Polêmico, mas sempre bom ator

Jodie Foster volta ao tema do herói perturbado, sob medida para Mel Gibson

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2011 | 00h00

Terrence Malick e Mel Gibson, um diretor e um ator, foram os únicos que faltaram às coletivas de Cannes. O caso de Malick é especial. Ele tem fama de tímido e o isolamento agrega ao seu mito, A Árvore da Vida terminou contemplado, até de forma excessiva, com a Palma de Ouro. A história com Gibson é diferente.

Eventualmente diretor - premiado com o Oscar por Coração Valente -, Gibson fez a montée des marches pelo filme de Jodie Foster, Um Novo Despertar, que estreia hoje na cidade, mas fugiu à coletiva para evitar o confronto com a imprensa americana.

Por suas declarações antissemitas e recentes episódios de violência doméstica, o antigo favorito da "América" virou o monstro de plantão. Todo mundo hoje ama detestar Gibson, que hoje purga uma rejeição comparável à que também atingiu Kevin Costner. Jodie aproveitou a tribuna de Cannes para elogiar seu ator. Disse que ele entendeu perfeitamente o personagem e lhe entregou a interpretação de seus sonhos. Acrescentou o que esperava que, no exterior, a performance na bilheteria fosse melhor. Nos EUA, mesmo com lançamento pequeno, em circuito de arthouses, o filme foi um fiasco.

É verdade que a culpa talvez não seja só de Gibson. Jodie gosta de histórias esquisitas e de personagens que não se pautam pelo senso comum. O público costuma se ressentir disso. Ao contrário de seus filmes como atriz, nenhum dos que realizou foi um grande êxito. Um Novo Despertar conta a história de Walter (Gibson). Sua vida afetiva e profissional entra em colapso e ele se refugia no mutismo. Para verbalizar o turbilhão interior, vale-se de uma marionete, o castor do título original.

É estranho ver um personagem que fala por meio desse castor de pelúcia preso em sua mão. Mas, a despeito do tom menor com que a história é narrada, é interessante constatar como ambos, ator e diretora, também se valem do castor (e Jodie, de Walter) como alter egos. Na coletiva, Jodie admitiu que teve vários momentos de solidão e introversão, ao longo de sua carreira. O fato de ser atriz desde criança - e de haver estado em Cannes em 1976, participando de um clássico vencedor da Palma, Taxi Driver, de Martin Scorsese -, lhe permitiu muitas vezes usar filmes e personagens para se comunicar, como Walter faz com o castor.

Um Novo Despertar tem a cara de Jodie - um herói perturbado como o menino de Mentes Que Brilham e uma família complicada como a de Feriados em Família, que ela fez antes. A questão é reorganizar o mundo em perigo. A velha segunda chance. Mel Gibson tem sido detestável ao abrir a boca (e talvez tenha sido mesmo melhor fugir ao confronto com a imprensa). Mas se você ainda tinha dúvidas de que ele é um bom ator, esse é o filme para fazê-lo(a) mudar de opinião.

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