Política e seus equívocos

O poder, por definição, se personifica. É da política que o líder seja responsabilizado pelos bons e maus momentos, e que eles sejam associados a seus atributos pessoais. Desde Creonte, que pagou preço alto por supor que estava acima de vontades privadas - como o desejo de Antígona de enterrar seu irmão, Polinice - e por se dizer representante de uma coletividade como se esta não fosse composta de individualidades, sabemos que não há governo sem um rosto. É por isso que Lula é visto como um presidente bem-sucedido, por mais defeitos que parecia ter antes de assumir, ou que a popularidade de Obama é manchada por um crime ambiental cometido por uma indústria inglesa. Na chamada Era da Informação, essa percepção deveria ser refinada, ao menos um pouco, e a opinião pública deveria pesar melhor os fatores relativos. Mas a moderna cultura da fama só fez prolongar a confusão entre homens e cargos.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2010 | 00h00

Não pense que isso seja exclusivo de regimes presidencialistas ou republicanos. Veja as trocas constantes de primeiros-ministros em países como Inglaterra e Japão, cujas famílias reais já catalisam tanto as atenções sobre as vidas particulares dos donos do poder, e o pastelão em torno de Berlusconi e seus hábitos na Itália. Há um aspecto saudável em tudo isso: observando o poder por seus representantes, ele deixa de ser um ente abstrato e assim se presta à crítica e à sátira. (No caso dos ditadores, o que existe é um hiato arbitrário, pois nada é mais ridículo do que um Hitler, Stalin ou Mussolini para quem não está sob seu jugo ou para quem os vê depois do fim.) E de fato os governantes ainda são sujeitos em condições de tomar decisões que afetam grande número de pessoas, para o bem ou o mal. Há, porém, um aspecto nada saudável: a falta de compreensão desses mecanismos políticos.

O sociólogo francês Jacques Ellul chamou isso de "ilusão política", ou seja, a ilusão de que escolhemos nossos governantes por critérios claros e de que eles farão o possível dentro das diretrizes que lhes damos. Tal pressuposto, digo eu, é cheio de equívocos. O primeiro é o de que uma sociedade produz candidatos à sua altura; se não são bons, é porque ela ainda não os merece. Ouço de vez em quando elogios ao fato de que o Brasil dispõe em 2010 de opções como Dilma, Serra e Marina, que afinal não são nem oligarcas retrógrados nem pessoas despreparadas. Mas os três têm uma visão datada da economia atual e das demandas brasileiras atuais, tanto é que se limitam a uma agenda vaga, como a promessa de melhorar a infraestrutura, ou a uma agenda específica, como o ambientalismo. Assim como na seleção de Dunga, trata-se de uma repaginação, não de uma renovação. Onde estão os bons políticos jovens?

O segundo equívoco é a crença de que os critérios são claros, de que os votos são dados racionalmente. A grande maioria dos brasileiros diz que aprova Lula, mas na verdade aprova o bom momento da economia - baixo desemprego, baixa inflação, crédito maior - e, por extensão, põe em segundo plano o mau momento da política, porque a sucessão de escândalos com o dinheiro público só confirma a noção de que todos são corruptos há séculos e, logo, não é este ou aquele que vai mudar isso em alguns anos. Como Dilma e Serra parecem oferecer mais do mesmo, os motivos tendem a se tornar ainda mais inconscientes. Credibilidade e simplicidade angariam mais votos que qualquer projeto. Assim tem sido a história da humanidade: aos períodos utópicos, em que ideias mirabolantes comovem as massas, seguem-se os tempos cínicos, em que o bom líder é aquele que não deixa faltar feijão no meu prato.

Mais complexo no Brasil é o terceiro equívoco, o de achar que mantemos os políticos sob nosso comando depois que são eleitos. A imprensa apura o que pode, ainda que na maioria das vezes o que chama de "furo" é apenas a declaração bombástica de algum poderoso contrariado (como Pedro Collor e Roberto Jefferson), e as entidades como Polícia Federal e Ministério Público tentam cercear as autoridades, embora submetidas demais aos interesses de outras autoridades (basta ver a impunidade de Delúbios, Waldomiros e tantos mais). Para a maioria dos cidadãos, o trato com as instâncias oficiais é sinônimo de desagrado: fiscais movidos a propinas, policiais metidos em máfias, serviços de péssima qualidade, sindicatos cooptados por verbas. A sociedade obriga a votar, mas tem poucas instituições livres que possam controlar os eleitos, que muitas vezes compram votos em troca de algumas telhas. É por isso que em alguns países desenvolvidos, onde as instituições são fortes, pode haver trocas em altas funções sem que abalem tudo.

A economia vai muito bem, até aquecida demais neste primeiro semestre, e isso por mérito da sociedade como um todo, em primeiro lugar, por méritos de governos anteriores, em segundo, e por méritos deste governo, em terceiro. Há, porém, muito mais fatores que não dependem de méritos coletivos ou individuais: a conjuntura internacional tem favorecido, sim, principalmente para vender commodities. E nunca é demais lembrar que não foi apenas o Brasil que acabou com a inflação e fez privatizações nos anos 90. É verdade que a depender do PT esses avanços não teriam se consumado, a tal ponto que Lula se viu obrigado a mudar de rumo; mas não foi nenhuma genialidade tucana que os concebeu. O mundo soprava naquela direção.

O crescimento econômico conta votos para as autoridades correntes, mas não elimina os problemas pela mera inércia. Nesta semana, por exemplo, o "impostômetro" em São Paulo indicou que o governo já arrecadou R$ 200 bilhões neste ano; ou seja, só a partir daqui trabalharemos para nós mesmos, e não para a máquina pública. Há uma clara demanda na sociedade para que a carga tributária seja reduzida, mas sai governo, entra governo e ela cresce mais veloz que o PIB. Para dar exemplo fora da economia, o que dizer do acordo de Lula com o ditador Mahmoud Ahmadinejad, essa sim uma mancha em qualquer currículo antidireitista? A maioria dos brasileiros é contra, mas isso não faz a menor diferença. O povo só é consultado na hora de votar no "mal menor".

Nessa perspectiva, o bom político fica sendo o malandro, aquele que leva elogios pelo que não fez e fica ileso aos ataques pelo que fez. Mas a democracia é o menos ruim dos sistemas porque pode ser aprimorada; e aprimorá-la hoje, com todos os meios de informação e tecnologia disponíveis, implica continuar reduzindo a ignorância dos cidadãos e ampliando a transparência da máquina. Autoridades não podem ser vistas como celebridades; são pessoas falíveis e devem ser cobradas pelas falhas que cometem no exercício de poder. E isso não se faz apenas com votos.

Rodapé. O relançamento do livro-reportagem de Antonio Callado, Esqueleto na Lagoa Verde, de 1953, pode servir de contraponto ao que hoje no Brasil se tem confundido demais como "jornalismo literário". Este não se resume a contar historinhas curiosas, com lides engraçadinhos ou recheados de dados inúteis, nem se parece com crônica ou memorialismo. Agora qualquer repórter piauiense que descreva um gesto trivial do entrevistado, ou conte que levou 47 passos até a casa dele, acha que está fazendo "jornalismo literário"... O livro de Callado nem tem um fio narrativo bem traçado ou dois fios bem amarrados, já que conta a viagem de Percy Fawcett pela cidade perdida na Amazônia e sua própria viagem, quando esteve no Xingu pela primeira vez, quinze anos antes de escrever seu grande romance Quarup. Mas Callado não tem medo de mesclar análise e opinião à descrição e tem um estilo próprio, que dispensa truques afetados como trocar "canto do galo" por "sinfonia galiforme". Veja:

"Os índios, nus em pelo, passavam pelos longos floretes do capim-navalha como se passassem entre plumas, mas nossas botas e nossas camisas haviam guardado lanhos que chegavam às vezes a cortar a carne. Eles se agachavam quando a vegetação fechava-se colérica em cipós e taquaras finas, e passavam como uma enguia por um buraco de rocha sob o mar, mas nós tínhamos o chapéu desabado arrancado da cabeça e os lados do corpo arranhados. Quando saíamos desses cerrados, os varjões de areia, descampados, não ofereciam grande consolo, pois o sol inclemente descia do céu em flechas de fogo."

Lágrimas. Muitas mortes a lamentar durante minhas férias: Kazuo Ohno, o coreógrafo do butô, que influenciou vanguardas europeias nos anos 60; outra vanguardista, Louise Bourgeois, que misturou dadaísmo e feminismo; Martin Gardner, que demoliu uma série de crendices como paranormalidade e discos voadores no livro O Umbigo de Adão; e Dennis Hopper, o ator e diretor, que fez Easy Rider, roubou a cena em Veludo Azul, foi o pai bêbado de Mickey Rourke em O Selvagem da Motocicleta e também participou do lendário Apocalipse Now.

Por que não me ufano. Estive quatro dias no Chile, pesquisando e passeando, e sei que muita gente gosta de citá-lo como exemplo de país moderno na América Latina por ter uma economia aberta (mais de 60% do PIB vem do comércio internacional), um Estado enxuto (apenas 20% de carga tributária) e, olha só, muito menos desigualdade social que os vizinhos. Só não se pode achar que um país pequeno, com 16 milhões de habitantes, possa ser modelo para o Brasil. De qualquer modo, é muito mais sério e justo, em média, e cada vez mais recebe empresas e turistas brasileiros, que se deliciam com seus vinhos e ceviches, esquiam ou vão à Patagônia ou ao Atacama.

Aforismo sem juízo

A razão é um luxo de primeira necessidade.

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