POÉTICOS

Recital solo de Dimos Goudaroulis comprova o nível excepcional de qualidade do trabalho do violoncelista

O Estado de S.Paulo

28 de março de 2013 | 02h07

Crítica: João Marcos Coelho

Um retrato de corpo inteiro. Assim se pode qualificar o recital solo do violoncelista Dimos Goudaroulis, na manhã de anteontem, no segundo concerto da temporada 2013 da série coordenada pelo pianista Gilberto Tinetti na Fundação Maria Luísa e Oscar Americano, ao ritmo de dois concertos mensais entre março e novembro. Grego, Dimos abraçou o Brasil 17 anos atrás - e de lá para cá vem provando que é possível fazer música de alto nível, sem adjetivos. Seja empunhando violoncelo barroco, moderno ou de cinco cordas, no domínio dos instrumentos; seja fazendo música antiga, contemporânea ou improvisando, Dimos mantém sempre um nível excepcional de qualidade. E faz dos comentários uma ponte interessante e informativa não só para detalhes dos seus instrumentos, mas de uma concepção inovadora da música: saúda o barroco, em que a diferença e a diversidade conviviam numa liberdade artística que desde o romantismo do século 19 se perdeu, trocada pela padronização dos instrumentos.

O acidente de um ano atrás no Teatro Alfa, em São Paulo, é hoje mera lembrança. Ele está no melhor de sua forma. O que é um presente para todos os que gostam de boa música.

Na pequena sala da fundação, Dimos mostrou do que os violoncelos são capazes. Ele abriu com a primeira peça para violoncelo solo da história da música, o quinto dos sete Ricercare de Domenico Gabrielli, compositor bolonhês do século 17. Ainda no violoncelo barroco de cordas de tripas, levou o público a viajar com as danças da primeira suíte para violoncelo solo de Bach, escritas cerca de meio século depois do ricercare de Gabrielli.

Como sempre em suas apresentações, abriu espaço para a música contemporânea, com Chronos III, bela peça que lhe foi dedicada pelo compositor carioca Roberto Victorio, de 54 anos, hoje radicado em Mato Grosso. Técnicas expandidas num violoncelo moderno, de sonoridade muito mais brilhante e potente, a serviço de uma música de qualidade. "Ouçam como se aqui estivesse um poeta chinês recitando um poema; vocês não entenderiam as palavras, mas se sentiriam capturados pelo sentimento de sua voz; assim é a música contemporânea."

Na sexta suíte de Bach, um retorno no tempo, a um instrumento raro, o violoncelo barroco de cinco cordas (a recém-chegada é a nota mi, a mais aguda). Suíte dificílima, desde o prelúdio até a vertiginosa courante e as gavottes, em execução apaixonada, entusiasmante.

No extra, mais um atributo que diferencia Dimos dos músicos convencionais de hoje em dia: um improviso arrebatador.

JJJJ ÓTIMO

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