AP Photo/Remy De La Mauviniere
AP Photo/Remy De La Mauviniere

Polanski volta à cena. e leva 3 prêmios

Diretor ressurge depois da prisão para colher os louros de The Ghost Writer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2011 | 00h00

Roman Polanski foi o astro da cerimônia de entrega dos prêmios da Associação dos Jornalistas Estrangeiros de Paris, na sexta-feira à noite. Todo ano, a associação francesa se antecipa à festa dos Jornalistas Estrangeiros de Hollywood, que entregou seus prêmios ontem à noite (Globo de Ouro, veja a cobertura na edição de amanhã). Polanski, em sua primeira grande aparição pública após a libertação, foi receber um prêmio de carreira. Ele saiu triplamente premiado da festa, pois recebeu também os Lumières - é o nome do prêmio - de roteiro e direção, por The Ghost Writer, O Escritor Fantasma.

A festa foi realizada no salão nobre da Prefeitura de Paris. Polanski chegou sozinho, seguido por um batalhão de fotógrafos e jornalistas. Ele recebeu seu prêmio especial das mãos de Sergue Toubiana, ex-Cahiers du Cinema. Toubiana fez um discurso destacando a dupla nacionalidade, polonesa e francesa, de Polanski. Lembrou que o cosmopolitismo dá o tom da obra do autor, mas o fato de ser polonês e francês lhe fornece características especiais. Seria fácil admirar Polanski como artista, mas Toubiana queria aproveitar a oportunidade para dizer: "Nós te amamos, Roman." E disse.

Foram aplaudidos de pé, Polanski e Toubiana. O diretor estava de excelente humor. Não fez nenhuma declaração política, e menos ainda envolvendo os incidentes que levaram à sua prisão na Suíça, acusado de ter praticado pedofilia há 31 anos. Lamentou que o escritor Robert Harris, coautor do roteiro de The Ghost Writer, não estivesse presente para compartilhar o momento de triunfo, mas disse que o prêmio de direção era dele e estava reconhecido. Com o Oscar e a Palma de Ouro, que recebeu por O Pianista, era o que mais lhe falava ao coração.

Como é praxe durante a cerimônia, os organizadores exibem sempre um curta para dividir os blocos da premiação. Este ano o curta escolhido foi Dois Homens e Um Armário, que o jovem Polanski realizou bem cedo na Polônia, ao se formar na escola de cinema de Lopdz. Dois saem do mar carregando um armário. Como num exercício de humor absurdo, à maneira de Ionesco, atravessam a violência do mundo, antes de regressar ao mar. O próprio Polanski faz uma participação como ator, agredindo um dos homens que carregam o armário. O personagem antecipa o gângster de Chinatown, que fez nos EUA, nos anos 1970. Polanski interrompeu a cerimônia e pediu licença para subir ao palco. Desculpou-se pelo filme, que definiu como ''pecado de juventude''.

Verdadeiro fenômeno de público na França, Des Hommes et des Dieux, de Xavier Beauvois, ganhou o Lumière de melhor filme. Em Cannes, no ano passado, a história dos monges em choque com grupos de guerrilheiros islâmicos nas montanhas da Argélia - mas o filme foi rodado na Tunísia - já havia recebido o prêmio especial do júri. Michel Lonsdale, por Des Hommes et des Dieux, foi o melhor ator. Kristin Scott Thomas, a melhor atriz, por Elle s''Appellait Sarah, de Gilles Poquet-Brenner. O melhor filme estrangeiro francófono foi Um Homem Que Grita, do chiadiano Mahamat Saleh Haroun.

Um pouco como o Globo de Ouro nos EUA, o Lumière antecipa tendências do Cesar, o Oscar do cinema francês. The Ghost Writer e Des Hommes et des Dieux vão voltar a se bater no Cesar. Mais que o tema político, Xavier Beauvois destacou a espiritualidade dos religiosos de seu filme. Ele talvez tivesse gostado de receber o prêmio de direção, mas, ao descer do palco, foi abraçar Polanski, que brincou de lhe entregar seu troféu de mise-en-scene. Polanski já havia abraçado longamente Michel Lonsdale, o melhor ator. Dotado de uma dicção prodigiosa, Lonsdale possui uma extensa carreira no cinema e no teatro. Foi vilão de James Bond (007 contra o Foguete da Morte) e trabalhou com autores de prestígio como Raul Ruiz, Steven Spielberg, Fred Zinnemann, Godard,Truffaut, Buñuel e Joseph Losey. Des Hommes et des Dieux será distribuído no Brasil pela Imovision, que promete o lançamento para o segundo semestre, com o título traduzido literalmente para Homens e Deuses.

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