Política e Literatura dominam debates na Flip

Ex-militante de extrema esquerda durante as barricadas de Paris, em 1968, Olivier Rolin tem bons motivos para desconfiar que, sem a ficção, é impossível entender o significado da história, o que o levou a relatar sua experiência não como historiador, mas ficcionista, em ?Tigre de Papel?. Nesta sexta-feira, ao participar com o brasileiro Luiz Antonio de Assis Brasil e do peruano Alonso Cueto de uma mesa sobre o tema ?Prosa, Política e História?, na 4.ª Festa Literária Internacional de Paraty, Rolin, a exemplo de seus interlocutores, voltou a destacar o papel da narrativa ficcional como uma invenção capaz de dar conta da ambigüidade de nossa experiência existencial. Cueto foi além: lembrou que Ricardo III pode não ter sido tão mau quanto Shakespeare o descreveu em sua peça, mas talvez não se soubesse tanto sobre sua época se o bardo não tivesse cometido exageros que historiadores certamente repudiariam.Isso explica, em parte, o cruzamento híbrido entre ficção e realidade, que resultou no advento do ?new journalism? de Lillian Ross, Truman Capote e Tom Wolfe. Para explicar esse fenômeno, em que histórias pessoais se cruzam com histórias de uma região ou mesmo de uma nação, Rolin recorreu a uma célebre frase do poeta conterrâneo Paul Valéry: ?Os homens não podem viver sua vida se não puderem viver a dos outros?. O dever moral de um escritor, portanto, segundo o escritor francês, ?é o de falar de seu tempo, para que essa experiência humana não se perca?.Discursos engajadosAssim como Rolin, o escritor paquistanês Tariq Ali, que fez nesta sexta-feira quase um discurso sobre engajamento e imperialismo em sua palestra na Flip, defende autores que buscam, por meio da literatura, revelar aos leitores mais que uma visão subjetiva do mundo. Tariq Ali citou particularmente o caso do escritor norte-americano Corman McCarthy, que, em seu livro ?Blood Meridian?, usa um juiz como metáfora de um ser superior (um jornalista, talvez?) que tenta explicar o mundo segundo a teoria darwinista da evolução das espécies ou da filosofia de Nietzsche. Para McCarthy, nós não descobrimos nenhuma verdade; apenas ?narramos? o mundo. É o que o autor paquistanês diz que faz.Em sua palestra, ele criticou duramente a invasão do Líbano por Israel e conclamou os presentes a não aceitar que o mundo seja dominado por uma só ideologia ?imperialista?, referindo-se explicitamente ao império americano. Culturas, diz, morrem por causa da hegemonia de uma língua (o inglês, no caso). Ele defende que os editores sejam mais responsáveis e traduzam autores de regiões do globo esquecidas pelo mercado editorial. ?Mesmo Corman McCarthy não é tão lido como deveria?, disse, lembrando que há um muro que o separa dos leitores por não fazer concessões literárias.Ainda hoje, os jornalistas Philip Gourevitch e Lillian Ross, falando, em seu encontro na Flip, sobre a edição de textos literários em veículos da grande mídia, lembraram o caso de Ernest Hemingway como sinônimo de um grande escritor que era também um repórter de igual talento. ?Essas duas qualidades não estão separadas?, observou. ?Um bom jornalista, de modo geral, também é um bom escritor?.

Agencia Estado,

11 de agosto de 2006 | 20h32

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