Poliformismo editorial

O ritual progressivamente jurássico de abrir a porta de manhã cedo para recolher os jornais foi sacudido pela imagem na primeira página do Wall Street Journal. A foto antiga, meio lavada e em preto e branco, cumpria o clichê à risca. Para Rupert Murdoch, uma foto vale mais do que mil palavras de linchamento editorial.

, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2010 | 00h00

Lá estava Elena Kagan, a advogada escolhida por Barack Obama para a próxima vaga na Suprema Corte Americana, segurando um bastão, pronta para receber a bola num jogo de softball. A foto escolhida, no dia seguinte ao anúncio do nome de Kagan, faria o trabalho editorial sem tecnicamente sujar as mãos. E deixaria para a caixa de ressonância frenética do mundo online a tarefa de sair correndo com a bola podre do magnata, isto é, espalhar para o planeta o rumor de que a nomeada para a instância máxima da democracia americana é lésbica.

Elena Kagan, de 50 anos, solteira e uma das advogadas mais brilhantes de sua geração, aparece em inúmeras fotos como atual procuradora-geral do governo Obama. E em outras tantas, nos anos como diretora da Escola de Direito da Universidade de Harvard que ela ajudou a reerguer depois de um período notório de declínio.

Imagine se os New York Knicks contratarem o astro LeBron James no mês que vem. Vai ser uma notícia digna de manchete. No dia seguinte, o Wall Street Journal escolheria uma foto antiga e lavada de LeBron cercado de meninas, fazendo a Primeira Comunhão, na pequena escola que frequentou em Ohio? Claro que não.

O próprio tabloide nova-iorquino de Murdoch, o New York Post, manteve a bola no ar com uma "reportagem" sobre a foto no Wall Street Journal. A manchete, em letras garrafais: "Esta foto sugere que a indicada para a alta corte é lésbica?" Na página ao lado, num "depoimento", uma jornalista relatava seus anos como uma rara hetero num time de softball. E, para completar, os programas da rede Fox, de Murdoch, "repercutiram" a controvérsia.

Embora Rupert Murdoch tenha feito sua fortuna em jornalismo apostando no mais baixo denominador comum, ele se aproxima dos 80 anos e, para tomar emprestado a linguagem vulgar usada em seus tabloides, é difícil ensinar truques novos a cachorros velhos. Se seus capatazes tinham qualquer expectativa de ser levados a sério, não houve escassez de comediantes para satirizar a iniciativa de sabotar a indicação de Kagan com a tática de alertar conservadores sobre uma possível agenda gay no Judiciário.

O governo Obama, no comando do mais bem equipado aparato de mídia e relações públicas da história americana, contribuiu para baixar o nível da conversa antes mesmo do empurrão previsível de Murdoch. Diante do rumor gay espalhado em abril por um blogueiro republicano empregado pela rede CBS, a Casa Branca declarou que Elena Kagan não é lésbica. Faltou coragem para dizer, simplesmente não vamos chafurdar na lama da invasão de privacidade.

O mais visível homossexual da blogosfera, Andrew Sullivan, deu sua contribuição lamentável. "Perguntar a Kagan se ela é lésbica é o mesmo que perguntar se ela é judia." Sullivan levou uma pela lição de civismo do jornalista William Saletan na Slate. Pressionar um indicado para a Corte sobre sua religião ou preferência sexual, argumentou Saletan, "é um retrato do quanto o nosso país se tornou grotesco na exposição da vida pessoal de figuras públicas".

E nesse teatro do grotesco, há muito mais que a sugestão de que uma lésbica vai interpretar a Constituição americana de maneira diferente do que se fosse heterossexual.

Colegas de Elena Kagan vieram a público para dizer que ela chegou a namorar rapazes nos tempos de escola. O velho amigo e colega Eliot Spitzer que, como ex-governador de Nova York e ex-Cliente Número 9 de uma rede de prostituição, não é exatamente a testemunha ideal de sexualidade, fez questão de desmentir o suposto lesbianismo de Kagan.

Quando Obama indicou a ex-governadora do Arizona Janet Napolitano para secretária de Segurança Doméstica, Ed Rendell, o governador da Pensilvânia, sem perceber que estava com um microfone aberto, elogiou a escolha de uma mulher sem marido nem família e, portanto, capaz de se dedicar ao posto como um homem. Teve de pedir desculpas, mas apenas por ter dito em público o que a maioria pensa.

Kagan e Napolitano têm em comum, além do intelecto, o fato de serem de meia-idade, solteiras, feiosas e gordinhas. E, pior, cometeram o pecado de investir em carreiras públicas, quando poderiam ter enriquecido no setor privado. Há algo errado com elas.

Ninguém atormentou o juiz cuja vaga foi ocupada por Sonia Sotomayor. David Souter, que passou quase 20 anos de aparente celibato na Suprema Corte, chegou a ser votado um dos solteiros mais cobiçados de Washington. Souter exala tanta sexualidade quanto o abajur que ilumina meu computador.

O mesmo macarthismo sexual que cobrou de Hillary Clinton uma atitude pública sobre o comportamento privado de seu marido cobra de Elena Kagan uma declaração pública sobre o que ela faz no quarto e com quem.

A diferença, agora, é que não há mais fronteiras de decoro editorial.

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