Marlon Krieger/Divulgação
Marlon Krieger/Divulgação

Política e corpo se encontram

Espetáculo de NY, Os Órfãos combina teatro físico e discussão ideológica

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2011 | 00h00

O futuro já chegou. Ao menos é essa a crença que move Karina Casiano, intérprete e criadora do espetáculo Os Órfãos. Na montagem, que estreou em Nova York no mítico teatro La Mama, todas as ações transcorrem no ano de 2020. Um tempo em que teremos que pagar impostos por tudo, até pelo ar. A água será escassa. E o povo, cansado de tantas formas de dominação, vai se unir e se rebelar.

"Não estou falando de ficção científica. Quando escrevi a obra, há cerca de dois anos, tudo isso soava um pouco romântico, com uma ideia quase nostálgica de como deveria ser a mobilização das pessoas para mudar seus destinos", diz Karina, que se apresenta, hoje e amanhã, no Sesc Belenzinho. "Mas, em 2011, vimos em todo o mundo, e sobretudo no mundo árabe, o surgimento de uma nova etapa. As pessoas estão tomando decisões como coletivo."

Ao opor indivíduo e sociedade, a atriz, diretora e dramaturga construiu o mecanismo que serve de esteio à trama de Os Órfãos. Nesse futuro não muito distante - pouco mais de nove anos à nossa frente - acompanha-se a história do estranho amor que surge entre um revolucionário e uma agente secreta.

Ele é um representante farmacêutico que, após ser demitido, resolve se unir a um grupo de revoltosos. A intenção é desestabilizar o sistema. Para tanto, sua única forma de contato com os subversivos é uma mulher, que passa dias e noites em uma cabine telefônica. A partir de dado momento, porém, ambos se apaixonam. Será a hora de escolher entre seus desejos pessoais e suas convicções ideológicas.

"Coloco os personagens em uma situação-limite. Porque estamos em um momento em que todos precisamos tomar essa decisão. Mudar nossa maneira de ser, nossa maneira de olhar o mundo. Se não o fizermos agora, em breve teremos que tomar decisões de vida ou morte no meio de uma guerra", acredita a atriz.

Tintas tão carregadas no caráter político da obra não a tornam menos atenta às formas contemporâneas do teatro. Nem tudo o que vai à cena precisa ser dito. Ou não precisa ser somente dito. Durante a temporada em Nova York, Os Órfãos chamou atenção especialmente pela expressividade de seu trabalho físico. Não por acaso, figura entre os indicados para o NYIT (New York Innovative Theater Award) na categoria de melhor coreografia.

Uma movimentação peculiar marca a peça. O corpo de Karina se contorce de todas as formas dentro da cabine telefônica. Seu companheiro de palco, o ator Renzo Ampuero também flerta com a acrobacia. Nesse contexto, cada encontro dos dois intérpretes adquire contornos de um visceral pas-de-deux.

"Durante todo o espetáculo, para além do que os personagens dizem verbalmente, os corpos também estão contando uma história", comenta Karina. "Tudo vem junto, o discurso e o corpo. Eu nunca os separo."

Nos Estados Unidos, onde existe um especial apego da crítica a categorias, essa mescla costuma soar bastante inusual. "Me perguntam sempre se sou bailarina ou atriz", relata ela.

O aparente exotismo que os americanos enxergam na criação se alimenta ainda do fato de Karina ser porto-riquenha. Além de atuar no cinema e na televisão, em seriados como Law and Order, a intérprete também tornou-se uma das representantes da cena latina da cidade.

À frente da cia. La Criatura Theater - na qual desempenha várias funções -, Karina costuma cerca-se de outros artistas da América Latina. Caso do ator Renzo Ampuero, que é peruano.

"Existe uma predileção, até mesmo dos fundos de recursos, por um teatro que celebre a nossa condição de latinos, que crie uma boa imagem", observa a criadora. "Mas o importante agora não é isso. É fazer algo que represente verdadeiramente a qualidade do teatro latino, um teatro com propostas políticas e estéticas muito importantes."

OS ORFÃOS

Sesc Belenzinho. R. Padre Adelino, 1.000, tel. 2076-9700. 5ª e 6ª, às 21h30. R$ 6 a R$ 24 (sáb., às 17h, workshop - R$ 3/ R$ 12).

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