Poética da imagem aparece já nos primeiros trabalhos

A observação e estudo das fotos de Kubrick ainda vão render frutos teóricos entre os críticos. São imagens que pedem reflexão, nem tanto para desenharmos uma linha evolutiva que levaria do fotógrafo ao cineasta, mas para sacarmos uma poética da imagem já em ação, desde o tempo da Look.

Luiz Zanin Oricchio,

03 de outubro de 2010 | 00h09

Primeiro, um ideal da forma como composição do quadro e disposição dos volumes. Uma harmonia do quadro e dos movimentos, um equilíbrio que se dá exatamente pela possibilidade do desequilíbrio. A fotografia dos artistas circenses que está no alto desta página é bom exemplo dessa disposição. Note o perfeito balanço do trio de equilibristas, numa pose inusitada, perfeita, que cativa ainda mais o olhar pela presença um tanto misteriosa do personagem em primeiro plano.

Por que ele está lá, quando explicitamente o "tema" da imagem são os artistas? É uma presença que destaca, por paradoxo, aquilo que se passa às suas costas. Mas é também um elemento que empresta certa estranheza à fotografia. Quem seria ele? Um empresário? Um espectador? Por que está com a mão em concha ao lado da boca? O que procura dizer? A quem? Não sabemos nada disso pela mera observação da imagem. Mas tudo o que não sabemos estimula a nossa imaginação.

O que remete a outra característica de Kubrick: o culto da ambiguidade. Ele sabia que a imagem precisa ser clara e, ao mesmo tempo, ambivalente. Dessa dupla face ela tira a sua força, pois, sendo clara, atinge diretamente o sentido do espectador; e sendo ambígua, explode numa polifonia de sentidos possíveis.

É assim nas fotos; será assim nos filmes. Adivinha-se, nessa constância, uma disposição estética, uma "poética" da imagem, cara a Kubrick. São suas palavras: "Sempre pensei que uma ambiguidade crível, realística de verdade, constitua a melhor forma de expressão. E isso por diversas razões. Primeiro de tudo, ninguém gosta que as coisas lhe venham explicadas, ninguém gosta que a verdade do que está acontecendo lhe chegue mastigada E, coisa ainda mais importante, ninguém sabe de verdade o que seja o real ou o que esteja acontecendo. Acredito que uma verdadeira, perfeita ambiguidade, seja alguma coisa que pode ter diversos significados, cada um dos quais detém algum aspecto da realidade, e cada dos quais, ao mesmo tempo, induz o observador a mover-se emocionalmente na direção em que desejamos que ele se mova. Creio que uma asserção clara, literal e "objetiva" seja em si mesma falsa e não terá jamais o poder que pode ter uma perfeita ambiguidade."

Nos melhores filmes de Kubrick - e os melhores são quase todos - reencontram-se essas características, que já podem ser intuídas nas fotos. A imagem costuma ser clara e misteriosa a um tempo, como se Kubrick trabalhasse no limite do hiper-realismo. Aparecem, independentes do tema - seja na ficção científica de 2001, na distopia social de Laranja Mecânica ou num drama histórico e amoroso como Barry Lyndon.

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