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Polanski mira a hipocrisia em 'Carnage'

Cineasta, que não foi ao Festival de Veneza, faz estudo sobre a hipocrisia com adaptação de peça teatral

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2011 | 00h00

Polanski, que não foi ao Lido, apresenta uma dramaturgia sólida em Carnage, peça de Yasmina Reza montada no Brasil como O Deus da Carnificina. Entre nós, a peça é dirigida por Emilio de Mello e tem um quarteto afinadíssimo a interpretar o texto: Paulo Betti, Julia Lemmertz, Orã Figueiredo e Deborah Evelyn. Polanski vai de Christopher Waltz, Kate Winslet, John C. Reilly e Jodie Foster. Que time! E que bom resultado alcança o diretor.

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Mantendo a estrutura teatral de base, Polanski usa o movimento de câmera para colocar pontos de vista múltiplos, coisa impossível de fazer no teatro. Apenas isso e uma ou outra cena que não existem na montagem em palco: uma surpresa final e imagens da briga dos meninos que motiva o encontro entre os dois casais. É só isso.

Mas, nesse "só isso" há todo um mundo, expresso de maneira sintética no texto de Yasmina Reza. Dois meninos brigam, um deles agride o outro com um pedaço de pau. O agredido tem dois dentes lesionados. Os pais do menino agressor vão visitar os pais do agredido para discutir os termos de uma reparação. E o que começa em tom civilizado acaba decaindo para algo bastante próximo da barbárie.

Um ponto importante é que as conversas são sempre interrompidas pelo celular de Alan (Christopher Waltz), advogado em via de defender uma indústria farmacêutica acusada de vender remédio para cardíacos que produz efeitos colaterais. Sua mulher, Nancy (Kate Winslet) é exemplo acabado de nariz em pé, até se tornar presa dos seus instintos. Penelope (Jodie Foster) é uma dona de casa interessada em arte e seu marido, Michael (John C. Reilly), vende produtos domésticos.

O poder evocativo de Carnage é grande. Através dele, você pode ler um comentário sobre o tênue verniz da civilidade que encobre as pulsões agressivas. Pode ler alusões certeiras sobre como as guerras começam, de desentendimentos entre vizinhos a querelas entre países. E pode ver, também, como homens e mulheres, sofisticados ou não, alternam bom-senso e baixaria com a maior desfaçatez. Polanski trabalhou na versão para cinema durante a sua prisão na Suíça, o que faz de Carnage também um estudo sobre a hipocrisia.

O curioso é que o mesmo texto suporta leituras diferentes, de acordo com o diretor e o elenco. Pode ser encenado como tragédia ou comédia, usando as mesmíssimas palavras. Tudo depende da ênfase, das pausas, da maneira como as palavras são ditas. Tanto na leitura de Mello como na de Polanski, o tom é o da comédia. A plateia responde à altura. O riso não abafa o tom crítico mas, pelo contrário, o realça. Em Carnage, rimos de nós mesmos. Naquela base de que é melhor rir para não chorar.

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