbaden, na Alemanha, durante o Festival Internacional de Música, sob a liderança de George Maciunas (do qual Beuys participou). Mas o projeto tomou outro rumo e se transformou na exposição de Beuys que, depois de ser apresentada em São Paulo, seguirá para o Museu de Arte Moderna da Bahia.

Foi Solange quem convidou o italiano Antonio D"Avossa para conceber a mostra com o sentido de explorar o veio político da obra do alemão e fazendo sintonia com o mote da 29.ª Bienal de São Paulo, que será aberta dia 25.

"A partir da segunda metade dos anos 1960, Beuys tem um interesse capital: superar o conceito tradicional de arte", afirma D"Avossa. O artista que criava obras com feltro e gordura; que realizou, em 1974, a performance Eu Amo a América e a América me Ama, em que ficou envolvido em estofo de lã em uma sala com um coiote durante cinco dias; foi professor (fundou a Universidade Livre Internacional) e um pioneiro do movimento ambientalista (em 1982 concebeu para a Documenta de Kassel a obra 7000 Carvalhos, que será lembrada em performance na sexta-feira no Sesc).

Todos os ensejos genuínos de Beuys estão na mostra - com obras de três coleções particulares, dentre elas, principalmente, a do empresário italiano Luigi Bonotto - mesmo que por meio de cartazes, fotos e múltiplos ("forma de democratizar a arte"). "Para ele, grandes instalações e pôsteres tinham o mesmo peso", diz o curador, emendando que para o artista muitos poderiam ser os meios para se dizer que "ninguém pode avançar sozinho".

QUEM É

JOSEPH BEUYS

ARTISTA PLÁSTICO

"A arte me levou ao conceito de uma escultura que começa na palavra e no pensamento", já afirmou o alemão, que nasceu em 12 de maio de 1921, em Krefeld, e morreu em 23 de janeiro de 1986,

em Düsseldorf (onde se formou). Provocativo, político e conceitual, Beuys fez obras que tinham como materiais emblemáticos gordura e feltro e realizou performances.

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