Poética contra a lógica

Ensaio de Claudio Willer examina os fundamentos da trajetória da lírica gnóstica

Olgária Matos, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

O presente trabalho do pesquisador erudito, escritor e poeta Claudio Willer é um contradiscurso poético que refaz a trajetória do gnosticismo na lírica moderna. O autor realiza um "discurso do método", no qual analisa o pensamento estético e formal de românticos e malditos, contrários ao espírito de sistema, ao princípio de identidade e à noção de origem. Por essa razão, Willer indica um dos traços mais significativos do gnosticismo, seu antiuniversalismo crítico: "(O elitismo) mesmo não sendo discriminador de categorias sociais, foi mais um traço distintivo do gnosticismo com relação a dois universalismos. Um deles, o do cristianismo, que abriu as portas do céu a todos ao apresentar-se como religião não iniciática, oficiada por homens iletrados e sem posição social, como é dito em Atos dos Apóstolos. (...) Outro universalismo foi aquele do Esclarecimento, favorável ao acesso amplo ao conhecimento, e mais, formulador de uma interpretação da história que associa o progresso à difusão do conhecimento."

Contradiscurso à lógica da evidência e da distinção, a poética gnóstica enfatiza a duplicidade de tudo e a ambivalência do mundo. Atitude insurgente, já que o poder não permite a ambiguidade, a dominação requerendo classificações tanto mais claras quanto mais se curvam ao controle e à assimilação. O tempo da poesia não é lógico, mas analógico, tal como em Nerval. Por isso, as reflexões do autor acompanham o percurso gnóstico do Eu oculto, a duplicidade das almas na pseudoepigrafia dos textos gnósticos e seus frutos na poesia: "Qual o sentido do autor (gnóstico) identificar-se (com a assinatura da obra) se essa identidade era falsa, atributo do "eu" adventício? É a mesma lógica pela qual se explica a adoção de um novo nome nos rituais tribais de passagem, em ordens e confrarias iniciáticas, e no âmbito do cristianismo, em ordens monásticas e pelo papa. E talvez valha para alguns dos casos de adoção de pseudônimos por escritores." Porque não estão a serviço do "universal", os poetas malditos são profetas, mostraram "novos modos de ver o mundo, ou velhos modos, porém atualizados, assim configurando o novo mito, necessário (...) para que o homem deixasse de se considerar o centro ou o "ponto de mira" do universo, possibilitando que o mundo mudasse". E isto porque o "obscuro encanto" da poesia moderna se encontra no sagrado. Bem entendido: para o autor, não é o sagrado o fundamento da poesia, mas a poesia o fundamento do sagrado.

OLGÁRIA MATOS É PROFESSORA EMÉRITA DO DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA DA FFLCH-USP, E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE BENJAMINIANAS (EDITORA UNESP)

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