Política cultural do governo prejudica festivais

A dificuldade enfrentada pelos organizadores do Festival Internacional de Londrina (Filo) para arrecadar recursos para a edição deste ano comprova a ausência de uma política cultural no País. Caso houvesse uma definição clara do que deve ser priorizado na atividade cultural, festivais de artes cênicas que já mostraram capacidade curatorial, de organização, de permanência e inserção social - com 33 anos de existência, o Filo é um deles - teriam uma dotação orçamentária garantida. No entanto, a cada ano, os mais sólidos e importantes festivais de artes cênicas de País, como o Filo (Londrina), o FIT (Belo Horizonte), o Porto Alegre em Cena e os festivais nacionais de Curitiba e Recife, são obrigados a partir praticamente do zero na busca de apoio financeiro. A exigüidade de recursos para a cultura não deveria servir como argumento para justificar a ausência de verbas para os festivais - como costuma ocorrer -, porém deveria estimular melhor planejamento na distribuição. Sem isso, privilegia-se eventos, em detrimento de atividades contínuas e de maior interferência nas comunidades. O governo gastou R$ 3,5 milhões na réplica da Nau Capitânia para a comemoração do descobrimento e R$ 18 milhões no stand brasileiro da Expo 2000 em Hannover. Se o primeiro evento se revelou um equívoco, o segundo mereceu a defesa acalorada do presidente Fernando Henrique: "É muito importante para o Brasil marcar presença no cenário internacional". A Expo provou que, se um evento é considerado importante, são eliminados todos os entraves burocráticos - até licitações - para liberar recursos. Qual o grau de importância de um festival de teatro para os mandatários deste País? Orçado em R$ 2,5 milhões, o Filo conseguiu do governo federal a quantia de R$ 140 mil. "Nitis Jacon foi muito ambiciosa; anunciou uma programação de fôlego e depois não foi capaz de captar recursos na iniciativa privada", alegou o secretário federal de artes cênicas e música Joatan Vilela Berbel. "Muitos apoiadores das edições anteriores, este ano, investiram em eventos comemorativos dos 500 anos", lamenta a diretora Nitis Jacon. Não é segredo que empresas pautam seus investimentos pelo conceito de "visibilidade", preferindo associar sua logomarca ao já consagrado e marcar "presença" em eventos de grande repercursão de mídia, de preferência televisiva. E quem pode exigir que seja diferente? Afinal, por meio das leis de incentivo o governo delegou aos diretores de Marketing das empresas a decisão sobre como investir os recursos da isenção de impostos - dinheiro público, é bom não esquecer.

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