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Poética moldada pelo olhar

O fotógrafo e o cineasta convivem no escritor; as imagens são como enigmas que ele imobiliza

Dirce Waltrick do Amarante,

01 de março de 2013 | 22h00

Certa vez Paul Auster afirmou que "poesia é como tirar fotografias, enquanto prosa é como rodar um filme". O fotógrafo e o cineasta convivem na obra desse escritor, mais conhecido pelos seus livros de ficção, como os bem-sucedidos O Livro das Ilusões e A Música do Acaso, do que pela sua poesia. Nos poemas de Auster, as imagens são verdadeiros enigmas que ele "imobiliza" diante de nossos olhos. Seus versos fotográficos não "ilustram" o texto, mas cada um é, como disse Roland Barthes ao se referir à poesia japonesa, a origem de uma espécie de vacilação visual, análoga, talvez, à perda de sentido. Lemos em Raios, de 1970, que: "Entre o pardal e o pássaro sem nome:/ sua presa./ Pelo intervalo escapa a luz".

Nesse e em outros poemas dos anos de 1970, Auster não "comenta" nada. Ele se vale muitas vezes de uma linguagem descritiva que, pela sua concisão, talvez esteja próxima do haicai: "Raízes agonizam entre vermes - o crivo/ Da hora convive no peito de um pardal./ Entre ramo e espira - a palavra/ Apequena seu ninho, e a semente, ninada/ Por lindes mais simples, não vai confessar./ Apenas o ovo gravita". Auster parece passear pelo mundo, como afirmaria Barthes, com um caderninho na mão, anotando aqui e ali algumas "impressões" cuja brevidade garantiria a perfeição, cuja simplicidade atestaria a profundidade.

As "fotografias" de Auster se convertem em aparição frágil de um momento insustentável que logo vai se transformar em fala. O poeta chama a atenção do leitor para o fato: "Ver é mais essa tortura, redimida/ Na dor de ser visto: o dito,/ O visto, contido na recusa/ De falar, e a semente de um só som,/ Inumada numa pedra à toa./ Minhas mentiras jamais me pertenceram". Não seria esse o cerne do poema de Auster? Estar sempre à procura de um corpo "sem-eu" e de um eu que quer ser reconhecido como seu "escrevente", como já sugeriu em outro contexto a escritora portuguesa Maria Gabriela Lhansol.

Além de escritor, roteirista e poeta, Auster se dedicou também à tradução de alguns escritores franceses que admirava, entre eles, Maurice Blanchot, autor de uma ficção enigmática que parece mais fotografia do que filme. É possível identificar certa influência da prosa abstrata de Blanchot na sua poesia. Em muitos de seus poemas, Auster investiga a linguagem e, ao fazê-lo, parece também prestar um tributo às ideias do escritor francês, que é muito mais apreciado como pensador do que ficcionista. Talvez este seja um dos seus poemas mais blanchotianos: "Picaretas pontuam a pedreira - marcas gastas/ Que não alcançaram cifrar a mensagem./ A disputa açulou suas letras,/ E as pedras, cingidas de abuso,/ Memorizaram a derrota".

Auster fala da derrota da escrita, de sua impossibilidade, do vazio das palavras. Maurice Blanchot afirma que a derrota está relacionada à impossibilidade de narrar um fato, de "comentá-lo": "O escritor parece senhor de sua caneta, pode tornar-se capaz de um grande domínio sobre as palavras, sobre o que deseja fazê-las exprimir. Mas o domínio consegue apenas colocá-lo e mantê-lo em contato com a profunda passividade em que a palavra, não sendo mais do que sua aparência e a sombra de uma palavra, nunca pode ser dominada nem mesmo apreendida, mantém-se inapreensível, o momento indeciso da fascinação".

Em Espaços em Branco, de 1979, Auster, dando prosseguimento à sua reflexão de cunho blanchotiano, escreve: "Vem de minha voz. Mas isso não significa que essas palavras jamais virão a ser o que acontece. Vem e vai. Se por acaso estou falando neste momento, é só porque espero achar uma forma de ir junto, de correr em paralelo a tudo mais que está indo junto, e assim começar a achar uma forma de preencher o silêncio sem parti-lo". Já em Anotações de Um Caderno de Rascunhos, 1967, ele afirma que "O mundo não tem existência objetiva. Ele existe apenas na medida em que somos capazes de percebê-lo. E nossas percepções são necessariamente limitadas. O que quer dizer que o mundo tem um limite, que ele para em algum ponto. Mas o ponto em que para para mim não é necessariamente o ponto em que para para você".

Vê-se aí uma afinidade do seu pensamento com o de André Breton, de quem é grande admirador. Os surrealistas, como disse Octavio Paz, sabiam que nunca é possível ver o objeto em si, já que ele é sempre "iluminado" pelo olho de quem o vê e acaba "moldado pela mão que o acaricia, o oprime ou o empunha". De fato, nas fotografias poéticas de Auster "o mundo é minha ideia. Eu sou o mundo. O mundo é sua ideia. Você é o mundo. Meu mundo e seu mundo não são o mesmo".

DIRCE WALTRICK DO AMARANTE, TRADUTORA, É PROFESSORA DO CURSO DE ARTES CÊNICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

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