Policarpo, o nacionalista

Policarpo, o nacionalista

Antunes Filho, aos 80, estreia peça baseada em Lima Barreto

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

As garras continuam afiadas mas a fera anda mais mansa - aos 80 anos, Antunes Filho mantém-se firme como um encenador teatral preocupado em traduzir no palco as inquietações despertadas pela atualidade. "Mas estou menos raivoso, sorrio mais, não compro tanta briga", conta ele, olhos comprimidos, dentes à mostra. "Continuo, no entanto, um homem revoltado." E essa insatisfação ganha contornos agora na peça Policarpo Quaresma, sua 21.ª direção, que estreia hoje no Teatro Anchieta do Sesc Consolação.

Inspirado no livro O Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (1881-1922), o espetáculo fecha a trilogia que Antunes dedicou às obras com personagens que viveram, ao menos durante algum tempo, no Rio de Janeiro - as demais são A Falecida Vapt-Vupt, do texto de Nelson Rodrigues, e o musical Lamartine Babo, escrito pelo próprio Antunes. "Eu me inspirei nas madrugadas cariocas que passei ao lado de artistas como Clarice Lispector, Paulo Pontes, Vianinha", relembra. Mas, além do sentimentalismo da memória, Antunes fixou-se em personagens da literatura brasileira que considera capitais para o entendimento da sociedade atual.

Policarpo Quaresma é um exemplo. Nacionalista ao extremo, ele contesta a República recém declarada (o livro foi publicado em 1915) a ponto de defender o tupi guarani como ideal para ser a língua oficial do Brasil. À época, Lima Barreto foi duramente criticado por utilizar uma linguagem mais coloquial em vez do português castiço, sinônimo de cultura. "Como em praticamente toda sua obra, Lima expunha os próprios problemas na pele de seus personagens", comenta Antunes, lembrando que a defesa extremada dos valores nacionais tornou fez que o livro interessasse ao regime militar. "Durante os anos 1970, as escolas distribuíam a obra como exemplo de exaltação à Pátria. Era uma ação positivista e, novamente, não havia nenhum entendimento do teor da trama."

Como o texto de Lima Barreto é praticamente descritivo, Antunes decidiu transformar tudo em diálogos, consumindo seis meses de trabalho - começou em 2008. Para isso, foi necessário criar personagens - "curingões", como chama. "Abusei da liberdade, pois, se ficasse preso às teorias teatrais, estaria morto."

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