Poetas se reúnem em bar da periferia de SP

Para aqueles que moram nas regiões mais nobres da cidade, chegar ao humilde bar Zé Batidão pode parecer uma tarefa complicada. É preciso seguir pela Avenida Guarapiranga, entrar na Estrada do M´boi Mirim e, próximo à Igreja de Piraporinha, entrar à direita em algumas ruas escuras.Mas todo esse trabalho vale a pena. Nas noites de quarta-feira, a partir das 20h30, o simpático boteco de José Cláudio Rosa, que nos outros dias da semana costuma servir de ponto de encontro para a turma do bairro de Chácara Santana, na Zona Sul, abriga os saraus da Cooperativa Cultural da Periferia, a Cooperifa, uma espécie de associação de poetas que há quatro anos tenta mostrar ao mundo o que a periferia tem de boa literatura e poesia. "Estamos tentando mudar o sentido da bússola cultural da cidade", diz o poeta Sérgio Vaz, um dos idealizadores da iniciativa. "Enquanto antigamente o pessoal dos bairros periféricos precisava ir ao centro para desfrutar de atividades culturais, hoje vem gente de Pinheiros e da Vila Madalena para apreciar a produção artística dos extremos da Cidade", explica.Os saraus começaram há cerca de quatro anos na cidade de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, em uma fábrica invadida. Depois de apenas duas edições, eles foram expulsos do lugar e resolveram montar o evento em outro espaço na mesma cidade. Ficaram um ano no Taboão e depois mudaram o evento semanal para o bar Zé Batidão, onde está até hoje. "O Sérgio morava por aqui e eu já admirava seu trabalho como poeta. Quando ele veio propor de fazer os saraus em meu bar, aceitei na hora", lembra o proprietário do boteco. Ele conta ainda que, apesar de já ter reunido mais de 300 pessoas nas noites de sarau, o pessoal da região ainda fica um pouco intimidado e não costuma freqüentar os eventos."Recebemos gente de várias partes da cidade e até de outros estados. Além do pessoal da zona sul, temos um grupo de poetas que vem do Itaim Paulista , no extremo leste de São Paulo, e a galera que vem do Taboão da Serra e de outros municípios da Grande São Paulo. Também costumamos receber grupos de estudantes de várias universidades", conta o poeta Márcio Batista, que junto a Vaz e o poeta Marco Pezão organiza as sessões.A estudante de Comunicação da PUC de São Paulo Tatiana Das cal, por exemplo, já foi duas vezes à Cooperifa. "Conheci o lugar através de alguns amigos que já tinham vindo. Achei muito interessante poder assistir às manifestações culturais da periferia e resolvi voltar", conta.A noite sempre começa com uma apresentação musical, que tem início por volta de 20h30 e segue até as 21 horas. Depois, Sérgio Vaz faz as honras da casa e dá o pontapé inicial ao sarau com um de seus poemas. Não há palco para os artistas. As poesias são declamadas em um cantinho vazio do bar.Em meio a garrafas de cerveja e petiscos como porções de torresmo ou carne assada, a platéia segue com atenção a apresentação, obedecendo ao aviso de um grande cartaz afixado na parede: O silêncio é uma prece. Qualquer manifestação de conversa do público é prontamente condenada pelos organizadores para que todas as atenções estejam dirigidas à poesia.Operários, rappers, estudantes universitários usando sandálias de couro, donas de casa e membros de ONGs de diversas regiões da cidade e de municípios vizinhos se encontram para declamar poemas próprios ou de outras pessoas. Para participar, basta pedir que seu nome seja adicionado à lista dos participantes da noite. Nos poemas, a dura realidade e a violência dos bairros periféricos se mistura com histórias de amor, de dor de cotovelo e situações anedóticas e engraçadas.Além de composições próprias, há também espaço para poesias de autores consagrados. Na noite em que a reportagem do JT acompanhou o evento, houve uma interpretação emocionante de Navio Negreiro, do poeta Castro Alves.Tanta agitação cultural já rendeu frutos. Eles lançaram o CD Sarau da Cooperifa, com poesias de 26 autores da periferia.

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