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Lúcia Guimarães
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Política do ressentimento

“Colocaram o colete suicida e ele vai puxar o cordão.” O comentário, num telejornal, não se referia a um grupo terrorista como o Estado Islâmico. Um veterano da campanha republicana de 2012 falava assim de seu próprio partido e de Donald Trump. Em que pese a dramaticidade da imagem, tem vindo, com atraso, de republicanos, a admissão de paternidade da criatura.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2016 | 06h00

Há três décadas, políticos conservadores norte-americanos telegrafam aos eleitores mensagens de medo e sedição. A cara do crime é um homem negro, como nos anúncios criados pelo marqueteiro de George Bush, pai. O imigrante tomou seu emprego (mas vai continuar lavando pratos escondido no meu clube de golfe). O governo é o inimigo, quer invadir sua privacidade, tomar sua arma (e aproveito para reduzir mais ainda os impostos sobre ganhos de capital). Quando a Suprema Corte toma uma decisão que não agrada, a sugestão é simplesmente anular seu voto, a democracia deve ser customizada. Paralisar o governo, como defende Ted Cruz, substitui qualquer negociação com o presidente em exercício. O extremismo de racistas e a ignorância obscurantista passaram a ser bem-vindos ao guarda-chuva conservador. Republicanos e democratas sempre criaram seus espantalhos na oposição, mas nada, na memória recente, se compara à demonização histérica de Barack Obama, do momento em que ele pisou na Casa Branca. Em seu último ano de governo, não é desprezível a parcela da população que ainda acredita que Obama nasceu no Quênia ou é muçulmano.

Donald Trump é o porta-voz sem filtro da mensagem já conhecida do eleitor. A política do ressentimento criou o Tea Party e é a grande locomotiva da campanha de 2016. Explica também a arrancada de Bernie Sanders, com a diferença de que o democrata de Vermont, além do contraste de caráter, oferece esperança na forma de políticas sociais cujo financiamento continua envolvido em mistério.

Ressentimento e ansiedade definiram a eleição primária de Michigan, na terça-feira passada, onde a derrota de Hillary Clinton para Sanders foi vastamente subestimada nas pesquisas e o esperado favoritismo de Trump se confirmou. Outro fato demográfico liga os dois outrora azarões: ambos atraem homens brancos descontentes.

A explosão de raiva que faz tantos eleitores abominarem o político profissional e o establishment de Washington não foi manufaturada por democratas ou republicanos. Ela tem origem na estagnação da renda da classe média e classe média baixa e no desaparecimento de empregos com a globalização. O crash de 2008 foi um divisor de águas e acirrou o separatismo de classes – o governo resgatou os especuladores de Wall Street que causaram o crash, resgatou a indústria de automóveis mas o crédito secou, milhões perderam empregos e suas casas. A recuperação veio, mas a qualidade e o nível de emprego não restauram a confiança dos que vivem na metade inferior da pirâmide social.

Mas indignação não é o mesmo que ressentimento, apenas terreno fértil para perigosos populistas demagogos como Trump. Seus comícios se tornaram oportunidades para lembrar a campanha do racista ex-governador George Wallace, do Alabama, nos anos 1960. O clima é de panela de pressão, com manifestantes espancados por supremacistas brancos. O próprio Trump incita violência. Agentes do Serviço Secreto tiveram que pular no palco e cercar Trump, no sábado, quando um homem se aproximou dele. O risco de uma tragédia está no radar de observadores.

Por qualquer critério, seja como empresário ou pelas mentiras que conta na campanha, Donald Trump é um vigarista. Mas a mídia o tratou como uma celebridade e abriu para ele um espaço desproporcional ao concedido a outros pré-candidatos. Afinal, ele atrai audiência e cliques. Ressentimento dá lucro, como bem sabe um demagogo brasileiro adepto da tática de dividir para conquistar.

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