Policarpo em cinco olhares

O mais recente espetáculo do encenador Antunes Filho, de 80 anos, visto por especialistas

Dib Carneiro Neto, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2010 | 00h00

Síntese de uma trajetória retumbante. Exemplo do vigor criativo de um encenador em plenos 80 anos de vida. Lição de bom teatro que se alia a múltiplas linguagens artísticas. Soco na boca do estômago do público interessado em entender o Brasil de ontem para discutir o país de hoje.

Assim surge Policarpo Quaresma, de Antunes Filho. Com sessões que andam lotando o Sesc Consolação e aplausos em cena aberta, o espetáculo enobrece os palcos paulistanos com momentos de genialidade. "O teatro faz justiça a Lima Barreto (autor do livro Triste Fim de Policarpo Quaresma)", escreve Jefferson Del Rios. "Uma encenação que engrandece o desejo", opina Mariangela Alves de Lima. "Há algo de diferente no sólido percurso do diretor", comenta a crítica de dança Helena Katz, encantada com os cortejos. "Antunes está mais viscontiano do que nunca", compara o crítico de cinema Luiz Carlos Merten. E um crítico convidado, o ator e diretor César Augusto, arremata: "Bom para o teatro, bom para o cidadão."

POLICARPO QUARESMA

Sesc Consolação. Teatro (320 lugares). Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. 6ª e sáb., 21h; dom., 19h. R$ 20. Até 6/6.

Crítica: Luiz Carlos Merten

COM O MÍNIMO, ANTUNES CHEGA AO MÁXIMO

Podem-se buscar, e não será muito difícil encontrá-las, as referências cinematográficas na deslumbrante adaptação que Antunes Filho faz de O Triste Fim de Policarpo Quaresma para o teatro. Dos irmãos Marx a lampejos de Luchino Visconti, Joaquim Pedro de Andrade e Federico Fellini, tudo está lá no palco do Sesc Anchieta, mas é bom não perder de vista a essência da montagem e ela é essencialmente teatral. O grande diretor Gabriel Villela, embora apaixonado por cinema, gosta de brincar, dizendo que o problema do cinema é a eletricidade. Basta tirar da tomada e não existe mais filme. O teatro independe disso. Pode ser encenado à luz de velas, nas ruas. Tem luz própria.

Antunes Filho sabe disso - e o mais extraordinário na criação dos coros, que é sua marca (a maneira de deslocar e imobilizar grupos de atores, a oposição entre o movimento individual e o coletivo etc.), é justamente a nudez que ele impõe ao seu palco. Não existe cenografia em Policarpo Quaresma. Ou melhor, existem adereços, objetos e o próprio corpo dos atores é que constrói a cena aos olhos do espectador. É quando Antunes é mais viscontiano. O mestre, numa fase de sua carreira, antes da descoberta da lente zoom, dirigia sua câmera basicamente para o corpo dos atores e fazia um cinema que chamava de "antropomórfico". Visconti era grande diretor de teatro, cinema e ópera e, embora não se possa dizer que Patrice Chéreau seja seu discípulo, essa qualidade, ou característica, ele herdou no mais fulgurante dos seus filmes, A Rainha Margot.

O livro cultuado de Lima Barreto já havia sido adaptado para o cinema por Paulo Thiago em 1998. Paulo José fazia o herói do Brasil, subtítulo aplicado a Policarpo Quaresma. Thiago é mineiro, como Joaquim Pedro, que também adaptou para a tela outro clássico da literatura, o Macunaíma de Mário de Andrade. Apesar das diferenças entre ambos, Macunaíma e Policarpo são heróis brasileiros devorados pelo Brasil. Antunes já havia feito o seu Macunaíma no palco. Surpreende agora que ele faça Lima Barreto dialogar com Mário de Andrade? Que o seu Policarpo, de alguma forma, seja a revisão de Macunaíma?

A crítica não foi para o papel nem para a internet, mas uma voz solitária reclamou de que a encenação de Policarpo Quaresma, o grande teatro de Antunes Filho, é coisa morta. Só pode ser brincadeira. Antunes, aos 80 anos, realmente debruça-se sobre si mesmo - e seu método -, mas não é para se (auto)plagiar. E a cena da saúva, as batidas ritmadas com o pé e, depois, o Hino Nacional, são coisas de gênio. Havia, desde o início, um grande desafio a encarar e era justamente a natureza da própria obra de Lima Barreto. Policarpo Quaresma é um livro muito descritivo. Carece de diálogos, ou pelo menos os reduz ao mínimo. Antunes e seu elenco tiveram de transformar descrições em diálogos/cantorias, ou então de sugerir cenicamente o não dito. Como se faz isso? Como se constrói uma dramaturgia que não seja só da palavra?

Policarpo Quaresma leva ao limite a arte da mise-en-scène. Com o mínimo, Antunes Filho alcança o máximo de resultado. Seus cortejos deslumbram os sentidos. Emocionam - nem o distanciamento crítico brechtiano significa que o espectador não deva se envolver nem se emocionar com o que se passa no palco. Toda essa pesquisa teatral se consolida nos atores. O elenco de Policarpo também é coral. Há um solo apenas, e é o do ator que faz o protagonista. Lee Thalor, que já havia feito Quaderna na Pedra do Reino de Antunes, não apenas corresponde como se supera. O mestre depurou seu discípulo. O criador e a criatura. Policarpo Quaresma não seria a mesma coisa, no palco, sem a potência criativa de Thalor.

Em A Pedra do Reino, Antunes já optara pelo palco nu, transformando-o numa representação da mente de Quaderna. Talvez seja o mistério, ou segredo, desse Antunes octogenário e talvez testamental que decifra os grandes textos definidores da cultura brasileira. O teatro de Nelson Rodrigues, a literatura de Ariano Suassuna, Mário de Andrade e Lima Barreto. Policarpo dialoga com Macunaíma e Quaderna. Este último sonha com um país em que o povo reina. Como Macunaíma, ele carrega um arquétipo, o do herói sem caráter, Quaderna encarna o herói do "nenhum esforço", que acredita na utopia e que nunca vai parar. Policarpo difere de ambos para terminar igual. Ele é um patriota exacerbado, acredita que a utopia se constrói com esforço. Sonha com o tupi-guarani como língua de todos os brasileiros e tem planos para salvar a agricultura nacional.

Vai parar no hospício, as saúvas destroem sua plantação e ele próprio é devorado por um mundo que o hostiliza porque ele insiste em mudá-lo, quando seria mais fácil permanecer imóvel, gozando de benefícios. É aí que Policarpo Quaresma transcende o evento que é, no palco, para propor uma discussão ou interpretação do que seja o Brasil (e o brasileiro). Antunes não é um celebrador de Dioníso. Faz grande teatro para pensar sua arte, o País (e o mundo). Policarpo é um espetáculo/síntese do autor e da própria cultura brasileira, que ele vem enriquecendo.

Crítica: Helena Katz

USO DO CORPO É O QUE CONSTRÓI A DRAMATURGIA

Lee Thalor sapateia nas formigas e no Hino Nacional. Eis a síntese mais precisa do que se vive por aqui desde a Proclamação da República. Cena genial do oportuno Manifesto Policarpo Quaresma que Antunes Filho e os preciosos atores do Grupo Macunaíma acabam de escrever com o seu teatro.

Curioso que, como já tinha sido em Macunaíma, em 1978, mas de outra maneira, é o corpo que opera uma mudança também agora. O marco que Macunaíma foi, ao inaugurar o Teatro Coreográfico de Antunes Filho, passa por uma refundação com Policarpo Quaresma, que acaba de estrear em São Paulo, no Sesc Consolação.

Com Macunaíma, a dramaturgia começou a se tornar coreográfica porque elegeu a espacialidade como mestre de cerimônia da encenação. As soluções nasciam dos jeitos de mudar o formato aparentemente dado como pronto da caixa preta. Nela, Antunes foi desenhando as trajetórias de seus coros-procissões-blocos de rua, e regendo suas produções com os ritmos que ia marcando para as entradas, durações e saídas de cada cena. Mas agora, nesta sua 21.ª montagem, há algo de diferente se insinuando no seu sólido percurso de contribuições.

Referências caras. O papel que coube ao espaço passou a ser de responsabilidade do corpo. Em Policarpo Quaresma, é o corpo que constrói a dramaturgia, que é mestiça de teatro de revista, das bufonerias, irmãos Marx, comédia de costumes, Kazuo Ohno, circo e Pina Bausch, dentre outras tantas referências igualmente caras a seu diretor.

Ele está no teatro desde 1948, quando, como ator, fez Adeus Mocidade com o grupo amador de Osmar Rodrigues Cruz. Passados quase 62 anos, nos quais foi refinando uma assinatura de profunda coerência, inicia uma nova década de vida (completou 80 anos em dezembro, nasceu em 12/12/1929), e aponta novamente para adiante, com esse outro corpo que começa a aparecer. Um corpo que não domina somente os deslocamentos e as trajetórias, como antes, mas que explora modos não verbais de falar, inventa jeitos de se fazer presente e, assim, vai fazendo a peça acontecer a partir dele.

Nesse corpo, os figurinos e objetos de Rosângela Ribeiro funcionam como um outro tipo de texto. Ampliam os dizeres dos corpos do elenco afiado e afinado. A cena dos loucos ao som da Barcarolle dos Contos de Hoffmann, de Jacques Offenbach, é um bom exemplo dessas texturas.

Preparação. Antunes dirigiu seu primeiro texto brasileiro em 1959 (Alô... 36-5499, de Abílio Pereira de Almeida), tendo Ademar Guerra como assistente e ainda com o Pequeno Teatro de Comédia que havia fundado no fim dos anos 50. Mas parece ter sido com o Sem Entrada, Sem Mais Nada, de Roberto Freire (1961), que a leitura política do entorno adentrou nos seus interesses, e se estende até este Policarpo Quaresma, no qual atualiza o que Lima Barreto (1881-1922) publicou em 1911, e também o Rio de Janeiro do fim do século 19 (1890) lá descrito. O que o livro conta em três momentos distintos, Antunes transformou em texto corrido - trabalho que ocupou quase dois anos de preparação e ensaios.

As contradições de um país em transição da monarquia para a República, e já corrupto, e já se fazendo à custa de violências, injustiças e arbitrariedades. A peça conta das contradições, ambiguidades e ambivalências que atravessam as duas viradas de século que nos separam desse tempo. Separam ou unem? Você tem somente até o dia 6 de junho para escolher. Esta é a data em que a temporada de Policarpo Quaresma se encerra.

QUEM É

ANTUNES FILHO

DIRETOR E DRAMATURGO

CV: Nascido em São Paulo, em 12 de dezembro de 1929, José Alves Antunes Filho é um dos mais premiados encenadores brasileiros. "O livro do Lima Barreto me desconcertou, pois Policarpo

revela-se um homem ingênuo até cair na real, quando se desencanta com a sociedade", declarou ao Caderno 2 por ocasião da estreia de Policarpo Quaresma. "Como em praticamente toda sua obra, Lima expunha os próprios problemas na pele de seus personagens." Com relação à adaptação do romance, que também assina, Antunes disse: "Abusei da liberdade, pois, se ficasse preso às teorias teatrais, estaria morto."

Crítica: Jefferson Del Rios

O TRISTE FIM DE UM PATRIOTA DESLOCADO

As grandes cenas de Policarpo Quaresma, adaptado da obra de Lima Barreto, lembram as tomadas gerais e os planos sequência de cinema. Como, por exemplo, a do majestoso baile de O Leopardo, de Luchino Visconti. Pode-se evocar igualmente Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Fellini porque Antunes Filho é um encenador de palco com sensibilidade de cineasta e de artista plástico. A montagem dá continuidade à estética iniciada com Peer Gynt, de Ibsen (1971), consolidada com Macunaíma, de Mário de Andrade (1978), e os ciclos Nelson Rodrigues, tragédias gregas e o universo de Ariano Suassuna (A Pedra do Reino). Sem esquecer os bons efeitos plásticos conseguidos com Shakespeare, Guimarães Rosa, Jorge Andrade. O resultado é emotivo e espetacular mesmo sem transmitir por inteiro o sabor da escrita descritiva e colorida do original (O Triste Fim de Policarpo Quaresma). O escritor, amoroso retratista do Rio de Janeiro do início do século 20 e criador de tipos formidáveis, exigiria, talvez, horas de representação. O espetáculo está mais direcionado para os focos ideológicos do romance; este é o objetivo de Antunes.

São Paulo novamente faz justiça a Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), que prossegue subestimado, embora, paradoxalmente, se lhe confira a estatura de Machado de Assis. Em 1956, a Editora Brasiliense editou as obras completas (volumes bem acabados, com capas do pintor gaúcho Edgar Koetz). Agora, o Centro de Pesquisas Teatrais (CPT) tira uma vez mais do silêncio o "mestiço neto de Gogol" na descrição do crítico Agrippino Grieco, que o nomeou "o maior e mais brasileiro dos nossos romancistas, o nosso primeiro criador de almas. Ele sentiu a tristeza e o humor que cabem na vida do pobre. Todo o Rio está na sua obra. Outros romancistas podem inspirar-nos maior admiração; nenhum outro pode inspirar-nos tamanho amor".

O combativo Grieco sentiu em Lima Barreto o "sarcasta comovido e áspero" (também uma possível definição para José Alves Antunes Filho). Tais características estão evidentes no enredo caricato e acusador em que o Major Policarpo Quaresma é o nacionalista excêntrico e deslocado no tempo. Defende o tupi e a modinha como língua e música legítimas e oficiais, e tem uma ideia irreal da agricultura. Preconiza, de certa forma, o estranho nacionalismo de uma ala do movimento modernista da qual fez parte Plínio Salgado, o idealizador do integralismo. Mas tais fantasias nativistas esbarram na truculência do início militar da República, sobretudo no governo do Marechal Floriano Peixoto.

Ressonâncias. Por motivos afetivos e familiares, Lima Barreto não se entusiasmou com a queda da monarquia. Escapou, porém, da nostalgia conservadora ao se preocupar com o viés autoritário do pensamento positivista vigente nos quartéis. Com a brutalidade da repressão armada aos movimentos oposicionistas ou o ímpeto patrimonialista das elites e a corrupção na máquina administrativa. Sua ficção teve ressonância na busca de Antunes por retratos/sínteses do Brasil, e o resultado está no atual Policarpo em forma de libelo ilustrado por imagens fortes. A linguagem do espetáculo é uma brilhante fusão de comédias antigas de cinema, musical, melodrama radiofônico e circo. Paira sobre a ação um clima de tango e charge humorística. O sarcasmo chega ao auge no número de sapateado do Hino Nacional, momento de inevitável impacto simbólico. Os personagens têm intervenções rápidas, exceto o Major bem interpretado por Lee Thalor, o que não impede aos demais participantes precisos lances criativos, caso de Geraldo Mario que se faz notar em uma encenação que tem sua força baseada no coletivo.

A imagem emblemática do drama nacional emerge no desamparo do sonhador iludido, na derrota de Policarpo Quaresma. O espetáculo fixa aí o Brasil do ranço burocrático e da odiosa divisão da sociedade em "estamentos", como apontaria Raymundo Faoro em Os Donos do Poder. Numa espécie de fulguração, os caminhos de Lima Barreto e de Antunes Filho se cruzam no patético com poesia; e tudo está dito.

Crítica: Mariangela Alves de Lima

A SOLIDÃO DE UM HERÓI E AS PAIXÕES MALOGRADAS

Há mais de três décadas um herói sem caráter protagonizou o primeiro trabalho do grupo experimental dirigido por Antunes Filho. Figura emblemática do modernismo, Macunaíma foi, também para o teatro, a encarnação do hibridismo, da apropriação indiscriminada de diferentes práticas culturais e artísticas e, sobretudo, da rebelião contra as distinções hierárquicas entre o popular e o erudito e entre a tecnologia e o artesanato na produção das manifestações artísticas.

Nas décadas seguintes o Centro de Pesquisa Teatral, incorporado ao Sesc, reafirmou, com ênfases diferentes, um ou outro corolário do projeto modernista. Quem examinar de perto as idéias e formalizações do CPT reconhecerá contornos nítidos ou esmaecidos das idéias e formalizações de Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Noêmia Mourão, Oswald de Andrade e Raul Bopp. Não só isso, porque, tendo como desígnio e prática ligar estreitamente o palco ao estudo teórico, o CPT mobilizou para a produção do seu repertório a historiografia, os estudos antropológicos e a vertente crítica sintonizada com as teses modernistas.

Agora, outro herói, este de muito caráter, sinaliza a ruptura temporária no desfile de obras que, ainda que de modo irônico, celebram as especificidades das civilizações americanas. Em Policarpo Quaresma, a nostalgia da origem e o orgulho da singularidade nacional confundem-se com a aspiração de pureza, quase de santidade - e é deste modo que Lima Barreto define sua personagem: "Desinteressado do dinheiro, de glória e posição, vivendo numa reserva de sonho, adquirira a candura e a pureza d"alma que vão habitar esses homens de uma ideia fixa, os grandes estudiosos, os sábios e os inventores, gente que fica mais terna, mais ingênua e mais inocente que as donzelas dos poemas de outras épocas."

Fracasso. Ensopado de nativismo romântico, retemperado pelo cientificismo do final do século 19 que corrigiu os exageros dos primeiros anos da Independência, o pobre Major Quaresma é o antagonista natural da voga multiculturalista. Só sabe valorizar seu país natal. E o final trágico a que o destina seu criador é, entre outras coisas, o reconhecimento do fracasso do idealismo.

Na perspectiva do diretor Antunes Filho, responsável pela adaptação de Triste Fim de Policarpo Quaresma e pela direção do espetáculo, a pátina resignada e amorosa que reveste o protagonista do romance é descartada de fora para dentro, ou seja, tudo o que o ingênuo Quaresma do espetáculo toca e vê é, do ponto de vista do espectador, de escasso valor estético. É singelo o gosto artístico suburbano e igualmente pobres são as festas que animam a vida de Policarpo e seus vizinhos. O que interessa no espetáculo é imaginação visionária desse Quixote da classe média. Embora ferozmente crítico das instituições, há no romance ambiguidades que fazem supor beleza nas canções ou verdadeira erudição no repertório cultural amealhado pelo infatigável empenho do major em conhecer sua terra. Arquitetado sob a hegemonia da escola realista, o romance faz justiça aos encantos do sarau suburbano, interessa-se pela descrição dos costumes e da paisagem, atribui valor positivo a aspectos da natureza tropical. Enfim, "vistos assim, do alto, os subúrbios têm a sua graça".

Grão de loucura. No espetáculo, o sobrevoo não tem muita importância. Na adaptação de Antunes Filho, as cenas eliminam referentes de situação, como descrição de interiores, relações humanas e paisagens urbanas. Em parte o desbaste elimina ganchos cuja função seria a de prender o leitor ao livro cuja primeira publicação foi seriada. Dramática e mais abstrata, a encenação simboliza movimentos coletivos por cortejos que atravessam o palco no sentido longitudinal, algumas vezes de modo lânguido como os cortejos funéreos, outras vezes retilíneos como as paradas militares. De qualquer modo, as circunstâncias representadas pelos cortejos são semelhantes no seu deslizar fluido, sem propósito evidente, prestes a se dissolver quando se aproximam do ponto de invisibilidade. Nada sugere a continuidade dos grupos, antes ou depois de entrar em cena. O universo sufocante das repartições públicas, a politicagem tacanha da província e a corrupção e violência da Primeira República são formalizados como fatores semelhantes em uma soma cujo resultado é a solidão desse herói "tocado por um grão de loucura".

No cerne do espetáculo, como um sentido unívoco, está a paixão malograda que, neste caso, são duas paixões malogradas. Há um paralelismo de tratamento que torna equivalentes, como apelo emocional e sedução estética, os sofrimentos de Policarpo e Ismênia. Como impulso para o ato ou como razão para viver, o mito da nação e o mito do matrimônio se equivalem. Tanto faz. Despojada, quase caricata ao apresentar de modo sumário o cancioneiro, as lendas e as fontes das pesquisas de Policarpo, a encenação engrandece o desejo e deixa de lado a proporção menor da coisa desejada. Prometeu e Policarpo têm a mesma estatura, pertencem ambos ao território sem fronteiras da tragédia.

Crítico Convidado: César Augusto

SOCO NO ESTÔMAGO: BOM PARA O TEATRO, BOM PARA O CIDADÃO

Antunes Filho demonstra a mesma capacidade de sempre de enlevar o espírito da plateia no espetáculo Policarpo Quaresma - adaptação para o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto - com o Centro de Pesquisa Teatral do Sesc.

Adaptar um romance para o teatro não é tarefa simples, porque implica na maioria das vezes em fazer escolhas. Nesse sentido, um leitor do romance, talvez, sinta falta de uma ou outra cena que ampare o sofrimento de Ismênia (Natalie Pascoal) ou a conduta de Olga (Tatiana Lenna). Essas lacunas, porém, não fazem falta, porque a linha de força dramática escolhida aproveita essas circunstâncias "secundárias" como espelho distorcido do sofrimento ou como paroxismo das "loucuras e devaneios" do Major Policarpo Quaresma (Lee Thalor). Com isso, Antunes põe uma lupa no caráter do Major e enxerga aspectos que lembram personagens de Ibsen (como Solness cujo desejo é o de edificar uma torre utópica, símbolo da sociedade) e de Herzog (como Aguirre, que, sucumbindo sobre uma jangada destruída, ainda tem sonhos de glória), além dos já investigados Macunaíma e Quaderna. Este procedimento dramatúrgico ajuda a transpor da estrutura literária o que há de teatralidade.

Assim é que Antunes joga com o tempo e o espaço na cena, criando um sistema que imbrica as antíteses: claro e escuro, entropia (desordem) e neguentropia (equilíbrio), adágio e vivace, solenidade e derrisão, sublime e grotesco, cômico e trágico, ideal e real. Isso provoca uma sensação de suspensão à dinâmica da peça. Dentre eles, destacam-se a cena inicial, mais do que um prenúncio, ela estampa, com ironia, o suplício, o escárnio e a tragédia a que Policarpo será submetido, os loucos do hospício para o qual ele foi enviado, a dança que mata as formigas - culminando com o sapateado do Major sob o Hino Nacional, os desfiles-cortejos das mortes de Ismênia e dos soldados, inspirados em Tadeusz Kantor, e o irônico tango de Marcos de Andrade e Fernando Aveiro.

Por tudo isso, embora Antunes admita gostar de personagens picarescos e Policarpo tenha este lado também, como Macunaíma e Quaderna - parece que o riso e o escárnio, em vez de linhas condutoras, são válvulas de escape que dão respiro ao subterrâneo trágico do Major. Vale dizer que uma coisa não exclui a outra, e sim se complementam, aumentando as contradições.

Depois de tudo isto, é um triste fim ou feliz?

Feliz, pois o talento de Antunes e dos atores faz as pessoas contemplarem e se alienarem positivamente, no sentido empregado por Adorno, ao fenômeno estético.

E, ao mesmo tempo, triste porque o substrato político de Lima Barreto - que diz ter visto "com desgosto a implantação da República", através de patrulhas armadas, e "a falta de consciência civil" - parece mostrar que teorias como o positivismo ("filho tardio do Iluminismo com seu projeto de racionalidade", segundo Eric Hobsbawm) em parte não funcionaram e não funcionam, no Brasil, onde, de acordo com o diretor, as tragédias são muitas vezes "baseadas em atos risíveis". Mas, se por outro lado o relativismo também não tem ajudado muito, o que fazer? É nessa encruzilhada que Antunes através da peça parece colocar a todos, inclusive a si próprio.

A peça é um soco no estômago: escancara nossa predisposição em lutar pelo direito à preguiça. O público veste, com Policarpo, a mortalha da cena final, fica também derreado, e, ainda assim, entende que, apesar da utopia natimorta, é preciso ser "dado ao maravilhoso", como diz Lima Barreto, "ao mistério", é preciso dançar, ainda que seja num canto escuro e só. Bom para o teatro, bom para o cidadão.

César Augusto é ator, diretor e professor de teatro. Atuou no Centro de Pesquisas Teatrais (CPT) do Sesc por seis anos.

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